A Cláusula da Companheira do Professor

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Capítulo 3

PONTO DE VISTA DA FREYA

A Bentley preta estava estacionada do lado de fora do meu prédio exatamente às quatro horas.

Fiquei na janela, encarando o carro lá embaixo. Parecia custar mais do que tudo o que eu tinha, somado. Talvez mais do que o prédio inteiro. Brilhava sob o sol da tarde como se fosse de outro mundo.

Meu celular vibrou.

Cheguei.

Só duas palavras do Adrian. Sem cumprimento. Sem gentileza; espera, por que eu estava esperando gentileza?

Peguei minha bolsa e desci. Minhas mãos estavam tremendo de novo. Elas vinham tremendo, indo e voltando, a semana inteira. Desde que eu concordei com esse plano insano.

A semana tinha sido estranha. Meus sentidos pareciam mais aguçados. Eu conseguia ouvir conversas do outro lado da lanchonete que eu não deveria conseguir ouvir. Os cheiros estavam mais fortes. Minhas emoções ficavam oscilando da raiva para alguma outra coisa que eu não conseguia nomear. E os sonhos. Sonhos de correr por florestas. De caçar. De dentes e garras e luar.

Eu joguei a culpa no estresse.

Adrian estava encostado no carro quando eu saí. Ele usava calça social preta e uma camisa cinza-escura, com as mangas dobradas até os cotovelos. Sem gravata. Os dois primeiros botões abertos. Ele parecia… meu Deus, ele parecia ter saído de uma revista.

Os olhos dele me acompanharam enquanto eu me aproximava. O mesmo olhar intenso da sala de aula. Como se ele conseguisse ver através da minha roupa. Através da minha pele. Direto no que quer que eu estivesse tentando esconder.

— Pronta? — a voz dele era baixa. Aveludada.

— Eu tenho escolha?

— Você sempre tem escolha. — Ele abriu a porta do passageiro. — Mas você já fez a sua.

Entrei no carro. O interior era todo de couro preto e madeira escura. Tinha cheiro de coisa cara. De dinheiro e de outra coisa. Uma coisa que fazia minha pele parecer apertada demais.

Adrian entrou do lado do motorista, e o motor ronronou ao pegar. Saímos do meu prédio e seguimos em direção ao centro.

— Pra onde a gente está indo? — perguntei depois de alguns minutos de silêncio.

— Pra minha casa. Você precisa se arrumar.

— Eu podia ter me arrumado em casa.

— Não. Não podia. — Ele olhou de relance pra mim. — Confia em mim.

Eu não confiava nele. Não confiava em nada disso. Mas eu já estava no carro, então que escolha eu tinha agora?

Dirigimos pela parte cara da cidade. A parte em que os prédios têm porteiro e os restaurantes não colocam preço no cardápio. Adrian entrou numa garagem subterrânea, sob um prédio que parecia encostar nas nuvens.

Ele estacionou numa vaga marcada como PRIVATIVO e saiu. Eu o segui até um elevador que precisava de cartão para funcionar. Subimos em silêncio. Os números não paravam de aumentar. Vinte andares. Trinta. Quarenta.

O elevador abriu direto dentro de um apartamento.

Não. Não era um apartamento. Era uma cobertura.

Janelas do chão ao teto mostravam a cidade inteira se espalhando lá embaixo. O espaço era imenso. Aberto. Móveis modernos em preto e cinza. Arte nas paredes que provavelmente custava mais do que a minha faculdade. Tudo limpo. Perfeito. Como se ninguém morasse ali de verdade.

— Esse lugar é seu? — dei um passo para fora do elevador, devagar.

— Um deles. — Adrian passou por mim em direção a um corredor. — Vem. A gente não tem muito tempo.

Eu o segui pelo corredor até um quarto. Era maior do que o meu apartamento inteiro. A cama era enorme. Lençóis pretos. Mais janelas. Uma porta que provavelmente levava a um banheiro do tamanho da minha cozinha.

Em cima da cama havia um vestido.

