Capítulo 3
POV da Eileen
Virei para encarar a Sra. Martha, forçando os lábios num sorriso que eu esperava que parecesse agradável.
“Eu entendo que a equipe deve estar muito ocupada”, eu disse, com a voz doce como mel. “Eu mesma resolvo.”
Me abaixei e peguei a alça da mala mais próxima, fazendo questão de deixá-la raspar alto no piso de mármore enquanto eu a arrastava em direção à escada. O guincho áspero ecoou pelo corredor.
O rosto da Sra. Martha se contraiu. “Srta. Goode, por favor, cuidado com o chão—”
Eu soltei.
A mala bateu no piso com um estrondo que fez duas empregadas ali perto se sobressaltarem. Levantei os olhos para a Sra. Martha com uma expressão bem aberta e inocente.
“Me desculpe”, eu disse, sem soar nem um pouco arrependida. “É que eu não sou lobo, sabe? Não tenho esse tipo de força.” Fiz uma pausa, inclinando a cabeça. “Se eu estragar alguma coisa na mansão, o Alfa Keaton vai ficar chateado?”
Minha voz não estava alta. Mas alcançava—o suficiente para chegar até a figura alta que tinha surgido na ponta do corredor.
Gavin.
As sobrancelhas douradas dele se ergueram de leve enquanto os olhos iam de mim para a Sra. Martha e para a mala largada. Eu quase conseguia ver ele fazendo as contas na cabeça.
A expressão da Sra. Martha passou por várias transformações interessantes antes de parar em algo que poderia ser um sorriso, se você fosse generoso.
“Não vai ser necessário”, ela disse, num tom que soou como dentes cerrados. “Eu ajudo a levar lá para cima.”
“Ah, que gentileza a sua.” Eu abri um sorriso para ela. “Muito obrigada, Sra. Martha.”
Ela carregou duas malas. Eu peguei a mais leve. Subimos a escada em silêncio—ela irradiando desaprovação a cada degrau, eu cantarolando baixinho.
E o quarto para o qual ela me levou era… não o mesmo que eu tinha tido na minha primeira vida.
Aquele quarto tinha sido pequeno, enfiado num canto do terceiro andar, com uma janela que dava para a entrada de serviço. Este ficava no segundo andar, espaçoso e claro, com janelas altas voltadas para os jardins.
Interessante.
“Vai ser satisfatório?” a Sra. Martha perguntou, largando as malas com mais força do que o necessário.
“É lindo”, eu disse, sinceramente. “Obrigada.”
Ela assentiu uma vez, seca e protocolar, e saiu sem dizer mais nada.
No instante em que a porta se fechou atrás dela, eu soltei um ar que nem sabia que estava prendendo. Minhas mãos estavam tremendo de novo—de adrenalina desta vez, não de medo. Eu tinha conseguido. Eu tinha enfrentado ela.
Na minha primeira vida, eu teria simplesmente… aceitado. Teria arrastado aquelas malas sozinha, deixado ela ganhar, deixado ela ditar o tom de como eu seria tratada nesta casa.
Agora não.
Caminhei até a janela e encarei os jardins. O sol da tarde começava a descer, pintando tudo em tons de dourado e âmbar. Em algum lugar lá fora ficava a clareira onde a cerimônia desta noite aconteceria.
Esta noite.
Minha mão foi ao pescoço por instinto, os dedos roçando o lugar onde—em outra vida—estava a marca de Silas. E onde estaria de novo, em poucas horas.
A lembrança era tão vívida que fez minha respiração falhar. A dor, aguda e intensa. A sensação dos dentes dele rompendo a pele.
Na minha primeira vida, eu tinha ficado apavorada. Violet passou semanas enchendo minha cabeça com histórias de terror sobre cerimônias de marcação—o quanto doíam, como alguns nunca se recuperavam, como aquilo era basicamente uma forma de posse.
Meu Deus, eu tinha sido tão idiota. Tão fácil de manipular.
Uma batida na porta me fez sobressaltar.
“Srta. Goode?” A voz de Gavin, educada e profissional. “Posso entrar?”
“Sim, claro.”
