Capítulo 3 Verificação da realidade
Ponto de vista de Natalie
Segui o rastro de fumaça de cigarro da Marge pelo estacionamento, arrastando minha bolsa de viagem atrás de mim enquanto o sol do Novo México tentava me cozinhar viva.
O Silver Dollar ficava ao lado do clube, embora chamar aquilo de motel fosse generosidade. O prédio de um andar só formava uma ferradura torta em torno de um estacionamento de concreto rachado. Metade das portas era pintada de marrom, enquanto as outras eram de um amarelo desbotado, como se alguém tivesse começado uma reforma vinte anos atrás e desistido no meio do caminho.
Um cavalo de plástico pendia sobre a entrada do escritório com uma perna faltando, e a placa de neon escrito VAGAS zumbia, embora várias letras estivessem queimadas.
Parecia o tipo de lugar onde mulheres desapareciam e ninguém notava até a camareira reclamar do cheiro.
Engoli o orgulho e endireitei os ombros.
Pelo menos o estacionamento era exposto demais para alguém me assassinar sem testemunhas.
Provavelmente foi a tentativa de otimismo mais deprimente que eu já fiz.
Marge olhou por cima do ombro, o cigarro preso entre dois dedos. “Tá planejando ficar aí fora julgando a arquitetura o dia inteiro, porra?”
“Estou tentando decidir se devo me preocupar mais com tétano ou com ser cortada em pedaços.”
Ela soltou uma risada áspera. “Querida, qualquer um que se hospeda aqui tá quebrado demais pra ter as ferramentas necessárias pra esquartejar um corpo.”
“Isso é incrivelmente reconfortante.”
“Eu tenho um dom.”
Ela parou em frente ao quarto doze e remexeu a bolsa preta enorme pendurada no ombro. Aquilo parecia pesado o bastante para conter um pneu sobressalente. Ela empurrou para o lado vários maços de cigarro, um frasco de remédio, três tubos de batom, um canivete e o que parecia ser uma garrafinha de tequila, antes de finalmente encontrar as chaves.
Fingi não notar o canivete.
Marge notou que eu estava fingindo.
“Relaxa. Isso é pra abrir caixas.”
“Claro que é.”
“E, de vez em quando, pra desencorajar uns babacas.”
Aí estava.
Ela destrancou a porta e a empurrou com um ombro. O ar-condicionado instalado sob a janela berrava como se estivesse sendo torturado, jogando ar frio no quarto o mais rápido que conseguia para combater o calor escaldante lá fora.
A diferença de temperatura me atingiu com força suficiente para arrepiar meus braços.
O quarto tinha duas camas de solteiro separadas por um criado-mudo com uma luminária de latão aparafusada nele. Os edredons marrom e laranja pareciam ter sobrevivido a toda a década de 1980 e ressentiam-se por serem obrigados a continuar. O carpete tinha desbotado da cor que quer que tivesse originalmente para um tom duvidoso de cinza, e as cortinas florais eram finas o bastante para deixar faixas de luz do sol vazarem por elas.
Era horrível.
Também era a coisa mais próxima de um lar que eu tinha.
Marge entrou, jogou o cigarro na passarela e esmagou-o sob o salto da sandália antes de fechar a porta atrás de nós.
“A televisão funciona quando dá na telha”, ela disse. “Você tem que dar dois tapas na lateral, mas só dois. Três deixam ela puta.”
Encarei a televisão jurássica em cima da cômoda. “A televisão tem problemas de raiva?”
“Você vai se encaixar direitinho por aqui.”
Ela foi até a cama mais próxima, agarrou o edredom e o puxou para baixo. Depois, afastou os lençóis e levantou com as duas mãos a ponta do colchão.
— Viu? — ela se inclinou mais, examinando as costuras. — Eu te disse que não tinha percevejo nenhum.
Eu a observei procurar por alguns segundos antes de esfregar os dois braços de novo.
Marge largou o colchão e começou a rir.
— Isso não tem graça.
— Tem um pouquinho.
— Não tem, não.
— Você precisava ver a sua cara.
— Eu tô sem teto e prestes a virar stripper. Por favor, me deixa ficar com o pouco de dignidade que ainda me resta.
O riso dela se apagou.
Por meio segundo, algo quase carinhoso atravessou sua expressão, mas ela disfarçou rápido, esticando os lençóis e alisando o edredom com uma das mãos tatuadas.
— Você não tá mais sem teto — ela disse. — Você vai ficar aqui.
— Enquanto eu dançar.
— Enquanto você trabalhar no clube — ela corrigiu. — Se você decidir que dançar não é pra você, a gente dá um jeito em outra coisa. Eu não vou jogar sua bunda na estrada depois de uma noite ruim.
A pressão atrás dos meus olhos voltou tão depressa que eu tive que desviar o olhar.
Eu não queria a bondade dela.
Bondade me deixava fraca. Bondade me fazia lembrar que um dia existiram pessoas que se importavam se eu estava com fome, com medo ou dormindo num motel de beira de estrada onde a televisão precisava ser ameaçada fisicamente pra funcionar.
