Capítulo 6
PONTO DE VISTA DA FREYA
O parque estava vazio.
Só eu, o banco e o som distante do trânsito. Os postes de luz desenhavam sombras alaranjadas na grama. Meu vestido estava arruinado. Barra suja de terra. Um rasgo na lateral, de tanto que eu tinha corrido. Os saltos que o Adrian comprou pra mim estavam no chão, ao lado dos meus pés. Eu não conseguia mais usar aquilo. Não conseguia aguentar a lembrança de tudo o que aconteceu esta noite.
Meu celular vibrou na bolsinha de mão que eu, de algum jeito, ainda estava com ela. Peguei o aparelho. Vinte e três ligações perdidas. Quinze do Adrian. Oito da Clara. Três mensagens de um número que eu não reconhecia.
Desliguei o celular e enfiei de volta na bolsa.
Eu não queria falar com ninguém. Não queria ouvir mais mentiras, nem explicações, nem promessas de que ia ficar tudo bem. Porque nada estava bem. Nada nunca mais ia ficar bem.
Minha mãe foi assassinada.
Esse pensamento ficava rodando na minha cabeça, como um urubu. Não foi acidente. Não foi azar. Assassinato. Kelvin colocou as mãos nela e acabou com a vida dela porque o pai dele mandou. E eu amei ele. Deixei ele encostar em mim. Acreditei nas mentiras dele por meses.
Eu queria vomitar.
A náusea passou depois de alguns minutos. E me deixou vazia de novo. Oca. Eu encarei minhas mãos no meu colo. Elas pareciam as mesmas de sempre. Pequenas. Pálidas. Mãos humanas.
Mas, segundo o Adrian, elas não eram humanas coisa nenhuma.
Lobisomem.
A palavra ainda soava absurda, mesmo depois de ver o Adrian se transformar num lobo e enfrentar outros três. Depois de ver os olhos dele brilharem em azul. Depois de ver ele matar sem hesitar.
Ele disse que eu era como ele. Que minha mãe prendeu o meu lobo pra me esconder. Que eu estava despertando.
Eu não me sentia despertando. Eu me sentia desmoronando.
Um casal passou pela frente do parque. Jovem. Rindo. O braço dele em volta dos ombros dela. Ela se encostou nele como se ele fosse o mundo inteiro dela. Eles nem olharam pra mim, sentada sozinha no banco, num vestido rasgado e sem sapatos.
Eu me perguntei como era a vida deles. Simples, provavelmente. Normal. Sem lobisomens, sem assassinato, sem vínculos sobrenaturais. Só problemas humanos comuns, tipo contas, trabalho e o que fazer pro jantar.
Eu queria isso. Queria o normal com tanta força que doía.
Mas eu não podia ter. Não mais. Não se o Adrian estivesse falando a verdade.
E, lá no fundo, eu sabia que ele estava. Porque, por mais louco que parecesse, tudo fazia sentido. Os sonhos. A inquietação. O jeito como meus sentidos vinham ficando mais aguçados ultimamente. A atração que eu sentia pelo Adrian, que não tinha lógica nenhuma.
Par.
Ele me chamou de par dele. Disse que a gente estava destinado. Que algum laço invisível nos ligava.
Eu não queria estar ligada a ninguém. Não queria destino, nem sorte, nem qualquer força cósmica achando que podia decidir minha vida por mim.
Eu já tinha perdido controle demais. Perdi minha mãe. Perdi a verdade sobre quem eu era. Perdi qualquer sensação de segurança ou normalidade.
Eu não ia perder as minhas escolhas também.
O ar da noite estava ficando mais frio. Eu me abracei, tentando descobrir o que fazer em seguida. Eu não podia ficar nesse parque pra sempre. Não podia simplesmente ficar aqui sentada esperando amanhecer.
Eu precisava das minhas coisas. Roupas. Dinheiro. Meu notebook. Tudo ainda estava no meu apartamento.
Voltar pra lá parecia perigoso. O Adrian disse que o pessoal do Asher podia estar esperando. Que nenhum lugar era seguro, a não ser com ele.
