A Fugitiva do Presidente do MC

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Capítulo 1 Você deveria ter voltado para casa

Ponto de vista de Rina

O sangue do meu pai já tinha encharcado o tapete da sala quando eu o encontrei.

Por alguns segundos, fiquei parada na porta, com as chaves ainda apertadas na mão, encarando o corpo ao lado do sofá enquanto minha mente lutava para transformar aquilo em outra coisa. Uma sombra. Um monte de roupas. Uma das pegadinhas ridículas que o meu pai fazia sempre que achava que a vida tinha ficado séria demais.

Então eu vi os olhos dele.

Estavam abertos e fixos no teto, o rosto congelado numa expressão que eu nunca tinha visto nele enquanto estava vivo. O sangue cobria a frente da camisa social azul-clara dele e se espalhava por baixo do corpo, numa mancha escura sobre o tapete creme que minha mãe passara seis meses procurando.

Minha bolsa escorregou do ombro e bateu no piso de madeira.

— Pai?

A palavra saiu fraca, quebrada.

Corri até ele, caí de joelhos e pressionei as duas mãos contra o peito dele, como se eu pudesse empurrar o sangue de volta para dentro. O corpo se moveu sob o meu toque, pesado e sem vida, e o frio da pele dele fez o pavor rasgar por dentro de mim.

— Não. Pai, por favor. — Toquei o rosto dele com os dedos trêmulos. — Acorda. Por favor, acorda.

Alguma coisa se espatifou mais para dentro da casa.

Eu me endireitei num sobressalto.

— Mãe?

O silêncio que veio em seguida pareceu engolir tudo, inclusive o som da minha própria respiração.

Cambaleei até ficar de pé e segui um rastro de sangue borrado na parede do corredor. Fotografias de família pendiam tortas acima dele. Uma moldura tinha se estilhaçado, deixando um buraco de bala atravessando a foto dos meus pais ao meu lado na minha formatura da faculdade.

— Mãe!

Eu a encontrei do lado de fora da cozinha.

Ela estava encolhida de lado, com uma das mãos apoiada no estômago. O suéter creme estava encharcado de sangue, e vários ferimentos de bala marcavam o peito dela. A aliança de casamento captou a luz da cozinha como se a mão tivesse se mexido apenas segundos antes.

Um grito rasgou a minha garganta.

Eu me arrastei até ela e pressionei os dedos no pescoço dela, embora já soubesse. Minha visão embaçou tanto que eu mal conseguia ver o rosto dela, mas continuei procurando um pulso que não estava ali.

— Mãe, não. Não, não, não.

Algo branco estava no chão ao lado da mão dela.

Um envelope.

Meu nome tinha sido escrito na frente com a caligrafia precisa de Daniel.

Eu parei de respirar.

Meus dedos deixaram o pescoço da minha mãe e se fecharam em torno do papel. O envelope já estava aberto, como se ele quisesse ter certeza de que eu encontraria a mensagem esperando lá dentro.

Havia apenas três linhas.

Você devia ter voltado para casa.

Fizeram você acreditar que podia me deixar.

Você é a próxima.

Eu não me lembro de ter ligado para o 190.

Eu me lembro da atendente perguntando se o atirador ainda estava dentro. Eu me lembro de me enfiar na despensa com um dos tacos de golfe do meu pai apertado contra o peito, enquanto cada som na casa me convencia de que Daniel estava voltando.

Quando os policiais chegaram, um deles arrancou o taco das minhas mãos enquanto outro tentava me impedir de voltar para a minha mãe.

Luzes vermelhas e azuis piscavam nas paredes enquanto estranhos se moviam por cômodos onde a minha família tinha jantado e comemorado aniversários. Alguém colocou um cobertor sobre os meus ombros. Outro policial continuava fazendo perguntas, mas cada resposta se desfazia antes que eu conseguisse forçá-la a passar pelos meus lábios. Tudo o que eu conseguia ver era a mão da minha mãe sob a luz da cozinha e o sangue sob o meu pai.

Daniel foi preso na manhã seguinte numa marina pertencente aos Volkov, nos arredores de Savannah.

