Capítulo 6: O calor da família
Durante três anos, ela ia religiosamente ao escritório dele três vezes por dia, faça chuva ou faça sol, para levar comida, porque ele tinha problemas no estômago.
Mas, quando ela quase foi atropelada, ele não demonstrou a menor preocupação.
Agora, ele não suportava ver Grace sofrer nem um pouquinho.
Essa é a diferença entre amor e indiferença.
Alex soltou uma risada fria, e seu olhar indiferente caiu sobre a mala dela. “Sugiro que você pare enquanto ainda dá tempo. A gente não tem mais nada, e não tem necessidade de contar pra mais ninguém!”
“Não chegue perto da Grace! Se acontecer qualquer coisa com a gravidez dela, você não vai aguentar as consequências.”
“Não se preocupa”, a voz de Emily saiu baixa. “Quando chegar a hora, eu vou embora e não vou passar vergonha.”
“Antes disso, é melhor você resolver as coisas com a vovó primeiro, pra não atrasar o divórcio.”
Ela queria sair daquele lugar mais do que qualquer pessoa.
Dito isso, ela entrou direto na mansão, puxando a mala.
Do começo ao fim, ela nem se deu ao trabalho de olhar para nenhum dos dois.
Alex observou as costas dela se afastando, os olhos escuros se estreitando, sentindo-se ainda mais irritado.
Tão indiferente assim?
E ela parecia até ansiosa para se divorciar.
Quando foi que Emily mudou?
Antes, quando ela olhava para ele, sempre tinha luz nos olhos.
Ela se esforçava com cuidado para agradá-lo, ficava feliz o dia inteiro por causa de uma única palavra dele.
Mas agora, quando ela olhava para ele, não havia calor nenhum, como se ele fosse um estranho.
No momento em que seus pensamentos se aprofundavam, Grace se aproximou, com uma voz tão suave que parecia derreter. “Alex, a Emily está chateada? Talvez eu devesse voltar pro hospital.”
Uma aura gelada emanou de Alex. Ele conteve a irritação e suavizou o tom. “Ela não é importante. Não se preocupa com isso.”
“Seu quarto já está pronto. Vem, eu vou te levar pra descansar.”
Ao ver aquilo, Grace sorriu, toda meiga. “Alex, você é tão bom comigo.”
Emily, que tinha acabado de entrar na mansão, ouviu cada palavra do “ela não é importante” de Alex. O rosto dela empalideceu, e as lágrimas escorreram sem controle pelas bochechas, enquanto o corpo inteiro vacilava.
Depois de anos de casamento, para ele ela era só alguém sem importância.
Emily se sentiu realmente patética!
Com medo de que emoções negativas afetassem a gravidez, Emily respirou fundo, forçando-se a não ficar triste.
Assim que subiu, trancou a porta do quarto, sem querer sair e se humilhar de novo.
Ela estava na metade do esboço do seu desenho quando ouviu o celular tocar.
Quando virou a cabeça, os olhos dela se acenderam. “Alô, pai?”
“Emmie, você tem comido direitinho ultimamente?” A voz sorridente de Andrew Johnson veio do outro lado, cheia de carinho. “A sua mãe fez a sua carne de panela favorita. Se o Alex estiver livre, venham vocês dois aqui em casa.”
Pelo telefone, a voz amorosa de Andrew quase fez Emily chorar. Ela se segurou. “Pai, o Alex está ocupado com o trabalho. Eu vou sozinha.”
Quanto ao Alex, desde o dia do casamento, ele nunca voltou com ela.
Naturalmente, hoje também não iria.
Andrew fez uma pausa e, em seguida, disse rápido: “Tudo bem. Então vai com cuidado.”
Ao ouvir a preocupação do pai, os nervos tensos de Emily finalmente relaxaram.
Ela se levantou na mesma hora, ansiosa para ir pra casa.
Ela estava morrendo de saudade da mãe e do pai...
Emily trocou de roupa e, quando desceu, acabou vendo Grace mandando os empregados levarem flores para o quarto dela.
Emily nem se deu ao trabalho de olhar e pegou um táxi direto para a casa da família Johnson, onde Andrew estava na sala lendo um relatório econômico. “Olha só, a nossa princesinha chegou. Deixa o papai ver se você emagreceu.”
Emily não sabia se ria ou se chorava; sentou-se depressa no sofá. “Eu senti o cheirinho antes mesmo de entrar. Vocês são os melhores, mãe e pai.”
A mãe, Lillian, estava justamente trazendo frutas cortadas e lançou a ela um olhar brincalhão. “Sua danadinha, fazendo manha nessa idade. O Alex não é bom pra você?”
