A Cláusula da Companheira do Professor

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Capítulo 5

PONTO DE VISTA DA FREYA

Os lobos eram enormes.

Maiores do que qualquer animal que eu já tinha visto. Os olhos deles brilhavam em amarelo na escuridão. Os dentes reluziam, brancos. Eles se moviam rápido. Rápido demais.

— Fica atrás de mim. — Adrian me empurrou para trás. A voz dele já não soava normal. Mais grave. Mais áspera.

— O que são essas coisas?

— Só fica atrás de mim.

Três deles nos cercaram. Rosnando. Mostrando os dentes. Os músculos ondulando sob o pelo escuro. Pareciam prontos para nos despedaçar.

Um deles avançou.

Adrian se moveu mais rápido do que deveria ser possível. Ele pegou o lobo no meio do salto e o arremessou. Arremessou mesmo. O animal bateu numa árvore a uns seis metros de distância com um estalo nauseante.

— Corre pro carro. — Adrian não olhou para mim. Os olhos dele estavam presos nos outros dois lobos. — Agora, Freya.

— Eu não vou te deixar aqui.

— Eu disse pra correr.

O segundo lobo atacou. Adrian o agarrou pela garganta. As mãos dele estavam diferentes. Maiores. As unhas mais compridas. Mais afiadas. Ele apertou, e o lobo soltou um som engasgado.

O terceiro veio em cima de mim.

Eu gritei e tropecei para trás. Caí no chão com força. Em segundos, o lobo estava em cima de mim. Hálito quente no meu rosto. Baba pingando. Olhos amarelos encarando os meus.

Então Adrian estava ali. Ele arrancou o lobo de cima de mim e o arremessou contra o chão. Ossos estalaram. O animal amoleceu, inerte.

Adrian se virou para mim. Os olhos dele brilhavam em azul. Brilhavam de verdade. O corpo dele estava maior. Os músculos esticando a camisa. Quando ele abriu a boca, os dentes estavam pontudos.

— O que você é? — As palavras saíram num sussurro.

Ele não respondeu. Só pegou minha mão e me puxou para cima. Começou a me arrastar em direção ao estacionamento.

O primeiro lobo estava se levantando de novo. Sacudindo a cabeça. Sangue escorria da boca, mas ele não estava morto. Começou a vir na nossa direção outra vez.

— Entra no carro. — Adrian me empurrou em direção à Bentley. — Tranca as portas. Não abre pra ninguém além de mim.

— O que você vai fazer?

— O que eu deveria ter feito no momento em que a gente chegou aqui.

O corpo dele começou a mudar. Eu assisti, horrorizada, enquanto os ossos dele se deslocavam. A pele ondulava. Pelo brotava ao longo dos braços. O rosto se alongava. As mãos viravam garras.

Em poucos segundos, Adrian tinha desaparecido.

No lugar dele, havia um lobo. Maior do que os outros. Pelo preto. Olhos azuis que ainda brilhavam.

O lobo olhou para mim uma vez. Depois se virou e correu direto contra os três atacantes.

Eu me enfiei no carro e tranquei as portas com as mãos tremendo. Pela janela, eu vi Adrian lutar. Vi ele dilacerar os outros lobos com dentes e garras. O sangue respingou na grama. Os rosnados tomaram o ar.

Isso não era real. Não podia ser real. Pessoas não viravam lobos. Lobos não atacavam casamentos. Nada disso fazia sentido.

Um dos lobos atacantes caiu. Não se levantou mais.

Outro fugiu. Desapareceu entre as árvores.

O terceiro continuou lutando. Era menor do que Adrian, mas rápido. Desviava dos ataques e tentava pegar a garganta dele.

Adrian o pegou. Mordeu com força. O lobo ganziu e ficou imóvel.

Silêncio.

Adrian ficou de pé sobre os corpos. Sangue no focinho. O peito subindo e descendo rápido. Então ele começou a mudar de novo. Ossos estalando. O pelo recuando. Em segundos, ele era humano outra vez.

Nu.

