Capítulo 4
PONTO DE VISTA DA FREYA
O salão de recepção era gigantesco.
Lustres de cristal pendiam do teto como cachoeiras congeladas. Flores brancas cobriam cada superfície. Mesas redondas forradas com seda cercavam uma pista de dança que refletia a luz como gelo. Tudo ali gritava dinheiro. Dinheiro antigo. Do tipo que não precisa provar nada, porque todo mundo já sabe.
A mão de Adrian estava firme na minha cintura enquanto entrávamos. Todas as cabeças se viraram. As conversas pararam no meio da frase. Olhares nos acompanharam pelo salão.
— Estão encarando — sussurrei.
— Deixa encararem. — A voz dele foi baixa, junto ao meu ouvido. — Você parece alguém que poderia comprar esse casamento inteiro. Então aja como se fosse.
Um garçom surgiu com champanhe. Adrian pegou duas taças e me entregou uma. Os dedos dele roçaram nos meus. Aquela mesma sensação elétrica subiu pelo meu braço.
— À vingança — murmurou ele, erguendo a taça.
Toquei a minha na dele. — À vingança.
O champanhe era caro. Eu percebia pelo gosto, diferente de qualquer coisa que eu já tivesse bebido. Macio. Perfeito. Provavelmente custava mais por garrafa do que eu ganhava numa semana.
— Professor Metcalfe.
Nós dois viramos. Um homem na casa dos cinquenta se aproximou. Cabelo prateado. Terno caro. Olhos cinzentos e frios que me lembraram uma cobra.
A mão de Adrian apertou na minha cintura. — Asher.
Meu estômago despencou. Aquele era o pai do Kelvin. O homem sobre quem Adrian tinha me alertado.
— Não esperava ver você aqui. — O sorriso de Asher não chegou aos olhos. — Eu não sabia que você conhecia a família Brooks.
— Eu conheço muita gente. — A voz de Adrian estava perfeitamente educada. Perfeitamente fria. — Asher Brooks, esta é Freya Reed. Minha acompanhante.
Os olhos de Asher deslizaram até mim. Algo cintilou neles. Reconhecimento, talvez. Ou cálculo. — Senhorita Reed. Que prazer conhecê-la.
— O prazer é meu. — A mentira teve gosto amargo.
— Você estuda na universidade? — Asher perguntou.
— Ela estuda. — Adrian respondeu antes que eu pudesse abrir a boca. — Na verdade, uma das minhas alunas mais brilhantes.
— Que bom. — O sorriso de Asher se alargou. — Kelvin comentou que tinha uma namorada que estudava lá. Que mundo pequeno.
— Pequeníssimo. — O tom de Adrian daria para cortar vidro.
Os dois homens se encararam. O ar entre eles pareceu pesado. Perigoso. Como assistir a dois animais se medindo antes de uma briga.
— Bem. Aproveitem a noite. — Asher assentiu e foi embora.
Soltei um ar que eu nem sabia que estava prendendo. — Aquele era o pai do Kelvin?
— Era.
— Ele parece…
— Perigoso. E é. — Adrian me virou na direção da pista de dança. — Vem. A gente precisa aparecer.
— Aparecer?
— Esse é o objetivo. Lembra? — A mão dele deslizou mais para baixo na minha cintura. Quase no meu quadril. — Fazer o Kelvin sofrer.
Ele me conduziu para a pista de dança bem quando a música mudou para algo lento. A mão dele encontrou a minha. A outra ficou na minha cintura. Começamos a nos mover, e eu percebi que Adrian sabia dançar. Dançar de verdade. Não aquele arrastar desajeitado ao qual eu estava acostumada.
— Onde você aprendeu a dançar assim? — perguntei.
— Eu sou à moda antiga. — Os olhos dele ficaram escuros de novo. O mesmo olhar da cobertura. — Tem muita coisa que eu poderia te ensinar.
O calor subiu pelo meu pescoço. — Adrian…
— Sim?
— Você precisa parar de falar essas coisas.
— Por quê? Te deixa desconfortável? — A mão dele desceu mais um pouco. Bem na curva do meu quadril. — Ou te faz querer coisas que você não deveria querer?
Os dois. Com certeza os dois.