Mas eu não podia voltar para o Adrian. Não conseguia encará-lo depois de ter fugido. Não aguentava mais verdades, nem revelações, nem o jeito como ele me olhava como se eu pertencesse a ele.
Meu apartamento, então. Só tempo suficiente para pegar o que eu precisava. Depois eu veria o resto.
Eu me levantei e peguei os saltos. Comecei a andar descalça pela calçada. O concreto estava gelado sob os meus pés. Áspero. Um caco de vidro cortou o meu calcanhar, mas eu continuei andando. A dor era boa. De verdade. Algo que eu conseguia entender.
A caminhada levou trinta minutos. Talvez mais. Eu perdi a noção do tempo. O meu prédio parecia o mesmo de sempre. Tijolo velho. Tinta descascando em volta das janelas. O gato da dona Chen sentado na janela do térreo, como sempre.
Normal.
Subi as escadas devagar. Cada degrau parecia pesado. Quando cheguei ao meu andar, parei do lado de fora da minha porta e simplesmente encarei.
Aquele era o meu lar. O lugar que eu tinha lutado tanto para manter. O lugar onde o Kelvin me traiu havia menos de uma semana.
Agora aquilo parecia ter acontecido há uma vida inteira. Quando o meu maior problema era um namorado infiel e dinheiro para pagar o aluguel. Quando eu achava que era humana.
Destranquei a porta e entrei. Apertei o interruptor. Nada aconteceu.
A luz tinha acabado.
Ótimo. Perfeito. Era só o que me faltava.
Usei o celular como lanterna, mesmo com a bateria quase no fim. O apartamento parecia errado naquela claridade fraca. Sombras nos lugares errados. Meus móveis pareciam pertencer a outra pessoa.
Fui para o meu quarto e puxei uma bolsa de viagem debaixo da cama. Comecei a enfiar roupas lá dentro. Jeans. Camisetas. Calcinha. Não dobrei nada. Só peguei o que estava ao alcance.
A bolsa estava pela metade quando eu parei. Olhei ao redor do quarto pequeno. Para a cama onde eu costumava dormir. Para a escrivaninha onde eu fazia tarefa da escola. Para o guarda-roupa onde eu guardava as coisas da minha mãe.
As coisas da minha mãe.
Soltei a bolsa e fui até o guarda-roupa. Afastei as minhas roupas até encontrar a caixa lá no fundo. Papelão. Fechada com fita adesiva. Eu não abria aquilo havia anos. Não tinha coragem de encarar as coisas dela depois que ela morreu.
Mas agora eu precisava. Precisava ver se havia alguma coisa. Alguma pista sobre o que o Adrian tinha dito. Sobre o meu pai. Sobre o vínculo.
Levei a caixa até a cama e me sentei. Arranquei a fita. O papelão estava mole, gasto pelo tempo. Dentro havia roupas. O suéter favorito dela. Um cachecol. Alguns livros.
No fundo, havia uma caixinha de joias. Pequena. De madeira. Eu abri. Um colar. Alguns brincos. Um anel de que eu lembrava dela usando.
E, embaixo do anel, havia um papel dobrado.
Minhas mãos tremiam enquanto eu o desdobrava. O papel era velho. Amarelado. Coberto pela letra da minha mãe.
Não era uma carta. Era uma lista.
Nomes. Datas. Lugares. Nada fazia sentido. Mas no topo, em letras destacadas, havia três palavras.
MANTENHA-A SEGURA.
Eu encarei aquelas palavras até elas embaralharem. Mantenha-a segura. Mantenha-me segura. Do quê? De quem?
Fui mais fundo na caixa. Afastei mais roupas. Meus dedos tocaram em algo duro. Couro.
Um diário.
Pequeno. Couro marrom. Gastado nas bordas, como se tivesse sido aberto mil vezes. Eu o puxei e fiquei segurando por um instante. Aquilo tinha sido da minha mãe. Ela tocou aquilo. Escreveu ali.
Abri na primeira página.
