Capítulo 4
POV da Eileen
As horas se arrastaram, agonizantes, numa lentidão sem fim.
Dona Martha voltou ao pôr do sol com as vestes cerimoniais — um vestido branco esvoaçante que parecia mais coisa de templo grego do que de casamento moderno. Ela estendeu a peça sobre a cama sem dizer uma palavra e, em seguida, me entregou um cartãozinho com instruções escritas à mão.
O ritual de purificação. Certo.
O banho até que foi gostoso — as ervas deixaram a água com cheiro de mata depois da chuva e, por alguns minutos, eu quase consegui fingir que era só uma noite comum. Só um banho comum.
Se não fosse pelo fato de que minhas mãos não paravam de tremer.
Eu não conseguia parar de pensar no Silas. Em como ele tinha estado de manhã — vivo, real, aqui. Em como, em poucas horas, eu estaria diante dele de novo. Em como os dentes dele romperiam minha pele e ele deixaria a marca dele em mim.
A marca que eu tinha rejeitado na minha primeira vida. A marca que eu escondi sob lenços e golas altas porque eu tinha vergonha dela.
Terminei o banho e me sequei, depois fiquei diante do espelho para recitar os juramentos da família. As palavras soavam estranhas na minha boca — eu nunca tinha dado muita atenção à história da minha família, ocupada demais com o meu próprio drama para ligar para quem tinha vindo antes de mim.
Mas agora, encarando meu reflexo no espelho — os olhos verdes da minha mãe, o cabelo escuro dela — eu senti o peso daquelas palavras de um jeito diferente.
Eu sou filha de curadores e videntes. Carrego o sangue daqueles que caminharam entre mundos. Eu consagro meu poder à proteção daqueles que eu amo, e não vacilarei diante das trevas.
Minha voz falhou na última frase.
Tentei de novo.
Eu não vacilarei diante das trevas.
Dessa vez, eu quis dizer aquilo.
Os jardins à noite eram lindos.
Alguém tinha pendurado luzes entre as árvores — não aquelas elétricas e fortes, mas globos suaves e brilhantes, quase como luar engarrafado. Elas iluminavam um caminho por entre as roseiras e a lavanda, levando mais fundo no jardim, em direção a uma clareira que eu mal conseguia enxergar através das árvores.
Meu escolta era um lobo jovem que eu não reconheci — provavelmente um dos guardas da alcateia. Ele caminhava três passos à minha frente, silencioso e profissional, sem olhar para trás para ver se eu vinha.
E eu vinha. Claro que eu vinha.
Meu coração batia tão forte que eu sentia na garganta.
As vestes cerimoniais sussurravam ao redor dos meus tornozelos enquanto eu andava; o tecido era tão leve que parecia que eu estava vestindo ar. Sem sapatos — isso também fazia parte da tradição. Meus pés descalços ficaram gelados sobre o caminho de pedra e, depois, macios sobre a grama quando deixamos os jardins formais para trás.
A clareira se abriu à nossa frente como algo saído de um conto de fadas.
Era circular, cercada por carvalhos antigos cujos galhos formavam um dossel natural acima de nós. No centro havia um altar de pedra plano, gasto e alisado por séculos de uso. E, mais adiante —
Silas.
Meu fôlego travou.
Ele estava sentado na cadeira de rodas, de frente para o altar, mas tinha se posicionado de modo a enxergar o caminho. De modo a me ver chegando.
O luar parecia gostar dele. Prendia-se no cabelo preto, transformava os olhos cinzentos em prata, desenhava seus traços marcantes em sombras e luz. Ele vestia roupas simples, pretas — camisa e calça — mas, de algum jeito, parecia mais régio do que qualquer rei com vestes cerimoniais.
Lindo. Ele era lindo pra caralho, a ponto de doer olhar.
E ele estava me observando. Aqueles olhos prata-acinzentados acompanharam cada passo meu quando eu entrei na clareira, e eu não consegui ler expressão nenhuma. Não consegui dizer o que ele estava pensando.
O escolta se curvou uma vez para Silas e então se dissolveu nas sombras, nos deixando a sós.
Só eu, Silas e a lua.
“Senhorita Goode.” A voz dele era baixa, controlada. Sem entregar nada.
“Alpha Keaton.” Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. “Obrigada por… por fazer isso.”
Algo tremulou na expressão dele — rápido demais para eu entender. “É um contrato. Eu sempre honro meus contratos.”
Certo. Claro. Para ele, isso era só negócios. Um acordo político entre famílias. Nada além.
Só que era muito mais do que isso. Pelo menos para mim.
Uma mulher mais velha saiu de entre as árvores — eu a reconheci como a Anciã Sarah, uma das líderes cerimoniais da alcateia. Ela carregava uma tigela que reluzia ao luar.
—Começamos —disse ela, simplesmente.