Avistei Kelvin do outro lado do salão. Ele estava nos observando. O maxilar dele estava travado. As mãos, cerradas ao lado do corpo. A mulher ao lado dele, de vestido branco, só podia ser Vanessa. Era linda. Fria. Ela nem sequer olhava para Kelvin. Apenas encarava alguma coisa do outro lado do salão com um olhar entediado.
— Ele está olhando — eu disse, baixo.
— Ótimo. — Adrian me puxou para mais perto. Nossos corpos ficaram colados. Eu sentia cada linha dura dele através do tecido fino do meu vestido. — Acena pra ele de novo.
— O quê?
— Sorri. Acena. Faz ele achar que você está se divertindo horrores.
Olhei por cima do ombro do Adrian e encontrei o olhar do Kelvin. Dei um sorriso aberto. Um aceninho.
O rosto do Kelvin ficou vermelho.
O peito do Adrian vibrou com uma risada. — Perfeito. Você leva jeito pra isso.
— Pra quê? Pra torturar meu ex?
— Pra fazer os homens quererem o que não podem ter. — A boca dele estava bem junto da minha orelha agora. — Todo homem neste salão está olhando pra você. Querendo estar no meu lugar. Querendo tocar em você do jeito que eu estou tocando.
Minha respiração falhou. — Você está fazendo isso de propósito.
— Óbvio. — A mão dele apertou a minha cintura. — Mas eu também estou falando a verdade. Você não tem ideia do quanto é bonita. Do quanto é desejável.
— Para.
— Por quê? Porque te deixa nervosa? Porque você não está acostumada com um homem dizendo qual é o seu valor?
Sim. Exatamente isso.
A música acabou. Adrian não me soltou. Só ficou ali, me segurando no meio da pista de dança, enquanto as pessoas se moviam ao nosso redor.
— Adrian. Estão olhando.
— Deixa olharem. — Mas, por fim, ele me soltou. Em vez disso, pegou minha mão. — Vem. Vamos arranjar alguma coisa pra você comer.
Fomos até uma das mesas. A comida estava disposta como se fosse obra de arte. Porções minúsculas e perfeitas de coisas que eu não sabia nem nomear. Adrian montou um prato e me entregou.
Eu não estava com fome, mas peguei mesmo assim. Belisquei alguma coisa que talvez fosse peixe.
Foi quando comecei a perceber certas coisas.
O jeito como alguns convidados se moviam. Suave demais. Gracioso demais. Como se estivessem deslizando, em vez de andar.
O jeito como os olhos deles pegavam a luz. Refletindo por um segundo, antes de voltarem ao normal.
O jeito como se observavam. E a mim. Principalmente a mim.
— Adrian. — Pousei o prato. — Tem alguma coisa errada.
— Como assim?
— As pessoas daqui. Elas são... — Eu não encontrava as palavras. — Diferentes.
A expressão dele não mudou, mas algo tremeluzou nos olhos. — Diferentes como?
— Eu não sei. Só... diferentes. O jeito como elas se mexem. O jeito como olham para as coisas. — Esfreguei os braços. — Isso é loucura? Eu estou ficando paranoica?
— Não. — Ele pegou minha mão. O aperto dele era firme. — Você não está louca. Só é observadora. Isso é bom. Continua olhando. Me diz se alguém te deixar desconfortável.
— Alguém?
— Qualquer um, menos eu.
Antes que eu pudesse responder, alguém chamou meu nome.
— Freya?
Eu me virei. Clara vinha andando na nossa direção. Estava com um vestido azul-marinho e parecia completamente fora de lugar. Os olhos dela se arregalaram quando viu Adrian.
— Clara? O que você está fazendo aqui?
— Eu poderia te perguntar a mesma coisa. — O olhar dela alternou entre mim e Adrian. — Você veio com o professor Metcalfe?
— Sim. Nós... — Olhei para Adrian. — É complicado.
— Dá pra ver. — A voz de Clara saiu afiada. Ela encarou Adrian. — Posso pegar ela emprestada um minuto?
— Não. — O tom de Adrian não deixava espaço para discussão.
— Como é?
— Eu disse não. A Freya fica comigo.
O maxilar de Clara se contraiu. — Eu só quero falar com a minha amiga.
— Então fala aqui. — Adrian me puxou para o lado dele. Possessivo. Mandão. — Eu não vou tirar os olhos dela.