Se você está lendo isto, então eu já não estou mais aqui. E você já tem idade suficiente para saber a verdade.
Meu fôlego falhou. Li as palavras de novo. E de novo.
Era para mim. Ela escreveu aquilo para mim.
Freya, minha menina linda. Tem tanta coisa que eu preciso te contar. Tanta coisa que eu queria conseguir explicar pessoalmente. Mas, se você está lendo isto, então esse tempo já passou.
Você não é quem acha que é. Seu pai não era humano. Ele era outra coisa. Algo poderoso e perigoso e bonito.
Um lobisomem.
Minhas mãos tremiam tanto que as palavras pareciam pular na página.
Eu sei como isso soa. Eu sei que você não vai querer acreditar. Mas é verdade. Lobisomens existem. Eles vivem entre nós. Escondidos. E o seu pai era um dos mais fortes.
Nós nos conhecemos por acaso. Eu estava trabalhando até tarde. Ele estava só de passagem pela cidade. Bastou um olhar e eu soube. Soube que ele era diferente. Soube que ele era perigoso. Soube que eu devia correr.
Eu não corri.
Nós tivemos três meses juntos. Três meses de momentos roubados e promessas sussurradas. Ele me contou o que era. Me mostrou. Eu devia ter ficado apavorada. Em vez disso, eu o amei ainda mais.
Aí eu descobri que estava grávida de você.
Parei de ler. Apertei o diário contra o peito e tentei respirar. Meu pai era um lobisomem. Minha mãe sabia. Mesmo assim, ela o amou.
E então ela teve a mim.
Eu me forcei a continuar lendo.
Seu pai queria nos levar de volta para a alcateia dele. Queria me reconhecer oficialmente como companheira dele. Mas o mundo dele era perigoso. Havia leis. Regras. Política que eu não entendia.
Ele era um Alfa. Isso significava algo importante para o povo dele. E se unir a uma humana quebrava essas leis. Leis que ele mesmo tinha ajudado a criar para proteger os outros.
Nós discutimos sobre o que fazer. Ele queria lutar por nós. Queria mudar as regras. Eu queria que ele ficasse em segurança. Queria que você ficasse em segurança.
Aí eles vieram.
Os inimigos dele. Os que odiavam as leis. Os que viam o nosso amor como uma traição. Eles atacaram. Seu pai conseguiu afastá-los, mas nós dois sabíamos que aquilo era só o começo.
Ele me pediu para fazer uma coisa. Uma coisa que manteria você em segurança. Ele conhecia uma bruxa. Alguém poderoso. Ela podia selar o seu lobo. Esconder tão fundo que ninguém saberia o que você era.
Ia doer. O selamento tiraria uma parte de você. Mas manteria você viva.
Eu aceitei.
O ritual aconteceu na noite em que você nasceu. Você chorou tanto. Eu te segurei enquanto a bruxa fazia a magia dela. Vi seus olhos mudarem do dourado de volta para o castanho. Senti o poder se escoar.
Meu bebê. Meu bebê lindo. Eu tirei uma parte da sua alma para salvar a sua vida.
Seu pai foi embora no dia seguinte. Disse que seria mais seguro se ninguém ligasse nós três. Disse que ia vigiar de longe. Nos manter protegidas.
Eu não o vi desde então.
E agora eu sei que eles estão vindo atrás de mim. Eu fiz perguntas demais. Cheguei perto demais da verdade sobre para onde seu pai foi. Quem machucou ele. Por que ele parou de dar notícias.
Se você está lendo isto, então meu tempo acabou.
As palavras começaram a ficar embaçadas. Lágrimas pingaram na página. Eu as enxuguei depressa. Não queria estragar a tinta.
Eu preciso que você saiba que tudo o que eu fiz foi para te proteger. O selamento. As mentiras. A mudança para esta cidade. Tudo foi para te dar uma vida normal.
Mas o selamento não vai durar para sempre. Quando você fizer dezenove anos, ele vai começar a se quebrar. O seu lobo vai despertar. E, quando isso acontecer, você vai precisar de ajuda.
