A Esposa que Ele Nunca Tocou

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Capítulo 8: Ele me afastou

(Ponto de vista de Sophia)

No instante em que eu falei, o ar na sala privativa congelou na hora.

Os amigos de Daniel trocaram olhares, com o rosto exibindo um constrangimento extremo. Ninguém ousou dizer nada.

Ella puxou a manga de Daniel, com a voz engasgada de choro: “Daniel, não culpe a Sophia, a culpa é toda minha... Eu não devia ter pedido para você chamá-la aqui...”

Aquela aparência de coitadinha deixou Daniel completamente fora de si.

Ele tinha bebido e não estava pensando direito. Naquele momento, só sentia que eu o tinha envergonhado na frente dos amigos.

“O que mais, então?” Ele me encarou, com a voz cheia de deboche. “Sophia, você não acha mesmo que é alguém importante, acha? Pedir para você fazer alguma coisa é uma honra pra você.”

Uma honra.

Aquela palavra acertou como um tapa estalado.

Mas, estranhamente, eu já não conseguia sentir dor.

Três anos. Ele já tinha dito coisas piores, feito coisas mais dolorosas.

Meu coração já era como uma folha de papel amassada de novo e de novo — enrugada a ponto de ficar irreconhecível, mas incapaz de se rasgar em qualquer ferida nova.

Olhando para aquele homem bêbado e arrogante à minha frente, eu só sentia que ele era um estranho.

Não, talvez eu nunca tenha realmente sabido quem ele era.

“Minha honra?” repeti baixinho, com um sorriso puxando meus lábios. “Desculpa, mas eu não dou conta dessa honra. A Srta. Price é tão preciosa — tenho medo de minha direção não ser firme o bastante e eu acabar machucando ela.”

Com isso, virei para ir embora.

“Pare!” Daniel gritou atrás de mim. “Sophia, tenta sair por aquela porta!”

Meus passos não pararam.

“Eu estou te avisando: se você ousar sair desse jeito hoje, não volte nunca mais!”

Não volte nunca mais.

Ele já tinha dito isso tantas vezes.

Em todas as vezes anteriores, eu parava, me virava e implorava para ele voltar atrás, chorando e cedendo.

Porque eu tinha medo — medo de ser expulsa daquela casa, medo de perder a identidade de “Sra. Cooper”, medo do olhar decepcionado da mãe dele.

Eu tive medo por três anos.

Hoje, eu não tinha mais.

De costas para ele, respondi friamente com uma única palavra: “Tá.”

Aquele “tá” despedaçou toda a arrogância e o controle dele.

Minha mão mal tinha tocado a maçaneta quando um clique apressado de salto alto soou atrás de mim.

Ella correu até mim, abrindo os braços para me bloquear, com lágrimas de ansiedade no rosto: “Sophia, não vai! O Daniel bebeu demais, não leva a mal... Eu vou pedir desculpas por ele...”

Enquanto falava, ela se aproximou mais de mim.

Mas eu notei que os olhos dela não estavam em mim — estavam passando por cima do meu ombro, olhando para alguma coisa atrás de mim.

Aquele aparador baixo estava cheio de garrafas de bebida, e os cantos vivos brilhavam friamente sob a luz.

“Sophia, me escuta...”

Antes que ela terminasse, o pé dela torceu de repente, e ela gritou, caindo em direção àquele canto afiado!

Lá vamos nós de novo.

Vasos quebrados, dedos cortados, tornozelos torcidos — três anos, e o roteiro dela nunca mudava.

Toda vez, ela era a vítima inocente, e eu sempre era empurrada para o papel de vilã.

Eu estava enjoada dessa peça ruim.

Saí para o lado para desviar dela. Se ela queria atuar, que atuasse. Não tinha nada a ver comigo.

Mas, naquele instante, uma força enorme me atingiu por trás.

“Sai da frente!”

Era Daniel. Ao ver Ella prestes a “cair”, os olhos dele só tinham ela — ele não conseguia me enxergar bem na frente dele.