Ele entrou, fechando a porta atrás de si com um clique suave. Com a luz melhor, eu conseguia vê-lo com mais clareza — alto, provavelmente com mais de um metro e oitenta, com aquele porte clássico de um Beta, forte sem ser intimidador. O cabelo loiro estava curto e bem aparado, e os olhos azuis eram atentos, avaliadores.
— Eu queria te informar sobre a cerimônia desta noite — disse ele, direto ao ponto. — Os preparativos e o protocolo.
Meu estômago deu uma reviravolta complicada. Certo. A cerimônia. A coisa que eu vinha temendo e desejando ao mesmo tempo desde que acordei hoje de manhã.
— Claro — consegui dizer, apontando para as cadeiras perto da janela. — Por favor.
Nós nos sentamos. Gavin pegou o celular, deslizando o dedo por algo que parecia um cronograma detalhado.
— A cerimônia de marcação vai acontecer nos jardins dos fundos ao nascer da lua — começou ele. — De acordo com a tradição dos metamorfos, é algo privado: só você e o Alfa Keaton, com a lua como testemunha.
Eu assenti, tentando parecer como se aquilo fosse novidade. Na realidade, eu poderia recitar a cerimônia inteira de cor.
— Vai ser algo íntimo — continuou Gavin. — Dona Martha vai trazer seus mantos cerimoniais hoje à noite. Depois do jantar, alguém vai acompanhar você até o jardim. — Ele ergueu os olhos do celular. — Até aqui, alguma pergunta?
Umas mil. Mas nenhuma que eu pudesse realmente fazer.
— Antes da cerimônia — eu disse com cuidado —, seria possível ver o Alfa Keaton? Só um instante?
Algo passou pelo rosto de Gavin — surpresa, talvez, ou curiosidade.
— O Alfa Keaton também vai se preparar para a cerimônia. Há… rituais que ele precisa cumprir.
— Rituais?
— Ritos de purificação. Meditação. A leitura dos votos da matilha. — O tom dele era objetivo, como se estivesse enumerando itens numa lista de compras. — Você também terá suas próprias preparações. Banho, a recitação dos juramentos da família. É tradição que vocês não se vejam até a própria cerimônia.
Certo. Eu tinha esquecido dessa parte.
— Eu entendo — disse em voz baixa.
Gavin se levantou, guardando o celular no bolso. Mas, em vez de sair, ele hesitou, com a mão na maçaneta. Então virou para me encarar, com uma expressão pensativa.
— Senhorita Goode — ele disse devagar. — Hoje de manhã, quando você chegou… o que você disse ao Alfa Keaton.
Meu coração subiu para a garganta.
— O que tem?
— Você disse que ajudaria ele. Que faria o que fosse preciso. — Os olhos azuis dele estavam afiados, perscrutadores. — Você falou sério?
Eu sustentei o olhar dele.
— Sim. Eu falei sério.
— Você sabe o que as pessoas dizem sobre o Alfa Keaton. — Não era uma pergunta. — Sobre a maldição. Sobre quanto tempo ele ainda tem.
— Eu sei. — Minha voz saiu firme. — Eu não me importo.
— A maioria se importaria. — Gavin inclinou a cabeça de leve. — A maioria não ia querer se prender a alguém que talvez não passe deste ano.
— Eu não sou a maioria.
As palavras saíram mais cortantes do que eu pretendia, mas eu não voltei atrás. As sobrancelhas de Gavin se ergueram um pouco — não de ofensa, e sim num tipo de surpresa genuína.
— Eu vou cobrar essa promessa, senhorita Goode — ele disse por fim. — O Alfa Keaton merece ter por perto pessoas que dizem o que realmente querem dizer.
— Eu sei que ele merece. — Eu me levantei, endireitando os ombros. — E eu vou provar. Com ações, não só com palavras.
Gavin me examinou por mais um instante e então assentiu uma vez.
— Espero que sim, senhorita Goode.
Ele saiu, fechando a porta com cuidado atrás de si.
Eu me joguei de volta na cadeira, com o coração disparado. Aquilo tinha parecido importante de algum jeito — como se eu tivesse acabado de passar por algum tipo de checkpoint invisível. Gavin era o braço direito do Silas, o Beta mais confiável dele. Se eu conseguisse colocar ele do meu lado…
Mas eu estava me adiantando. Primeiro, eu precisava sobreviver a esta noite.
