Capítulo 9: Ela não está brincando
(Ponto de vista de Daniel)
No hospital, Ella terminou o exame — nem um arranhão nela.
Ela se apoiou no meu ombro e disse baixinho: “Daniel, você devia ligar para a Sophia. Ela deve estar brava com você ainda...”
Ao ouvir o nome da Sophia, meu rosto se fechou. Aquela mulher teve mesmo a audácia de desligar na minha cara?
Soltei uma risada fria e disquei o número dela.
Trim—trim—sem resposta.
Disquei de novo.
“Desculpe, o número que você discou está indisponível no momento...”
Indisponível? Uma onda de inquietação me atingiu, e eu liguei na hora para o telefone fixo da mansão — continuava sem resposta.
Sophia... ela realmente não ia voltar para casa?
Uma imagem passou, de repente, pela minha mente — ela largada no chão, imóvel.
Balancei a cabeça. Ela devia estar fingindo de novo. Mas minha mão tremia sem controle.
Levantei de supetão e liguei para o Jack. “Descubra agora! Onde a Sophia está?”
Depois que desliguei, aquela imagem não saía da minha cabeça. A postura desabada, o rosto pálido — não, ela devia estar fingindo. Ela só quer que eu amoleça. Mas... e se não for?
Jack retornou rápido: “Sr. Cooper, sua esposa está no Hospital Geral Santa Anne, ela foi para a emergência...”
“O quê?” Peguei meu casaco e saí correndo. “Em que quarto?”
“903.”
Desliguei e pisei fundo, disparando para o hospital.
A Sophia realmente foi para o hospital?
Ela estava tentando arrancar minha simpatia, ou me obrigar a recuar?
Quanto mais eu pensava, mais convicto eu ficava — e a minha raiva engolia aquele restinho de preocupação que eu nem queria admitir para mim mesmo.
Invadi o caminho até o quarto 903, prestes a empurrar a porta, quando, pela janela de vidro, vi uma coisa que me fez explodir.
Sophia estava de camisola hospitalar, virando a cabeça para falar com um rapaz.
Ele olhava para ela de cima, com um laudo na mão.
E ela — aquela mulher que sempre tinha um rosto frio comigo — tinha um leve sorriso nos lábios. Havia nos olhos dela uma luz que eu nunca tinha visto antes.
Aquela luz era suave, quente, como uma ternura que ela nunca tinha me mostrado.
Ela estava sorrindo para outro homem, com um ar tão relaxado?
Aquilo ardia nos meus olhos.
“BANG—!”
Chutei a porta e escancarei.
“Sr. Cooper?” O homem franziu a testa para mim.
Eu nem olhei para ele.
Encarei Sophia com força na cama do hospital. A cabeça dela estava enfaixada, os pulsos marcados por hematomas — mas eu não conseguia me concentrar em nada disso.
Eu só sentia o sangue subir à cabeça, um ciúme e uma fúria sem precedentes, quase fora de controle, queimando minha razão.
“Perfeito!” Aproximei-me passo a passo. “Passei a noite inteira te procurando e você está aqui, se divertindo com outro homem!”
Vi o buquê na mesinha de cabeceira, agarrei e arremessei no chão. O vaso se estilhaçou, pétalas se espalharam por toda parte.
“Fingindo que está doente para ter um caso? Você está tão desesperada por homens assim?”
“Sr. Cooper, o senhor entendeu errado!” O homem se colocou na frente dela. “Eu sou Owen Mitchell, amigo dela da faculdade, e também sou médico aqui. Ela foi trazida para a emergência ontem à noite com uma concussão leve. Precisa ficar em observação.”
Amigo da faculdade? Médico? Desculpas. Principalmente o jeito como ele disse “Sophia” com tanta intimidade — aquilo me deixava possesso. Ela deixa ele chamar assim? Que relação é essa, exatamente?
“Quem diabos você pensa que é para falar comigo?” Empurrei-o para o lado e fuzilei Sophia com o olhar. “O gato comeu sua língua?!”