Ele foi até o carro e bateu no vidro. — Abre a porta, Freya. —

Minhas mãos não obedeciam. Eu só encarei Adrian através do vidro.

— Freya. Abra. A. Porta.

Bem devagar, eu destranquei. Ele entrou. Havia sangue nas mãos dele. No peito. Ele cheirava a metal, a sangue, e a alguma coisa selvagem.

— Dirige. — Ele se esticou para o banco de trás e puxou uma bolsa que eu não tinha notado antes. Começou a vestir roupas. — A gente precisa sair antes que apareçam mais.

— Mais?

— Sim, mais. Agora dirige.

— Eu não consigo dirigir esse carro. Mal consigo dirigir o meu.

Ele xingou baixinho e passou por cima de mim, indo para o banco do motorista. Eu me atrapalhei inteira para ir para o lado do passageiro. Ele ligou o motor e a gente saiu cantando pneu do estacionamento.

Nenhum de nós falou por vários minutos. Eu vi as luzes da cidade virarem um borrão na janela. Tentei processar o que eu tinha acabado de ver. Não consegui nem de longe.

— Você virou um lobo. — Minha voz soou distante. Como se fosse de outra pessoa.

— Sim.

— Isso não é possível.

— Pelo visto é.

— O que você é? — Eu virei para encarar ele. — E o que eram aquelas coisas?

— Lobisomens. — Ele disse com a maior naturalidade, como se estivesse comentando o tempo. — Eles são lobisomens. Eu sou um lobisomem. Esse mundo tem muito mais coisa do que você imaginava.

Lobisomens. A palavra parecia absurda até dentro da minha cabeça. — Isso não é real. Lobisomens não existem.

— Você acabou de me ver me transformar e matar três deles. Ainda acha que não existem?

Eu não tinha resposta.

A gente entrou na garagem subterrânea do prédio dele. Adrian estacionou e desceu. Deu a volta até o meu lado e abriu a porta. Eu não me mexi.

— Vamos. A gente precisa entrar.

— Eu quero ir pra casa.

— A sua casa não é segura. E nenhum outro lugar é, agora, exceto comigo. — Ele estendeu a mão. — Por favor, Freya. Confia em mim.

— Confiar em você? Você acabou de virar um lobo. Você mentiu pra mim sobre tudo.

— Eu não menti. Eu só não tinha te contado toda a verdade ainda. — A mão dele continuou estendida. — Mas eu vou te contar agora. Tudo. Só entra comigo.

Eu não queria ir com ele. Queria correr. Queria acordar desse pesadelo, fosse lá o que fosse. Mas a lembrança daqueles lobos nos perseguindo ainda estava viva demais. O medo era real demais.

Eu peguei na mão dele.

A gente subiu no elevador em silêncio. Minha cabeça estava a mil. Lobisomens existiam. Adrian era um. Aquelas coisas no casamento estavam tentando matar a gente. Me matar. E, de algum jeito, isso tudo tinha ligação com o que eu ouvi escondida. Com a minha mãe.

O elevador se abriu na cobertura dele. Adrian me guiou até a sala e apontou para o sofá.

— Senta.

Eu sentei. Vi ele ir até o bar e servir duas doses. Voltou e me entregou uma. Uísque. Eu virei num gole só. A ardência fez bem. Era de verdade.

— Começa a falar. — Eu apoiei o copo com força. — Me conta tudo.

Adrian sentou de frente pra mim. Se inclinou, com os cotovelos nos joelhos.

— Lobisomens são reais. A gente existe há milhares de anos. Vivendo ao lado dos humanos. Escondendo o que a gente é.

— Por quê?

— Porque humanos têm medo do que não entendem. E o medo deixa eles perigosos. — Ele passou a mão pelos cabelos. — Existem alcateias no mundo inteiro. Famílias. Hierarquias. Leis. A gente tem uma sociedade própria, escondida dentro da sua.

— E você é um deles.

— Sim. Eu sou um Alfa. Líder de uma das maiores alcateias desta região.

Alfa. A palavra mexeu com alguma coisa no meu peito. Algo que parecia reconhecimento.