Minha mãe teria incendiado o prédio inteiro antes de me deixar passar uma noite aqui.
Meu pai teria exigido falar com o dono, com a vigilância sanitária e, provavelmente, com o governador do Novo México.
Os dois estavam mortos.
Eu estava sozinha.
— Obrigada — consegui dizer.
Marge pegou minha bolsa de viagem e colocou na cama vazia. — O banheiro é por ali. As toalhas estão limpas, e o Roy deixa sabonete e xampu do lado da pia.
— Roy?
— Limpeza. Ele também é o dono.
— Parece eficiente.
— É mão de obra barata quando você não precisa pagar a si mesmo.
Ela me entregou a chave de latão. — Esteja no clube às seis e meia. Não seis e trinta e um. As meninas vão te mostrar como tudo funciona antes de os clientes começarem a aparecer em massa.
— E o que exatamente elas vão me mostrar?
— Como andar de salto sem quebrar o pescoço. Como impedir um peito de cair pra fora antes da hora que você quiser. Como subir no palco sem mostrar pra porra do bar inteiro.
Meu estômago se contraiu.
— Fantástico.
— A Lola vai trabalhar com você. Ela parece um doce, mas não se deixe enganar. A boca dela descasca tinta de parede.
— Acho que eu vou gostar dela.
— Vai, até ela te fazer alongar.
Marge foi em direção à porta, mas parou com uma mão na maçaneta.
— Tranca isso atrás de mim. Usa a trava e a corrente. Se alguém bater, você não abre a menos que saiba quem é.
— E se for a limpeza?
— A limpeza é um velho de setenta anos chamado Roy. Ele não entra a menos que você convide, e se você convidar, eu vou presumir que você perdeu completamente a porra do juízo.
Eu encarei ela.
Marge abriu um sorriso. — Seis e meia, sardenta.
Ela saiu antes que eu conseguisse pensar em alguma coisa pra dizer.
Eu tranquei a trava, encaixei a corrente e fiquei com as costas apoiadas na porta enquanto o ar-condicionado chacoalhava alto o bastante pra fazer a janela tremer.
O silêncio por baixo daquele barulho era insuportável.
Pela primeira vez desde que eu tinha escapado, não havia nenhum lugar onde eu precisasse estar imediatamente. Não tinha um ônibus me esperando, nem uma passagem para comprar, nem uma carteira de motorista para buscar, nem um estranho cujas perguntas eu precisasse driblar. Eu tinha uma porta trancada, uma cama e várias horas sozinha com tudo o que eu vinha me recusando a sentir.
Meus joelhos fraquejaram.
Larguei a bolsa de viagem e cambaleei até a cama mais próxima, sentando antes que minhas pernas cedessem de vez.
O colchão afundou sob o meu peso.
Fiquei encarando o carpete desbotado até as cores se embaralharem.
“Que porra eu estou fazendo?”
A pergunta saiu num sussurro.
Ninguém respondeu.
Apertei as duas mãos sobre o rosto, tentando me manter inteira na força bruta. Meu peito já começava a apertar. Eu respirava rápido demais, o ar prendendo no meio do caminho para os pulmões antes de escapar de volta.
Eu sabia o que estava acontecendo.
Enterrei as unhas nas coxas.
“Cinco coisas que você consegue ver”, eu disse em voz alta.
A colcha feia.
O abajur de latão.
A marca de cigarro no criado-mudo.
A placa do teto manchada.
Minha bolsa de viagem.
“Quatro coisas que você consegue tocar.”
O jeans cobrindo meus joelhos.
O colchão sob mim.
O metal frio da chave do quarto.
A corrente fina no meu pescoço.
Meus dedos se fecharam no colar automaticamente.
O pingente de diamante da minha mãe repousava sob a minha blusa, a única joia que eu tinha mantido. Vender aquilo poderia ter pago meses de quartos de motel, mas a ideia de entregar para um estranho me dava enjoo de verdade.
Era a última coisa que ela tinha me dado.
Três coisas que eu conseguia ouvir.
O ar-condicionado.
Uma moto roncando em algum lugar além da parede.
Minha própria respiração irregular.
Duas coisas que eu conseguia sentir o cheiro.
Fumaça de cigarro impregnada nas minhas roupas.
O limpador de limão que alguém tinha usado no banheiro.
Uma coisa que eu conseguia sentir o gosto.
Medo.
O pânico foi afrouxando devagar o aperto, embora o luto continuasse preso sob minhas costelas como vidro quebrado.
Me abaixei na cama e me encolhi de lado.
A lembrança veio sem aviso.
Minha mãe sentada à minha frente, encarando os hematomas que os dedos de Daniel tinham deixado em volta do meu braço. Meu pai andando de um lado para o outro diante da lareira, o rosto ficando mais sombrio a cada palavra que saía da minha boca.
Os agarrões.
As ameaças.
O jeito como Daniel controlava para onde eu ia, com quem eu falava e o que eu vestia.