A cerimônia era exatamente como eu me lembrava. As palavras eram as mesmas. Os rituais eram os mesmos. A voz da Anciã Sarah subia e descia naquela cadência antiga da lei da matilha, falando de laços, de sangue e da bênção da lua.
Eu mal ouvia.
Tudo em que eu conseguia pensar era em Silas. Em como o luar capturava o brilho dos olhos dele. Na tensão do maxilar. Nas mãos agarradas aos apoios da cadeira de rodas.
—Aproxime-se —disse a Anciã Sarah.
Eu avancei com as pernas trêmulas até parar bem diante da cadeira de rodas de Silas. Perto o bastante para sentir o cheiro dele —cedro, couro e algo que era unicamente ele.
—Ajoelhe-se —instruiu a Anciã Sarah.
Eu me ajoelhei.
Agora estávamos na mesma altura. Agora eu via cada detalhe do rosto dele —a linha marcada do maxilar, as sombras leves sob os olhos, o jeito como as pupilas tinham se dilatado até os olhos ficarem mais pretos do que cinzentos.
—Eileen Goode —entonou a Anciã Sarah—, você aceita este vínculo livremente? Você se entrega a Silas Keaton, Alfa da Matilha Keaton, nesta vida e em todas as vidas que virão?
—Aceito. —As palavras saíram quase num sussurro.
—Silas Keaton —continuou a Anciã Sarah—, você aceita este vínculo livremente? Você se entrega a Eileen Goode, filha da linhagem Nightveil, nesta vida e em todas as vidas que virão?
Houve uma pausa. Só um batimento. Só o bastante para a dúvida se infiltrar.
Então:
—Aceito.
A voz dele veio áspera. Crua. Como se aquelas palavras tivessem custado alguma coisa.
—Então, pela luz da lua e pela lei da matilha —disse a Anciã Sarah—, eu testemunho este vínculo. Que ele seja selado em sangue e marcado na carne.
Ela deu um passo para trás, levando a tigela com ela.
Deixando apenas eu e Silas.
Ele se inclinou para a frente, devagar. Eu vi as mãos dele tremendo de leve onde agarravam os apoios da cadeira de rodas.
—Você tem certeza? —ele perguntou baixo. Tão baixo que quase não deu para ouvir. —Última chance de mudar de ideia.
Na minha primeira vida, eu tinha travado nesse instante. Eu tinha fechado os olhos e virado o rosto, incapaz até de olhar para ele. Incapaz de esconder minha repulsa.
—Tenho —eu disse. E então, porque eu precisava que ele entendesse: —Eu quero isso. Eu quero você.
Algo passou pelos olhos dele —choque, talvez, ou incredulidade. Como se ele não conseguisse processar o que eu tinha acabado de dizer.
Então ele se mexeu.
A mão dele subiu e segurou a nuca, os dedos se enfiando no meu cabelo. O toque foi gentil —muito mais gentil do que eu esperava— e eu senti minhas pálpebras começarem a pesar.
—Olha pra mim —ele disse, suave.
Eu abri os olhos.
—Vai doer —ele avisou.
—Eu sei.
Os olhos dele vasculharam os meus por mais um instante. Então ele se aproximou, e eu senti a respiração dele no meu pescoço, quente e um pouco instável.
—Me perdoa —ele sussurrou.
E então os dentes dele afundaram na minha pele.
A dor foi aguda, clara e imediata —como ser atingida por um raio. Eu puxei o ar, as mãos voando para segurar os ombros dele, os dedos cravando no tecido da camisa.
Mas por baixo da dor havia outra coisa. Algo que parecia certo. Como uma peça de quebra-cabeça finalmente se encaixando.
Os braços de Silas vieram ao meu redor, me mantendo firme enquanto a marca dele afundava mais. Eu sentia o coração dele batendo contra o meu peito —rápido e forte, acompanhando o meu.
Quando ele finalmente se afastou, os lábios dele estavam manchados de vermelho.
—Eileen —ele expirou. Só meu nome. Mas o jeito como ele disse —como uma oração, como uma promessa— fez meu coração falhar uma batida.
Eu queria dizer alguma coisa. Queria contar a ele que eu entendia agora. Que eu sentia muito pela minha primeira vida. Que eu passaria esta vida inteira compensando.
A mão dele ficou no meu ombro por só um instante antes de ele se afastar de vez, e Gavin surgiu das sombras, indo ajudá-lo a atravessar o chão irregular.
Eu vi os dois se afastarem, com a mão pressionada contra a marca recente no meu pescoço. O vínculo vibrava entre nós, dourado e vivo, e eu sentia ele se esticando à medida que Silas se distanciava—
—Seus pertences pessoais, senhorita Goode. —O lobo jovem que tinha me escoltado mais cedo deu um passo à frente, oferecendo uma pequena bolsinha de veludo.
Uma vibração aguda cortou o silêncio.
Violet.
Claro. Claro que ela ia me mandar mensagem justo agora. Justo neste momento.