— O que isso quer dizer?

— Quer dizer que eu mando. Eu faço as regras. Eu protejo a minha matilha. — Os olhos dele encontraram os meus. — E eu protejo o que é meu.

— Eu não sou sua.

— É sim, Freya. Você é. — Ele disse com uma certeza absoluta, como se fosse ponto final. — Você é a minha companheira.

A palavra me atingiu como um balde de água gelada.

— Sua o quê?

— Minha companheira. Minha parceira destinada. A única pessoa no mundo feita pra mim. — Ele se inclinou, chegando mais perto. — Eu tenho te procurado há anos. E, três semanas atrás, quando você completou dezenove, eu finalmente te encontrei.

— Isso é insano.

— É a verdade. Lobisomens têm companheiros predestinados. A gente sente pelo cheiro. Pelo instinto. O vínculo puxa a gente um pro outro. — A mão dele se estendeu e tocou meu rosto. Eu me encolhi, mas não me afastei. — Eu soube no instante em que seu cheiro chegou até mim. Você é minha. E eu sou seu.

— Para de falar assim. — Eu me levantei rápido e comecei a andar de um lado pro outro. — Eu não sou lobisomem. Eu sou humana. Isso é loucura.

— Você não é humana, Freya.

Eu parei. Virei pra encarar ele.

— O quê?

— Você não é humana. Você é uma lobisomem. Como eu. — Ele se levantou e veio na minha direção. — Sua mãe prendeu o seu lobo quando você nasceu. Escondeu com magia pra ninguém saber o que você era. Mas essa amarração está se desfazendo. Você está despertando.

Não. Não, não, não.

— Você está mentindo.

— Não estou. Pensa. Os sonhos que você tem tido. Correndo por florestas. Caçando. O jeito como seus sentidos ficaram mais aguçados essa semana. O jeito como você consegue ouvir coisas que não deveria ouvir. Sentir cheiros que não deveria sentir. — Ele já estava bem na minha frente. — É o seu lobo tentando se soltar.

Eu balancei a cabeça e recuei.

— Minha mãe era humana. Ela morreu num acidente de carro. Ela era uma pessoa normal.

— Sua mãe era humana, sim. Mas seu pai não era. Ele era um Alfa. E um Alfa poderoso. E, quando você nasceu, os inimigos deles vieram atrás de você. Então sua mãe usou magia antiga pra prender o seu lobo. Pra te esconder. — A voz dele ficou mais baixa. — E depois esses mesmos inimigos mataram ela pra manter o segredo seguro.

O mundo girou. Eu segurei o encosto do sofá pra não cair.

— Kelvin.

— Sim. Kelvin matou sua mãe por ordem do pai dele. — O maxilar de Adrian se retesou. — Asher Brooks queria apagar sua linhagem. Seu pai criou leis que o Asher odiava. Leis contra humanos e lobisomens ficarem juntos. Quando sua mãe teve você apesar dessas leis, o Asher viu isso como a traição definitiva.

— Então ele matou ela. — As palavras saíram sem expressão. Vazias. — E ele quer me matar também.

— Sim. Mas ele não vai conseguir. Porque você é minha e eu protejo o que é meu.

— Para de falar isso. — Eu queria gritar. Queria chorar. Queria quebrar alguma coisa. — Eu não sou sua. Eu não sou lobisomem. Isso não é real.

— Freya...

— Não. — Eu fui em direção ao elevador. — Eu preciso ir embora. Eu preciso pensar. Eu preciso...

— Você não pode sair. Não é seguro.

— Eu não me importo. — Eu apertei o botão do elevador. — Me deixa ir.

— Não.

— Adrian, eu juro que se você não me deixar sair agora...

— O quê? O que você vai fazer? — Ele se colocou na frente do elevador, bloqueando o meu caminho. — Correr de volta pro seu apartamento, onde os homens do Asher provavelmente estão te esperando? Correr pra Clara, que vem me contando cada passo seu há dois anos? Pra onde, exatamente, você acha que pode ir?

Clara. A traição doeu como se tivesse acabado de acontecer.