Eu tinha passado tanto tempo arrumando desculpas para ele que ouvir a verdade dita em voz alta tinha me dado náusea.
Meu pai parou de andar e se agachou na minha frente.
“Você nunca mais vai voltar para aquele homem.”
Minha mãe me envolveu com os dois braços.
“Nós vamos cuidar de você. Você está segura agora.”
Segura.
Eu tinha acreditado neles.
No dia seguinte, eles estavam mortos.
Meus pais tinham sido assassinados porque eu finalmente abri a boca e contei o que Daniel vinha fazendo comigo.
Eu tinha visto a fúria no rosto dele quando percebeu que eu tinha contado. Eu tinha ouvido a promessa na voz dele quando sussurrou que eu me arrependeria de humilhá-lo.
Vinte e quatro horas depois, minha mãe e meu pai tinham ido embora.
Um som quebrado escapou da minha garganta.
Enterrei o rosto no travesseiro do motel, mas as lágrimas vieram mesmo assim.
“Me desculpa.”
As palavras saíram abafadas contra o tecido fino.
“Me desculpa pra caralho.”
Se eu tivesse ficado calada por mais um dia, eles ainda estariam vivos?
O pensamento era venenoso, e eu sabia disso. Daniel tinha matado os dois. Daniel tinha feito essa escolha. Daniel era o monstro.
Saber disso não impediu a culpa de me rasgar por dentro.
Sentei na cama, agora mais furiosa, e puxei a camiseta pela cabeça.
— Você não é dono de mim — sussurrei.
As palavras soaram patéticas no quarto vazio.
Chutei os sapatos para longe e me despi do resto das roupas.
— Você não é dono de mim, porra.
Minha voz falhou.
Levei uma das toalhas do motel para o banheiro.
Para minha surpresa, estava impecável. O azulejo era velho e em alguns pontos estava rachado, mas a pia tinha sido esfregada, o vaso estava limpo, e dois frasquinhos de xampu ficavam ao lado de um sabonete embalado perto da pia.
Abri o chuveiro e esperei a água esquentar.
Então entrei debaixo dela e, por fim, desmoronei.
O soluço escapou de mim antes que eu conseguisse impedir.
Apertei uma mão sobre a boca, mas não havia ninguém para me ouvir por cima do ar-condicionado berrando e do fluxo constante da água. Toda emoção que eu tinha engolido desde que saí da Carolina do Sul veio à tona de uma vez.
Terror.
Raiva.
Culpa.
Um luto tão profundo que eu me sentia oca por dentro.
Chorei pela minha mãe, que teria sabido o que dizer mesmo surtando completamente por causa do motel. Chorei pelo meu pai, que teria despedaçado o Novo México com as próprias mãos para me encontrar em algum lugar seguro.
Chorei porque eles tinham tentado me proteger, e Daniel os fez pagar por isso.
Chorei porque eu estava viva e eles não.
Chorei porque, em poucas horas, eu estaria debaixo de luzes piscando, tirando a roupa para estranhos enquanto fingia que o meu mundo inteiro não tinha sido destruído.
Afundei no fundo da banheira, puxei os joelhos contra o peito e chorei até a água ficar fria.
Quando finalmente me levantei, meus olhos estavam inchados e minha garganta doía, mas a pressão dentro do meu peito tinha diminuído.
Lavei o cabelo com o xampu do motel e esfreguei a pele até o cheiro restante do ônibus, do clube e da casa do Daniel desaparecer pelo ralo.
Os hematomas ficaram.
Enrolei a toalha no corpo e examinei meu reflexo no espelho.
Meu cabelo castanho, molhado, caía sobre os ombros. Sem maquiagem, as sardas no meu nariz e nas bochechas pareciam mais escuras. O cansaço tinha cavado a pele sob meus olhos, e o corte cicatrizando perto da linha do cabelo ainda estava visível quando empurrei o cabelo para trás.
Eu mal me reconhecia.
— Seu nome é Natalie Blake — eu disse para a mulher no espelho. — Você tem vinte e cinco anos. Você mora no Novo México. Você não tem um noivo.
A mentira tremeu na minha voz.
Apertei mais forte a borda da pia.
— Você não tem um noivo, porra.
Assim ficou melhor.
Troquei de roupa, vestindo uma camiseta limpa e um short, comi um punhado de bolachas da minha bolsa e programei um alarme no celular para cinco e quarenta e cinco.
Ainda era cedo o bastante para eu dormir por uma hora antes de ter que voltar a entrar no inferno.
Verifiquei o ferrolho.
Depois a corrente.
Depois o ferrolho de novo.
Só depois de confirmar as três vezes que a porta estava trancada é que me enfiei debaixo do edredom feio laranja e marrom e apoiei a cabeça no travesseiro.
O ar-condicionado berrava debaixo da janela.
Motos roncavam no estacionamento lá fora.
Fechei os olhos e tentei não imaginar Daniel descendo de uma delas.
Tentei não ver o rosto dos meus pais.
Tentei não pensar no palco me esperando do outro lado do estacionamento.
Na hora seguinte, eu só precisava respirar.
