Capítulo 4: O primeiro desafio
Calista
Tudo o que eu vi foi sangue caindo — gotas escuras descendo em câmera lenta — e depois um grito. Minha bochecha estava esmagada contra o chão, e uma sensação estranha me tomou: eu devia ter morrido, mas o destino tinha decidido o contrário no último instante. O príncipe, Dante... o nome dele era Dante. Ele tinha impedido o primo antes que minha cabeça batesse no chão.
Quando ergui os olhos, vi Duval segurando a própria mão, contorcido de dor. Os olhos vermelhos dele ardiam de raiva, as presas expostas numa expressão feroz. Ele tinha cabelo loiro curto, e o jeito dele era de moleque rico mimado. Mas agora ele não parecia arrogante — parecia apavorado, o rosto marcado por incredulidade.
— Como você se atreve? — ele ofegou.
A mão trêmula pingava sangue, manchando a manga. E, quando ele enfim afastou a mão, eu vi. Um dedo faltando. Ah, pelo amor de Deus! Lord Walter ficou em silêncio, paralisado, e os outros vampiros recuaram. Ali perto, Samara fazia carinho nos lobos.
— Calma, calma — ela tranquilizou os animais, enquanto eles se encolhiam, com medo do príncipe. Eu também estremeci, sentindo os dedos do príncipe deslizarem pelo meu cabelo num gesto estranhamente reconfortante. Se eu achava que antes já estava numa situação ruim, eu não fazia ideia. O nível de crueldade ali era além de qualquer coisa que um humano pudesse compreender.
— Não toque no que é meu — foi a única coisa que o príncipe rosnou. Duval encarou Dante com ódio puro. Um dedo. O príncipe tinha arrancado o dedo do primo num único movimento — só porque ele tinha me tocado.
— Você... você só...
— Venha por aqui — Walter ordenou, puxando Duval com ele. Duval foi arrastado contra a própria vontade, gritando como um louco. Aquilo ia terminar mal; eu sabia. A última coisa de que eu precisava era de mais um vampiro se interessando por mim. E, ainda assim, lá estávamos nós de novo.
Foi nesse momento que um sacerdote começou a falar. Era um vampiro pálido e esquálido, com pele quase translúcida e a cabeça lisa, sem um fio de cabelo.
— Lordes, senhores, a primeira prova está prestes a começar, e...
— E senhoras — Samara interrompeu, de propósito. O sacerdote hesitou, confuso por um instante.
— Hm... Sim... e senhoras. Como eu dizia, lembro a todos que este é um evento sagrado. Os escravos representarão seus mestres e suas casas. Vocês terão alguns minutos para encantá-los e lhes dar instruções. E deixo claro: durante os desafios é estritamente proibido matar, ferir ou foder seus escravos. — Meu corpo tremia tanto que a sensação já tinha virado quase algo normal.
— Diga que é minha — o príncipe exigiu, os olhos cravados em mim. E eu sabia que não tinha escolha. — Eu protejo aqueles que juram lealdade a mim. Não vou deixar ninguém tocar em você.
— Exceto Vossa Majestade — respondi, e ele rosnou.
— Eu vou ser seu mestre, em todos os sentidos da palavra. — Que escolha eu tinha?
— Eu aceito — murmurei. A coisa mais próxima de um sorriso passou pelo rosto dele. Ele estendeu a mão e deslizou os dedos pelo meu pescoço, depois desceu até o meu peito, bem onde meu coração batia como um passarinho preso numa gaiola.
— Você vai fingir que está encantada. Vai fazer tudo o que eu mandar, e eu não vou te machucar. Você vai dizer a todos que pertence a mim e a mais ninguém. Não vai contar a ninguém quem você é nem que eu não consegui te encantar — ele prometeu. Eu não acreditei. Mas assenti com a cabeça.
— Sobreviva e não faça nenhuma burrice — foi tudo o que ele disse antes de ir se juntar aos outros.