— Ela trabalha pra você?

— Ela faz parte da minha matilha. Eu pedi que ela cuidasse de você. Pra manter você em segurança até você acordar. — A expressão dele suavizou. — Ela se importa com você, Freya. Essa parte era de verdade. Mas, sim, ela me dá informações.

Todo mundo tinha mentido. Todo mundo tinha me usado.

— Sai da minha frente.

— Não.

— Sai, Adrian.

— Me obriga.

A gente se encarou. O ar entre nós parecia elétrico. Perigoso. Uma parte de mim queria bater nele. Outra parte queria beijá-lo. Eu não entendia nada daquilo.

— Por favor. — Minha voz falhou. — Por favor, só me deixa ir. Eu não consigo respirar aqui. Não consigo pensar. Eu preciso de espaço.

Algo vacilou nos olhos dele. Dor, talvez. Ele saiu do caminho.

— Tá. Mas você não vai sozinha.

— Eu não quero você comigo.

— Azar. Você é minha companheira e é minha responsabilidade. Se você sair, vai sair com proteção. — Ele tirou o celular e mandou uma mensagem. — O Marcus vai te encontrar lá embaixo. Ele vai te levar pra onde você quiser e vai manter você em segurança.

— Eu não quero a sua proteção.

— Você vai ter mesmo assim. — Ele foi até o elevador e segurou a porta. — Vai. Mas, Freya... você não pode fugir do que você é. E não pode fugir de mim. Não pra sempre.

Entrei no elevador. Vi ele ali, parado, parecendo tudo o que eu queria e tudo o que eu temia. As portas começaram a se fechar.

— Eu vou te encontrar. — A voz dele saiu baixa. — Quando você estiver pronta. Eu vou estar lá.

As portas se fecharam.

Desci sozinha. Meu peito estava apertado. Minhas mãos tremiam. Meu mundo inteiro tinha explodido no espaço de uma hora.

Lobisomens. Companheiros predestinados. Assassinato. Magia.

Nada fazia sentido.

Mas a pior parte era que alguma coisa bem lá no fundo acreditava nele. Acreditava em tudo. Porque explicava os sonhos. As sensações estranhas. O jeito como eu me sentia puxada na direção do Adrian, como se fosse gravidade.

O elevador abriu. Um homem estava na garagem. Alto. Cabelo escuro. Olhos que brilhavam de leve na penumbra.

— Srta. Reed. Eu sou o Marcus. — A voz dele era gentil. — Pra onde a senhora gostaria de ir?

Eu não respondi. Só passei por ele e fui em direção à saída. Em direção à rua. Em direção a qualquer lugar que não fosse ali.

— Srta. Reed, espera. Não é seguro.

Eu não esperei. Não parei. Só continuei andando.

Atrás de mim, ouvi ele praguejar e vir atrás. Ouvi ele chamando alguém. Provavelmente o Adrian.

Eu não ligava.

Virei a esquina e comecei a correr.

Pra longe dos lobisomens. Pra longe das mentiras. Pra longe do homem que dizia que eu pertencia a ele.

Corri até meu pulmão queimar. Até meus pés doerem naquele salto alto caro e idiota. Até eu não conseguir correr mais.

Então desabei num banco de algum parque que eu não reconhecia e me permiti, enfim, quebrar.

As lágrimas vieram quentes e rápidas. Soluços rasgaram meu peito. Tudo doía. Tudo estava errado.

Minha mãe foi assassinada. Eu não era humana. Adrian era um lobisomem que achava que eu era a companheira predestinada dele. E, em algum lugar da cidade, tinha gente me caçando.

Eu não sabia o que fazer. Não sabia pra onde ir. Eu não sabia mais nada.

Tudo o que eu sabia era que eu não podia voltar. Não pro Adrian. Não praquela cobertura. Não pra vida que eu achava que tinha.

Então eu fiquei sentada naquele banco, com meu vestido caro, e chorei até não sobrar nada.

E me esforcei muito pra não pensar no lobo de olhos azuis que prometeu que iria me encontrar.

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