Encontre Adrian Metcalfe.
Meu coração parou.
Ele é um Alfa na cidade. Um dos mais fortes. Seu pai confiava nele. Fez ele prometer que cuidaria de você se acontecesse alguma coisa.
Procure-o quando você despertar. Ele vai ajudar você. Ensinar você. Proteger você.
Confie nele, Freya. Mesmo quando parecer impossível. Confie nele.
O diário escorregou das minhas mãos e caiu em cima da cama.
Adrian.
A minha mãe sabia do Adrian. O meu pai sabia do Adrian.
Isso não foi um acidente. Nem sorte. Nem destino.
Isso foi planejado.
O Adrian não reconheceu o meu cheiro por acaso, três semanas atrás. Ele estava esperando. Observando. Seguindo ordens do meu pai morto.
Tudo era mentira.
O acordo. O relacionamento de fachada. O jeito como ele olhava pra mim. Tudo aquilo era só ele cumprindo uma promessa feita a outra pessoa.
Eu não era a companheira dele. Eu era responsabilidade dele.
A traição bateu mais forte do que qualquer outra coisa naquela noite. Mais forte do que descobrir sobre lobisomens. Mais forte do que saber que o Kelvin matou a minha mãe.
Porque alguma parte de mim tinha querido que fosse de verdade. Queria que Adrian me quisesse por mim. Não por causa de algum vínculo, ou promessa, ou obrigação.
Eu agarrei o diário e continuei lendo. Precisava saber o resto. Precisava ver sobre o que mais ela mentiu.
Tem mais coisas que você precisa saber. Sobre seu pai. Sobre a sua linhagem. Sobre por que você é tão importante.
Mas eu estou ficando sem tempo. Eles estão chegando mais perto. Eu sinto.
O resto está no cofre do banco. A chave está escondida no forro da minha caixinha de joias. Bank of America na Fifth Street. Cofre número 2847.
Está tudo lá. As cartas do seu pai. A verdade sobre as guerras entre as alcateias. Por que você está em perigo.
Eu te amo, Freya. Mais do que qualquer coisa neste mundo. Desculpa por eu não poder estar aí pra ajudar você a passar por isso.
Seja forte. Seja corajosa. Seja a mulher que eu sei que você pode ser.
E lembre-se: você é mais poderosa do que imagina.
Com amor, sempre,
Mãe
A última página estava em branco. Era isso. Era tudo o que ela escreveu.
Eu me sentei na cama, com o diário nas mãos, tentando entender tudo. O meu pai era um Alfa. A minha mãe o amava. Eles me tiveram. Inimigos apareceram. Ela selou a minha loba pra me salvar. Aí ela morreu tentando descobrir o que tinha acontecido com ele.
E o Adrian sabia disso o tempo todo.
Sabia quem eu era. O que eu era. O que eu deveria me tornar.
Ele brincou comigo. Me fez achar que era química, ou atração, ou destino. Quando, na verdade, era só uma promessa que ele tinha feito a um homem morto.
O meu celular vibrou de novo. Ainda estava desligado, mas a vibração furou os meus pensamentos. Eu peguei o aparelho e liguei de novo. Outra mensagem daquele número desconhecido.
Você não pode se esconder pra sempre. Nós sabemos onde você está.
O gelo tomou minhas veias.
Eu pulei da cama. Peguei a bolsa de viagem. Enfiei o diário lá dentro. Fui até a caixinha de joias e rasguei o forro até encontrar a chave. Pequena. Prateada. Eu enfiei no bolso.
Então eu ouvi passos no corredor.
Pesados. Lentos. Deliberados.
Eles pararam do lado de fora da minha porta.
Eu prendi a respiração e encarei a maçaneta. Vi ela girar devagar.
Eu tinha trancado. Eu sabia que tinha trancado.
Mesmo assim, a porta se abriu.
Um homem entrou. Alto. Ombros largos. Olhos que brilhavam de leve na escuridão.
— Olá, Freya. — A voz dele era fria. — Nós estamos procurando você.