A luz nos olhos dela morreu por completo. Ela me olhou — para esse homem que enlouquecera — e, devagar, levantou a mão para puxar de leve o jaleco branco do homem.
—Owen, não precisa.
A voz dela saiu baixa, mas serena. Aquela serenidade foi como água gelada derramada no meu coração. Ela nem queria mais discutir?
Ela se recostou devagar na cabeceira, encarando-me com frieza. Sem choro, sem escândalo, sem queixa.
Ela olhou para mim como se estivesse olhando para um palhaço.
Naquele instante, eu cheguei a me sentir culpado.
Mas, logo em seguida, a raiva tomou conta outra vez.
—É assim que a família Cooper tem educação? —ela disse, com leveza. —Fazer escândalo num quarto de hospital, quebrar coisas?
Eu odiava, mais do que tudo, aquele olhar frio dela. Como se todas as minhas emoções não significassem nada.
—Cada centavo que você gasta vem da família Cooper! Com que direito você age como se fosse superior?
—Dinheiro? —Ela riu de repente, mas o sorriso não chegou aos olhos. —Eu anotei cada centavo que a família Cooper me deu. Quando eu for embora, vou devolver cada centavo.
Ela baixou o olhar para os hematomas nos pulsos e depois tocou a parte de trás da cabeça.
—E... esses ferimentos que você me causou —ela ergueu o rosto; o olhar, afiado como uma lâmina—, a gente também precisa acertar as contas. Um por um.
Acertar as contas?
Aquelas palavras foram como água gelada no meu coração.
Eu congelei.
Eu esperava que ela chorasse, que fizesse escândalo, mas nunca imaginei que falaria comigo nesse tom de ajuste de contas.
O que ela quer dizer com acertar as contas? O que ela pretende acertar? Ela está mesmo planejando ir embora?
Um pânico sem precedentes me agarrou.
Não era irritação, nem raiva, era medo de verdade.
Encarei-a com força, tentando encontrar algum traço de fingimento. Mas a determinação nos olhos dela era completamente real.
—Sophia, que jogo é esse que você está fazendo? —eu gritei, mas minha voz já não tinha confiança. Eu conseguia ouvir o tremor nela.
Ela nem se deu ao trabalho de olhar para mim. Virou-se para o homem, voltando a um tom educado.
—Owen, por favor, chame a segurança.
Ela estava mesmo chamando a segurança para me expulsar?
Eu estava prestes a perder o controle quando a ouvi acrescentar:
—E também me ajude a entrar em contato com meu advogado. Aqueles documentos de bens que preparamos antes... podemos começar a dar entrada neles.
Advogado? Documentos de bens? Minha cabeça fez um “bzz” e ficou em branco.
De repente, eu me lembrei da proposta de emprego em Eldoria, lembrei de ela ter mencionado divórcio e, conectando isso à atitude dela agora, à vontade de devolver o dinheiro, de acertar os ferimentos...
Ela não está só falando?
Ela não está blefando?
Várias imagens explodiram na minha mente: as costas dela enquanto assinava papéis, os movimentos dela arrumando uma mala, a mudança no olhar — de expectativa para decepção, e então para calma.
Todos aqueles detalhes a que eu nunca tinha dado atenção voltaram de uma vez, cada um como uma faca.
O pânico ficou mais forte.
Cerrei os punhos, os nós dos dedos brancos, as unhas cravando nas palmas, usando a dor para conter o impulso de avançar e agarrar os ombros dela.
Impossível.
Ela me amou por tantos anos... como poderia simplesmente largar?
Então o que, exatamente, ela está planejando?
Eu encarei o rosto pálido dela, a cabeça envolta em gaze, os hematomas nos pulsos — aqueles ferimentos foram de quando eu a empurrei.
Fui eu que a coloquei no pronto-socorro.
Fui eu que a empurrei para os braços de outro homem.
Esse pensamento me atingiu como uma marreta no peito.
Abri a boca, querendo dizer alguma coisa.
Admitir que eu estava errado?
Pedir desculpas?
Não, Daniel nunca recua.
Mas, se eu não disser nada, ela vai mesmo embora?