Emily congelou, baixando os olhos para esconder a pontada de dor e fingindo estar tranquila. “Ele também é bom comigo.”
Então Lillian trouxe a carne assada fumegante para a mesa. “Experimenta logo, eu deixei cozinhando por duas horas, especialmente pra você. Fica bem macia.”
Emily pegou uma colher e levou um pouco à boca. “Está uma delícia.”
Tão deliciosa que dava vontade de chorar.
Era o sabor de que ela mais gostava desde criança. Só a mãe conseguia deixar assim, com aquela textura perfeita.
Em três anos na família Baker, ninguém sabia que ela amava esse tipo de comida.
Andrew estava sentado ali perto, observando o rosto pálido dela, os olhos cheios de carinho. “Come devagar, ninguém vai disputar com você.”
Ele hesitou, mas não resistiu a perguntar: “Emmie, você e o Alex... como vocês têm estado ultimamente? Seu pai acha que você emagreceu.”
A mão de Emily parou no meio do movimento de pegar a sopa. Ela baixou os olhos, com um tom leve: “Nada demais, só uns atritinhos. Daqui a pouco passa.”
Ela realmente não queria preocupar os pais — muito menos deixar que soubessem que ela e Alex já estavam à beira do divórcio.
“Atritinhos?” Andrew franziu a testa. “Que casal não discute? Mas o Alex, aquele garoto... o jeito dele é frio demais. Você precisa ser mais compreensiva.”
“E homem, às vezes, só é ruim de palavra. Isso não quer dizer que ele não se importe com você.”
Os dois não sabiam a real situação de Emily na família Baker.
Ela sempre contava as coisas boas, nunca as ruins.
Lillian também balançou a cabeça, sem saber o que fazer, e disse preocupada: “Emmie, casamento é assim mesmo — ceder dos dois lados, se entender dos dois lados.”
“Não seja teimosa demais. Quando tiver que ceder, cede. No fundo, o Alex ainda se importa com você.”
Ceder... ela tinha sido boazinha demais nesses três anos.
Emily assentiu por educação, escondendo o amargor no olhar.
O Alex se importava com ela?
Se ele se importasse de verdade, não teria escolhido outra pessoa quando ela mais precisou — e muito menos teria jogado ela fora como se fosse lixo.
“Aliás, pai”, Emily mudou de assunto, “eu reparei que o senhor tem ido pra empresa direto ultimamente. A firma está com problema de caixa?”
O olhar de Andrew vacilou, e ele fez um gesto rápido com a mão. “Não é nada, só uma coisinha. Já está resolvido.”
“Você não precisa se preocupar com isso. Só cuida bem de você, senão sua mãe e eu não vamos ficar tranquilos.”
Ele falou com leveza, mas Emily sentiu que tinha algo errado.
A empresa da família Johnson não era pequena, mas estava passando por uma fase de mudança pra encarar a concorrência, e agora estava mais difícil conseguir projetos...
Era claro que não era só “uma coisinha”.
Mas, como Andrew não disse mais nada, ela também não insistiu.
Antes de ir embora, os dois mais velhos seguraram as mãos dela. “Emmie, como pessoas que já passaram por isso, a gente ainda precisa te lembrar.”
“Pai, pode falar.” Emily olhou para as têmporas grisalhas do pai, com o coração apertado.
“Você e o Alex estão casados há três anos e ainda não tiveram filho.” Andrew suspirou. “Uma família como os Bakers, no fim das contas, valoriza herdeiro.”
“Se você conseguisse engravidar de um filho do Alex, sua vida ficaria mais fácil.”
O corpo inteiro de Emily enrijeceu. Sem perceber, a mão foi até o baixo-ventre, e um lampejo de emoções contraditórias passou pelos olhos.
Um filho... ela já tinha um.
Mas como ela diria ao pai que essa criança tinha vindo numa hora tão errada?
E que o pai da criança só tinha olhos e coração para outra pessoa?
“Pai, eu sei que o senhor quer o meu bem.” A voz de Emily saiu rouca. “Mas ter filho depende do destino. Não dá pra forçar.”
Andrew balançou a cabeça, impotente, e se virou para separar duas caixas de suplementos para ela. “Eu sei que não dá pra forçar, mas você precisa levar isso a sério, sua boba.”
“Seu pai não quer te pressionar. É que eu fico com pena de você. Você está sozinha lá na família Baker. Com um filho do seu lado, pelo menos você teria em que se apoiar.”
Emily segurou as lágrimas e assentiu. “Pai, eu entendo. Vou pensar nisso.”