A palma da mão dele empurrou meu ombro com força, tão forte que parecia que ele queria jogar meu corpo inteiro para longe.

Meu corpo perdeu completamente o controle, sendo arremessado para trás.

— Bang!

Um baque surdo.

A parte de trás da minha cabeça bateu com força na pesada porta de madeira do reservado.

Na mesma hora, minha visão escureceu, meus ouvidos zuniram, e uma dor lancinante explodiu do ponto do impacto como uma descarga elétrica, se espalhando pelos nervos por todo o meu crânio.

Minhas têmporas pulsavam, meus olhos ardiam; até meus dentes pareciam dormentes.

Fui escorregando pelo painel da porta até o chão, as costas apoiadas na madeira gelada.

Quis erguer a mão e tocar a nuca, mas meu braço estava mole como algodão e não subia.

E Daniel — ele nem sequer olhou para mim.

— Ella! Você está bem? Se machucou?

A voz dele soou bem acima da minha cabeça, ansiosa e aflita, como uma faca cega cortando meu coração já anestesiado, golpe após golpe.

Eu me esforcei para abrir os olhos. Minha visão estava terrivelmente embaçada; eu só conseguia enxergar duas sombras sobrepostas — ele tinha amparado a Ella, que “por acaso” tinha caído em seus braços, e a mantinha bem apertada contra o peito.

Ella tremia nos braços dele, a voz fraca como a de um mosquito:

— Eu... eu estou bem, Daniel... mas a Sophia...

Ela olhou para mim “preocupada”, caída no chão.

Só então Daniel desviou o olhar.

Ele me viu largada no piso, pálida, imóvel — e franziu a testa.

Mas não era preocupação, nem angústia. Era irritação, impaciência, um olhar de “lá vem você de novo”.

Ele achou que eu estava fingindo.

Nesses três anos, cada “acidente” da Ella rendia a ele tensão e cuidados.

Mas quando eu tive uma febre de quarenta graus, ele não foi nem capaz de me dar um copo d’água.

Ele já tinha se acostumado com o fato de eu não reclamar de dor nem de cansaço. Achava que eu não ia desabar.

— Sophia! Como você pode ser tão maldosa! — ele segurou Ella, encarando-me de cima, os olhos cheios de fúria. — Só para não levar a Ella para casa, você chegou a empurrar ela com tanta força? Do que é feito o seu coração?

Eu empurrei ela?

Ela que torceu o próprio tornozelo.

Ele que me empurrou com as próprias mãos.

Mas, aos olhos dele, tudo estava invertido — ela era a coelhinha inocente; eu, a vilã cruel.

Eu queria falar. Queria dizer: eu não empurrei ela, foi você que me empurrou.

Mas a dor na nuca veio em ondas, uma atrás da outra, e minha consciência começou a se embaralhar.

Meus lábios se mexeram; minha garganta pareceu entupida, incapaz de soltar um único som.

Eu só pude assistir, impotente, a Daniel carregando a Ella e contornando-me com cuidado.

Os movimentos dele eram tão delicados, tão suaves. Ao passar por mim, ele nem sequer me olhou de canto de olho.

Ele abriu a porta e saiu a passos largos.

Antes de ir, gritou para a sala cheia de amigos atônitos:

— O que vocês estão olhando! Andem logo e chamem uma ambulância para levar a Ella ao hospital!

A porta bateu. Os passos foram ficando mais distantes.

O mundo inteiro ficou em silêncio.

Eu permaneci largada no chão, a nuca encostada no painel gelado da porta. Meus dedos se mexeram, tentando me apoiar no piso para levantar.

A dor aguda me deixou sem forças no corpo inteiro. Tentei uma, duas, três vezes — e em todas escorreguei de volta, inutilmente.

Uma funcionária do clube ouviu a confusão e empurrou a porta para abrir. Ao me ver caída no chão, ficou pálida de susto.

Usei o último resto de força para olhar para ela, minha voz leve como uma folha prestes a cair:

— Por favor... chame uma ambulância para mim.

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