Os dois ficaram se encarando. Algum tipo de comunicação silenciosa passou entre eles, uma coisa que eu não entendi.
Por fim, Clara olhou para mim. “Cuidado. Por favor.”
“Cuidado com o quê?”
“Só toma cuidado.” Ela se virou e sumiu de volta no meio da multidão.
“O que foi isso?” perguntei a Adrian.
“Nada. Ela só é protetora.” A mão dele ainda estava na minha cintura. Apertada. “Não sai de perto. Fica comigo.”
“Você vive dizendo isso. Por quê?”
“Porque eu…” Ele parou. Olhou por cima do meu ombro. A expressão dele endureceu, gelada. “Kelvin. Vindo pra cá.”
Eu me virei bem na hora em que Kelvin empurrava as pessoas e vinha na nossa direção. O rosto dele estava vermelho. A gravata, frouxa. Ele parecia bêbado ou com raiva — ou os dois.
“Freya. A gente precisa conversar.” Ele nem reconheceu Adrian. Só ficou me encarando com olhos arregalados, selvagens.
“Acho que não precisa, não.” Mantive a voz firme.
“Precisa, sim.” Ele agarrou meu braço. “Agora.”
Adrian se mexeu tão rápido que eu mal vi. Num segundo Kelvin estava segurando meu braço. No outro, ele cambaleava para trás, com Adrian entre nós.
“Encosta nela de novo e eu quebro a sua mão.” A voz de Adrian saiu baixa. Letal. “Aliás… encosta nela de novo e eu quebro bem mais do que isso.”
Kelvin se endireitou. Tentou bancar o durão. Falhou. “Ela é minha namorada.”
“Ex-namorada.” Eu contornei Adrian. “E eu vim com outra pessoa. Então me deixa em paz.”
“Você veio com ele?” A voz de Kelvin falhou. “Com o professor Metcalfe? Você tá falando sério?”
“Muito sério.”
“Há quanto tempo isso tá acontecendo? Você tava me traindo?”
Eu quase ri. “Você tá brincando, né? Você me traiu. Várias vezes. E depois me disse que ia casar. Então não fica aí fingindo que o problema sou eu.”
“Aquilo era diferente.”
“Diferente como?”
“Minha família armou isso. Eu não tive escolha.”
“Você teve escolha quando dormiu com outras mulheres na nossa cama.” Eu me aproximei mais. “Você teve escolha quando mentiu pra mim por meses. Então não vem falar comigo sobre escolha.”
As mãos de Kelvin se fecharam em punhos. “Ele tá te usando. O que quer que ele tenha te dito é mentira. Ele não liga pra você.”
“E você ligava?” Eu ri. Ri de verdade. “Você não conseguiu ser fiel nem por uma semana. Então guarda essa preocupação. Eu não preciso dela.”
“Freya…”
“Vai embora, Kelvin.” A voz de Adrian cortou o que quer que Kelvin fosse dizer. “Antes que eu faça você ir embora.”
Kelvin olhou para Adrian. Olhou de verdade. Alguma coisa atravessou o rosto dele. Medo, talvez. Ele deu um passo para trás. Depois outro. “Isso não acabou.”
“Acabou, sim.” Eu virei as costas pra ele. Encarei Adrian. “Vamos.”
Os olhos de Adrian estavam completamente negros agora. A mandíbula dele estava travada. Ele parecia que queria despedaçar Kelvin com as próprias mãos.
“Adrian. Vamos embora.”
Ele piscou. A escuridão diminuiu um pouco. “Você quer sair?”
“Eu quero respirar. A gente pode ir lá fora?”
“Pode.” Ele pegou minha mão e me conduziu até as portas que davam para os jardins.
O ar da noite estava frio na minha pele. Eu puxei o ar fundo e tentei parar de tremer. Aquela confrontação com Kelvin tinha me deixado em carne viva. Exposta.
“Você se saiu bem lá dentro”, Adrian disse em voz baixa.
“Eu queria ter batido nele.”
“Eu pagaria pra ver isso.” Ele sorriu. Sorriu de verdade. “Mas o que você disse foi melhor. Doeu nele mais do que seu punho conseguiria.”
