Capítulo 3: Ele me abraçou, mas disse que era pelo preço das ações
(Ponto de vista de Sophia)
Quando escapei pela porta dos fundos do hospital, ainda conseguia ouvir ao longe os repórteres gritando atrás de mim.
Os flashes das câmeras tinham acabado de cessar, minha cabeça ainda zumbia, e eu só queria sair daquele maldito lugar o mais rápido possível.
Mas, no instante em que virei para a escada de incêndio, uma figura bloqueou meu caminho.
Dei de cara com um peito sólido, e um par de braços fortes me segurou com firmeza.
Ergui os olhos e congelei.
Era Daniel.
Quando foi que ele me seguiu até aqui?
— Minha esposa não está se sentindo bem. Eu a trouxe para ver um médico — ele disse com calma aos repórteres que tinham alcançado a gente, num tom totalmente sem emoção.
Eu fiquei rígida dentro do abraço dele, sentindo a mão apertar minha cintura — nem forte demais, nem fraca demais, só o suficiente para eu não conseguir me soltar.
— Sr. Cooper, sobre o senhor e aquela mulher no hotel... o senhor vai se divorciar da Sra. Cooper? — perguntou um repórter, insistente.
Daniel baixou o olhar para mim.
Aquele olhar era complicado — eu não conseguia dizer exatamente o que havia ali, mas com certeza não era ternura.
— Não — ele respondeu, apertando um pouco mais o braço. — Minha esposa e eu temos um ótimo relacionamento.
Ele me lançou um olhar, como se me sinalizasse para entrar no jogo.
Eu assenti mecanicamente.
— Certo. Minha esposa precisa descansar. — Daniel não deu aos repórteres outra chance de fazer perguntas. Meio me abraçando, meio me carregando, ele se virou e voltou para dentro do hospital.
Assim que entramos na escada de incêndio vazia, eu vi Ella.
Ela estava apenas parada ali, a silhueta magra parecendo lamentável sob a luz fraca.
Daniel me soltou imediatamente.
Aquela mão que tinha acabado de segurar minha cintura recuou como se tivesse tocado algo sujo.
O calor no rosto dele sumiu num instante, substituído de novo por aquela expressão fria.
— Eu só fiz aquilo porque tive medo de ela dizer alguma coisa que afetasse o preço das ações — ele explicou a Ella com urgência, como se estivesse esclarecendo algo muito importante.
Eu ri por dentro, com frieza.
Claro, com medo de eu dizer alguma coisa. Não com medo de eu me machucar, não com medo de eu ficar triste — com medo de eu afetar o preço das ações.
Algo que eu não consegui decifrar passou pelos olhos de Ella, mas ela rapidamente colocou um sorriso inocente. — Daniel, Sophia é sua esposa. Cuidar dela é o que você deve fazer.
Tão compreensiva. Tão boa com as palavras.
Daniel assentiu e então se virou para mim, franzindo a testa. — Olha como a Ella é compreensiva. Eu vou deixar esse incidente passar, mas não mire na Ella de novo no futuro.
Mirar nela?
Meu coração já tinha adormecido de dor. Pensando em como eu iria embora em breve, eu disse, sem emoção:
— Não vai haver futuro.
Daniel franziu a testa. — O que você quer dizer?
Eu não respondi.
Ella puxou a manga dele, com ar de coitada. — Daniel, a Sophia não está brava comigo, está?
Daniel me olhou de relance e a consolou. — Não. Ela é assim mesmo. Daqui a pouco passa.
Daqui a pouco passa.
Sempre a mesma frase.
Toda vez que a gente brigava, era eu que cedia. Eu concordava com tudo que ele pedia. Não porque esse fosse o meu jeito, mas porque eu o amava e estava disposta a perdoá-lo de novo e de novo.
Mas desta vez, não.
Desta vez, meu coração estava completamente morto.
— Se não tem mais nada, eu vou voltar — eu disse baixo, virando para ir embora.
— Tem repórter por toda parte lá fora. Como você vai voltar? — Daniel perguntou, por instinto.
— Eu posso ir pela saída dos fundos e evitar eles — eu disse, olhando para os dois. — Eu não vou atrapalhar vocês.