Parei na porta e fiquei encarando. O tecido parecia líquido. Um verde-esmeralda profundo que parecia mudar com a luz. Era lindo. Lindo num nível que me dava um aperto no peito, porque eu sabia que nunca, nem em um milhão de anos, teria dinheiro pra comprar uma coisa daquelas.

— Isso é pra mim? — minha voz saiu baixa, quase um fiapo.

— Óbvio. — Adrian já estava indo até o closet. Ele puxou uma caixa e colocou na cama, ao lado do vestido. Sapatos. Saltos pretos com sola vermelha. Outra caixa. Menor. Ele abriu e revelou joias. Um colar. Brincos. Tudo brilhava.

— Eu não posso usar isso. — balancei a cabeça. — Isso é demais. Isso deve custar…

— Eu não tô nem aí pro quanto custa. — Ele se virou pra mim. — Você vai a esse casamento parecendo que poderia comprar e vender todo mundo naquela sala. Entendeu?

— Mas eu não posso…

— Freya. — Ele disse meu nome como uma ordem. — Veste o vestido.

A gente se encarou. Meu coração disparava. Tudo nisso parecia errado. Parecia que eu estava fazendo um acordo que eu não entendia. Mas eu também queria ver a cara do Kelvin quando eu entrasse usando uma coisa tão cara. Queria que ele engasgasse com o próprio arrependimento.

— Tá. — fui até a cama. — Mas eu preciso de privacidade.

A boca do Adrian se curvou numa coisa que não chegava a ser um sorriso.

— Eu vou ficar no banheiro. Me chama quando precisar de ajuda com o zíper.

Ele sumiu pela porta antes que eu pudesse discutir.

Fiquei sozinha no quarto enorme, encarando o vestido. Minhas mãos tremiam ainda mais agora. Tirei o jeans e a camiseta. Deixei tudo jogado num monte no chão. O vestido parecia água quando eu o peguei. Frio. Liso. Eu entrei nele e puxei pra cima.

Serviu perfeitamente.

Perfeitamente demais.

Como ele sabia meu tamanho? Como ele sabia tudo isso?

O zíper era atrás. Levei a mão pra trás e consegui subir até a metade antes de travar. Tentei de novo. Nada.

— Adrian? — chamei.

A porta do banheiro abriu na hora. Como se ele já estivesse esperando.

Ele veio na minha direção e eu senti meu fôlego falhar. Tinha algo diferente no jeito que ele se movia. Predatório. Determinado. Ele parou atrás de mim e eu senti o calor dele contra as minhas costas.

— Fica parada. — a voz dele estava bem ao lado da minha orelha.

Os dedos dele roçaram minha coluna quando ele pegou o zíper. Devagar, ele puxou pra cima. Centímetro por centímetro. Os nós dos dedos arrastaram na minha pele o tempo todo. Eu parei de respirar em algum ponto ali no meio das costas.

O zíper chegou até o topo e ele não se afastou.

— Pronto. — o hálito dele estava quente no meu pescoço. — Perfeito.

Eu não conseguia me mexer. Não conseguia pensar. As mãos dele ainda estavam na minha cintura. Firmes. Possessivas. Como se ele tivesse todo o direito de me tocar.

— Adrian. — eu quis que saísse firme. Saiu tremido.

— Vira.

Eu não devia ter obedecido. Devia ter me afastado. Mas meu corpo obedeceu antes do meu cérebro acompanhar. Eu me virei pra encarar ele.

Os olhos dele estavam diferentes. Mais escuros. O azul quase tinha sumido. Engolido pelo preto.

— Linda. — ele disse baixinho. Como se estivesse falando sozinho.

— O vestido é lindo — eu corrigi. Minha voz era quase um sussurro.

— Não. — a mão dele subiu e afastou uma mecha de cabelo do meu rosto. Os dedos dele demoraram na minha bochecha. — Você é.

Isso era errado. Ele era meu professor. Isso ultrapassava umas cem linhas diferentes. Mas eu não me afastei. Não mandei ele parar. Eu só fiquei ali, paralisada, enquanto o polegar dele desenhava a linha do meu maxilar.

—A gente devia terminar de se arrumar —eu finalmente consegui dizer.