“Ótimo.” Eu me abracei. “Eu sei que não devia me importar. Eu sei que ele não vale a pena. Mas ver ele lá dentro com ela. Agindo como se eu nunca tivesse importado…”
— Ele é um idiota. — Adrian me virou para encará-lo. As mãos dele envolveram meu rosto. — Um idiota completo. E vai passar o resto da vida se arrependendo do que perdeu.
— Você não sabe disso.
— Sei. — O polegar dele deslizou pela minha mandíbula. — Porque eu botaria o mundo abaixo antes de deixar você ir embora.
Meu coração parou.
— Adrian...
— Eu sei. Era pra ser de mentira. Só uma noite. Mas nada disso parece mentira pra mim. — Ele encostou a testa na minha. — Me diz que você também sente. Isso entre a gente.
Eu sentia. Meu Deus, eu sentia. Mas eu não conseguia dizer. Não conseguia dar voz ao que quer que estivesse crescendo entre nós.
— A gente devia voltar lá pra dentro — eu sussurrei.
— Ainda não. — As mãos dele desceram até a minha cintura. — Só me dá mais um minuto. Mais um minuto fingindo que você é minha de verdade.
— Eu não sou sua.
— Ainda não. — Ele disse tão baixo que quase não ouvi. — Mas vai ser.
Antes que eu pudesse responder, ouvi vozes. Vozes de homens. Vindo da esquina do prédio.
— ...chegando perto demais. Ele sabe de alguma coisa.
— Metcalfe vive fuçando onde não é chamado. Não importa. Depois de hoje à noite, a gente segue com o plano.
Reconheci uma das vozes. Kelvin.
A outra era mais velha. Mais áspera.
— Você devia ter lidado melhor com a mãe dela. Feito parecer acidente.
Meu sangue virou gelo.
— Eu fiz o melhor que pude. Ela estava fazendo perguntas demais. Chegando perto demais da verdade.
— E agora a garota está despertando. Você entende o que isso significa? Se ela completar a transformação, tudo pelo que a gente trabalhou vai por água abaixo.
— Então o que a gente faz?
— O que a gente devia ter feito anos atrás. A gente dá um fim nela. Hoje à noite, se for possível.
A mão de Adrian tampou minha boca antes que eu soltasse qualquer som. Ele me puxou para trás, me prensando na parede. Para dentro das sombras. O corpo dele ficou rígido, tenso.
As vozes continuaram.
— Metcalfe não vai deixar você chegar perto dela.
— Então a gente dá um jeito no Metcalfe também. Eu já tenho gente posicionada. No momento em que eles saírem deste lugar, a gente age.
— Você que manda, pai. Mas se isso der errado...
— Não vai dar errado. Agora volta lá pra dentro antes que alguém note que você sumiu.
Passos. Se afastando.
Adrian tirou a mão da minha boca devagar. Eu tremia tanto que meus dentes batiam.
— Eu… eu acabei de ouvir minha mãe? — As palavras saíram quebradas. — Eu era a pessoa de quem eles estavam falando? Eles disseram que mataram a minha mãe.
— Eu sei. — Adrian me virou para encará-lo. Os olhos dele tinham ficado negros de novo. Completamente negros. — Eu sei, meu amor. Mas a gente precisa ir embora. Agora. Eles estão planejando alguma coisa, e eu preciso te levar pra um lugar seguro.
— Seguro? Eles acabaram de dizer que iam me matar. — Minha voz subiu, o pânico arranhando a minha garganta. — O que está acontecendo? Que transformação? Do que eles estão falando?
— Eu vou te explicar tudo. Eu prometo. Mas primeiro a gente precisa sair daqui. — Ele agarrou minha mão e me puxou em direção ao estacionamento.
— Espera. Minha bolsa. Está lá dentro.
— Esquece. A gente precisa ir agora.
A gente estava na metade do caminho até o carro quando eu ouvi.
Um uivo.
Longo. Grave. Ecoando pelos jardins.
Eu congelei.
— O que foi isso?
O rosto de Adrian ficou pálido.
— Corre.
— O quê?
— Corre. Agora.
Outro uivo respondeu ao primeiro. Mais perto, dessa vez.
Então eu vi.
Silhuetas se movendo na escuridão. Grandes demais pra serem cães. Rápidas demais pra serem humanas.
Lobos.
Lobos enormes, com olhos que brilhavam à luz da lua.
E eles vinham correndo direto na nossa direção.