Ele tinha que me ajudar! Como ele ia me proteger? Isso tudo era uma armadilha — ele só queria me humilhar. Ouvi uma voz e me virei. Hans estava mais para o lado, observando, como sempre.
— Estão todos apostando que você vai ser a primeira a cair, humanazinha — ele zombou. — Seu novo mestre é pior do que eu. Ele vai deixar você morrer. Você devia ter ficado comigo. Ah, e a propósito, escrava... as regras valem pro seu mestre, não pro resto de nós. Eu posso te matar e, com certeza... te foder.
Ele mostrou as presas, os olhos descendo rápido até o meu decote. Estava imaginando tudo o que faria comigo.
— Se eu fosse você, não tentava — a não ser que queira ficar sem os dedos — retruquei, ríspida.
Ainda ouvi o rosnado dele enquanto eu me apressava, seguindo os outros escravos na descida para as câmaras subterrâneas. Eu não fazia ideia do que me esperava, mas sabia uma coisa com certeza: eu estava em enorme desvantagem.
Olhei ao redor, avaliando os outros. Uma loba forte. Uma vampira. O resto era de homens — vampiros, lobisomens e alguns humanos, todos mais fortes do que eu. Ninguém falava. Ninguém sequer olhava para o outro, a não ser por relances curtos e cautelosos. Nós não éramos competidores. Nossos únicos inimigos de verdade eram os vampiros desta casa — e a própria morte. Parecia o Dia do Juízo Final.
— Aqui — disse o padre, apontando para um corredor mal iluminado. — Sigam por essa passagem e encontrem a saída.
O corredor era escuro, com tochas presas às paredes em intervalos. Eu me perguntei se os lordes vampiros estavam nos observando de algum lugar. Aquilo era um jogo para eles. Se Hans estivesse certo e eles estivessem apostando, então deviam estar assistindo, se divertindo.
— É só isso? — perguntou um escravo vampiro alto e musculoso.
O padre sorriu, revelando dentes escurecidos. Pelo canto do olho, vi os escravos de Samara. Eles continuavam na forma de lobo, imóveis como duas esfinges de pedra.
— Encontrem a porta certa e poderão ir embora... Só isso. Os que conseguirem serão honrados com um grande banquete.
Eu endureci quando rosnados guturais ecoaram pelas paredes. Aquilo não era bom.
— Andem! — o padre latiu.
O vampiro alto foi o primeiro a disparar para a frente — e foi imediatamente atravessado por uma lança, pregando-o na parede. Eu gritei, horrorizada.
Eu não tinha habilidade nenhuma, nenhuma vantagem. Eu era só uma garota criada para ser uma dama de verdade. Eu ia me casar com Greyson e virar esposa de um lorde. Agora, eu era escrava de um lorde e a próxima vítima nesse processo maldito.
— Agora! — o padre berrou, empurrando a gente para a frente.
O ar foi arrancado dos meus pulmões quando todo mundo avançou, se acotovelando, torcendo para que os horrores adiante acertassem outra pessoa primeiro. Senti o pelo de um lobo roçar na minha perna.
Meus olhos varreram o corredor à meia-luz, e minhas mãos agarraram a saia do vestido para ela não me atrapalhar.
Um homem à minha frente alcançou uma porta, em pânico a cada movimento. Ele puxou e escancarou — só para mãos sombrias aparecerem, agarrá-lo pela garganta e arrastá-lo para dentro.
O grito dele ecoou no ar antes de virar silêncio. Lanças caíram do alto como chuva, atingindo lobos e humanos grandes. Eu era tão pequena que elas passaram longe de mim. Mas a minha vez ia chegar. Eu tinha certeza.
Um lobo saltou em cima de mim, me derrubando para o lado. Eu me espatifei no chão sob uma tocha, enquanto os sobreviventes continuavam pela passagem, abrindo portas à força. Alguns avançavam mais. Mas havia alguma coisa escondida atrás de cada porta.
Então, de uma delas, uma fumaça grossa e negra começou a se derramar.
E o próprio inferno foi solto.