Ele baixou a mão e recuou um passo. A escuridão nos olhos dele diminuiu um pouco.

—Senta. Eu vou arrumar o seu cabelo.

—Você vai arrumar o meu cabelo?

—Você quer discutir por tudo ou quer fazer o Kelvin se arrepender de existir?

Eu me sentei.

Adrian voltou a ficar atrás de mim. Os dedos dele deslizaram pelos meus cabelos, e eu senti uma eletricidade descer pela minha coluna. Ele foi delicado. Surpreendentemente delicado. Juntando as mechas e torcendo. Prendendo. Eu conseguia ver nós dois no espelho do outro lado do quarto. Ele em pé atrás de mim. As mãos dele no meu cabelo. A expressão concentrada no rosto.

—Onde você aprendeu a fazer isso? —perguntei.

—Eu tenho irmãs.

—Você tem irmãs?

—Tinha. Faz muito tempo. —Alguma coisa passou pelo rosto dele. Sumiu antes que eu conseguisse nomear. —Pronto. Acabou.

Ele tinha puxado meu cabelo para algo elegante. Cachos soltos presos, com algumas mechas emoldurando meu rosto. Parecia coisa de profissional. Como se eu tivesse passado horas num salão.

—Como você…

—Joias agora. —Ele pegou o colar da caixinha. Um pingente simples numa corrente delicada. Ele veio para a minha frente e se inclinou. O rosto dele ficou a poucos centímetros do meu. —Levanta o cabelo.

Eu juntei as mechas soltas e levantei. Ele passou o colar em volta do meu pescoço. Os dedos dele roçaram na minha garganta enquanto fechava o fecho. Eu conseguia sentir o cheiro dele agora. Algo limpo e escuro. Algo que me deixava tonta.

—Respira, Freya. —A boca dele estava de novo bem perto da minha orelha.

—Eu estou respirando.

—Não. Você está prendendo a respiração. —As mãos dele desceram do meu pescoço para os meus ombros. —Relaxa.

Como eu ia relaxar com ele me tocando assim? Quando cada roçar dos dedos dele fazia minha pele parecer que estava pegando fogo?

Ele recuou e estendeu a mão.

—Brincos.

Eu mesma coloquei. Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei um cair.

Adrian me observou o tempo todo com aquele olhar escuro e intenso. Quando terminei, ele inclinou a cabeça.

—Levanta. Deixa eu ver.

Eu me levantei. O vestido marcava cada curva. O salto fazia minhas pernas parecerem mais longas. As joias pegavam a luz. Eu parecia outra pessoa. Alguém que pertencia a coberturas de luxo e carros caros.

—Perfeito. —Adrian deu a volta em mim devagar. Os olhos dele percorreram cada centímetro. —Absolutamente perfeito.

—Para de olhar pra mim desse jeito.

—Desse jeito como?

—Como se você quisesse… —eu me contive.

—Como se eu quisesse o quê? —Ele parou na minha frente. Perto demais. —Fala.

—Nada. A gente devia ir. O casamento começa já já.

—A gente tem tempo. —A mão dele subiu e traçou a linha do decote do vestido. Os dedos roçaram na minha clavícula. —Você sabe o que esse vestido faz comigo?

Eu não consegui respirar de novo.

—Adrian…

—Faz eu querer rasgar ele de você. —A voz dele estava baixa. Áspera. —Faz eu querer ver o que tem por baixo. Faz eu querer passar as mãos em você inteira até você esquecer que o Kelvin já existiu.

O calor me inundou. O rosto. O peito. Mais embaixo.

—Você não pode falar coisas assim.

—Por que não? É a verdade. —O polegar dele percorreu minha garganta. —Seu coração está disparado. Eu consigo ver seu pulso bem aqui. —Ele pressionou de leve meu pescoço. —Você sente também. Essa coisa entre a gente.

—Não tem nada entre a gente. Você é meu professor. Isso é só um acordo. Só uma noite.

—Continua repetindo isso pra você mesma. —Ele baixou a mão e recuou. Os olhos dele estavam completamente negros agora. —Mas nós dois sabemos que você está mentindo.