Daniel parecia prestes a dizer alguma coisa, mas Ella o segurou, com a voz fraca. “Daniel, eu também quero voltar pro meu quarto e descansar.”
Daniel olhou para a minha figura se afastando, mas, no fim, desviou o olhar e se virou para ajudar Ella. “Tá bom, eu levo você de volta.”
Sorri com amargura, saí do hospital e liguei para um escritório de advocacia. “Elaborem um acordo de divórcio pra mim, o mais rápido possível... Isso, eu não quero nada.”
(Ponto de vista de Daniel)
Ajudei Ella a voltar para o quarto. Ela falou comigo o caminho inteiro, mas minha mente não parava de voltar ao que Sophia tinha dito mais cedo.
“Não vai haver futuro.”
O que aquilo queria dizer? O que ela quis dizer com “não vai haver futuro”?
“Daniel? No que você tá pensando?” A voz de Ella me trouxe de volta.
Voltei a mim e segurei com delicadeza a mão enfaixada dela, soprando de leve. O ferimento não era grave — o médico disse que sararia em alguns dias —, mas mesmo assim eu me sentia mal por ela.
Ella me observava com um olhar concentrado, então, de repente, se inclinou para mais perto.
Ela queria me beijar.
Instintivamente, virei um pouco o rosto.
O beijo dela caiu na minha bochecha.
O clima ficou constrangedor na hora.
Eu me levantei e arrumei uma desculpa. “Eu só tô preocupado... não ia ser bom se os repórteres pegassem isso na câmera.”
Um lampejo de ressentimento atravessou os olhos de Ella, mas foi rapidamente substituído por mágoa.
Ela suspirou. “Daniel, às vezes eu penso: se a sua avó não tivesse insistido em manter a gente separado naquela época, eu seria a pessoa casada com você agora?”
Olhei para ela e disse, sem muita expressão: “Uhum.”
Mas uma irritação inexplicável cresceu dentro de mim.
Eu claramente amava Ella profundamente, então por que eu recuei quando ela se aproximou?
Por que essa intimidade me deixava desconfortável?
Ella entrelaçou o braço no meu, com a voz doce. “Daniel, agora que a sua avó se foi, ninguém mais pode impedir a gente de ficar junto. Você ainda me ama, né?”
Congelei, sem responder.
Os olhos dela ficaram vermelhos na mesma hora, e ela disse, manhosa: “Daniel, você prometeu cuidar de mim pra sempre. Você não vai me abandonar agora, vai?”
Eu logo passei o braço pelos ombros dela. “Como eu faria isso? Eu sempre vou estar do seu lado.”
“Então você vai se divorciar da Sophia?” Ela ergueu o rosto para mim, com uma expressão inocente.
Divórcio?
Eu nunca tinha pensado nessa questão.
Mesmo sem sentir nada por Sophia, divórcio... eu não sabia explicar, mas tinha alguma coisa nisso que parecia errada.
Não respondi. Em vez disso, me levantei e ajeitei o colarinho, dizendo com gentileza para Ella: “Descansa um pouco. Eu ainda tenho algumas coisas pra resolver. Eu venho te ver outro dia.”
Sem esperar a resposta dela, saí do quarto a passos largos.
De volta à vila, afrouxei a gravata, irritado.
Olhei em volta, mas não vi Sophia.
Será que essa mulher tinha ficado mesmo com raiva?
Tirei o celular do bolso, prestes a ligar pra ela, quando a campainha tocou de repente.
Achando que era Sophia voltando, fui até a porta e a abri de uma vez.
Havia um entregador do lado de fora.
“Esta é a residência da Srta. Sophia Parker? Tem uma entrega internacional pra ela que precisa ser assinada.”
Peguei o documento e vi estampado nele o logotipo de um famoso escritório de design arquitetônico de Eldoria. Franzi a testa.
Depois de assinar e fechar a porta, olhei para a capa.
Havia uma linha em inglês: OFERTA DE EMPREGO.
Uma proposta de trabalho.
Sophia ia para o exterior?
Segurando aquele documento, um sentimento que eu não conseguia definir direito subiu de repente dentro de mim.