A polícia encontrou sangue dentro do carro dele, resíduo de pólvora nas roupas e uma pistola registrada em nome de uma das empresas de segurança da família. Câmeras de trânsito colocaram o veículo dele perto do bairro dos meus pais pouco antes dos assassinatos.

Pela primeira vez, o dinheiro da família Volkov não conseguiu apagar tudo.

Durante a audiência preliminar, Daniel foi conduzido ao tribunal com hematomas da prisão e algemas nos pulsos.

Eu me sentei atrás do promotor, com um detetive armado ao meu lado.

Daniel vasculhou o tribunal com os olhos até encontrar o meu rosto.

Então ele sorriu.

Os lábios dele se moveram devagar o bastante para eu entender cada palavra.

Eu vou te encontrar.

Três dias depois, o detetive me ajudou a desaparecer.

Enterrei meus pais sob um carvalho vivo enquanto dois policiais armados observavam da borda do cemitério. Fiquei entre os túmulos deles e ouvi o padre falar sobre paz, misericórdia e vida eterna, enquanto o ódio queimava em cada parte de mim.

Depois do funeral, voltei à casa uma última vez.

Os faxineiros tinham removido o sangue, mas o contorno pálido da mancha ainda permanecia no tapete da sala de estar. Tirei do dedo o anel de noivado de Daniel e o coloquei no centro da marca, onde meu pai tinha morrido.

À meia-noite, Rina Blakely já não existia.

O detetive me deu documentos com um nome diferente, um celular pré-pago e uma passagem de ônibus comprada com dinheiro vivo. Cortei o cabelo no banheiro de um posto de gasolina nos arredores de Atlanta e tingi de castanho-escuro antes de embarcar em outro ônibus rumo ao oeste.

Em cada parada, eu esperava ver Daniel esperando ao lado do ônibus. Observei cada passageiro que subia, decorei as saídas e mantive meus documentos cerrados dentro do bolso até as bordas amolecerem sob meus dedos.

Eu não sabia onde ia morar quando chegasse ao Novo México.

Eu não sabia se Daniel continuaria atrás das grades nem até onde ia o alcance da família dele.

Eu só sabia que Charleston tinha levado todo mundo que eu amava.

Então continuei seguindo em frente até os pântanos verdes desaparecerem, o ar ficar seco e o mundo além da janela do ônibus virar extensões intermináveis de deserto.

Em algum ponto entre o Texas e a divisa com o estado do Novo México, baixei os olhos para o nome desconhecido impresso nos meus documentos.

Natalie Blake.

Sussurrei para mim mesma, mas soou como se eu estivesse falando de uma estranha.

Talvez essa fosse a intenção.

O ônibus entrou numa estação empoeirada pouco depois do pôr do sol.

O Novo México me recebeu com calor seco, luzes fluorescentes tremeluzentes e uma máquina de vendas que engoliu a última nota de cinco dólares da minha carteira. Eu tinha uma mala, quarenta e três dólares em dinheiro e nenhum plano além de colocar a maior distância possível entre Daniel e eu.

Havia um quadro de avisos perto da saída, abarrotado de anúncios de quartos baratos, cachorros desaparecidos e empregos que ninguém mais queria.

Um dos panfletos tinha sido impresso em papel preto.

DANÇARINAS PRECISAM-SE. PAGAMENTO EM DINHEIRO TODA NOITE. NÃO É NECESSÁRIO EXPERIÊNCIA.

Na parte de baixo, sob a imagem de um diabo vermelho enrolado em torno de um poste prateado, alguém tinha escrito um endereço.

The Devil’s Den.

Arranquei o panfleto do quadro e o enfiei dobrado no bolso.

The Devil’s Den não era o tipo de lugar em que Rina Blakely pisaria.

Era exatamente por isso que Natalie Blake podia desaparecer ali.

Eu não precisava de uma vida nova. Eu precisava de dinheiro suficiente para um quarto barato, comida e outra passagem de ônibus caso alguém viesse me procurar.

Apertei mais a alça da mala e saí da estação, entrando na noite do Novo México.

Rina Blakely era a mulher que Daniel Volkov queria ver morta.

Natalie Blake só precisava continuar escondida.

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