Eu precisava de espaço. Precisava de ar. Precisava que ele parasse de olhar para mim como se fosse me devorar inteira. “Eu preciso de um minuto.”

— Leve o tempo que precisar. Vou ficar na sala. — Ele se virou e saiu.

Fiquei sozinha no quarto, tentando lembrar como se respira. Meu reflexo me encarava no espelho. O vestido. O cabelo. As joias. Eu parecia alguém que pertencia a um casamento de bilionário.

Mas por baixo de tudo eu ainda era só eu. Ainda era só Freya Reed, que trabalhava em dois empregos e mal conseguia pagar o aluguel. Ainda era só a garota cujo namorado tinha traído.

Só que, quando Adrian olhava para mim, eu não me sentia aquela garota. Eu me sentia outra coisa. Algo perigoso. Algo poderoso.

Fui para a sala. Adrian estava de pé perto das janelas, olhando a cidade. Agora ele tinha colocado um paletó. Preto. Impecavelmente ajustado. Ele parecia todas as fantasias que eu já tive — e algumas que eu nem sabia que tinha.

— Pronta? — Ele se virou para mim.

— Tão pronta quanto eu vou conseguir estar.

— Então vamos mostrar ao Kelvin o que ele perdeu. — Ele estendeu o braço.

Eu segurei. Os músculos dele eram duros sob o tecido do paletó. Sólidos. Reais.

Descemos no elevador em silêncio. Entramos de novo no Bentley. Adrian dirigiu pela cidade enquanto o sol começava a se pôr. O local do casamento ficava fora da cidade. Uma propriedade enorme, com jardins que pareciam não ter fim e dinheiro demais em tudo.

— Nervosa? — Adrian lançou um olhar de lado para mim.

— Apavorada.

— Ótimo. Use isso. — A mão dele saiu do câmbio e foi parar na minha coxa. Só ficou ali. Quente. Pesada. Possessiva. — Lembre-se: hoje à noite você é minha. Aja como tal.

— Sua?

— Meu par. Minha responsabilidade. Fique perto de mim. Não saia andando por aí. Tem gente nesse casamento que não é sua amiga.

— O que isso quer dizer?

— Quer dizer que a família do Kelvin é perigosa de um jeito que você ainda não entende. Então fique. Perto. — A mão dele apertou minha coxa. — Entendeu?

— Sim.

Paramos em frente ao lugar. Manobristas correram para pegar o carro. Adrian desceu e veio até o meu lado. Abriu a porta. Estendeu a mão.

Eu peguei e desci para o ar fresco da noite. O vestido brilhava na luz que se apagava. As pessoas já estavam olhando. Cochichando.

Adrian me puxou para junto dele. O braço dele passou pela minha cintura. Possessivo. Impositivo.

— Hora do show — ele murmurou no meu ouvido.

Caminhamos juntos em direção à entrada. Cada passo parecia me levar para uma armadilha que eu não entendia. Mas a mão de Adrian estava firme na minha cintura, me prendendo ali.

As portas se abriram, e a música veio flutuando para fora. Risadas. Vozes.

Então eu vi ele.

Kelvin estava perto da entrada, conversando com alguém. Ele ergueu os olhos. Me viu. Viu Adrian.

O rosto dele ficou pálido, depois vermelho.

A mão de Adrian apertou mais a minha cintura. Eu senti ele se inclinar. A boca dele roçou meu ouvido.

— Dá um tchau pra ele, bebê. Faz ele saber exatamente o que ele perdeu.

Bebê. A palavra fez o calor subir em espiral dentro de mim. Isso era falso. Só fingimento. Mas o jeito que Adrian disse aquilo me fez querer que fosse de verdade.

Ergui a mão e dei um aceno pequeno para Kelvin. Um sorriso que não chegava aos olhos.

Kelvin parecia ter levado um soco no estômago.

Adrian soltou uma risada baixa no peito. O som vibrou contra o meu lado.

— Boa garota. Agora vamos fazer ele sofrer.

Entramos juntos, e eu percebi uma coisa assustadora.

Eu não fazia ideia do que eu tinha acabado de encarar.

Mas alguma parte escura dentro de mim queria descobrir.

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