Capítulo 2
PONTO DE VISTA DO ADRIAN
Ela cheirava a coração partido.
Eu senti no instante em que Freya Reed entrou na minha sala. Aquele cheiro amargo e cortante por baixo do sabonete barato de sempre e do café. Alguma coisa tinha quebrado dentro dela ontem à noite.
Ótimo.
Coisas quebradas eram mais fáceis de reivindicar.
Recostei na cadeira e a observei deslizar até o lugar de sempre, na terceira fileira. Ela manteve a cabeça baixa. O cabelo loiro caindo para a frente, escondendo o rosto. Os outros alunos falavam alto ao redor dela, mas ela ficou quieta, com as mãos tremendo.
Há três semanas ela fez dezenove e o cheiro dela finalmente atravessou qualquer amarra que o mantinha escondido. A palavra COMPANHEIRA me atingiu com tanta força que quase me transformei ali mesmo, na minha mesa. Kael rugiu dentro da minha cabeça e exigiu que eu tomasse o que era nosso.
Mas eu não podia. Ainda não. Ela não fazia ideia do que era. Não fazia ideia de que eu era alguma coisa além do professor dela.
Então eu esperei. Observei. Planejei.
Aí Kelvin Brooks apareceu. Lobisomem. Um bastardinho convencido. Filho do meu inimigo. Namorando a MINHA companheira.
Isso não podia continuar.
Ontem à noite, eu a segui até em casa saindo da lanchonete e vi Kelvin chegar com outra mulher. Ouvi a briga. Vi os dois indo embora. Deixei meu bilhete na porta dela à meia-noite, porque oportunidade não espera.
Agora ela estava ali, com cara de quem tinha sido destruída, e eu ia usar cada segundo disso.
— Bom dia. — Eu me levantei e contornei a mesa. Me apoiei na borda da frente. Deixei o olhar percorrer a sala antes de parar nela. — Abram na página quarenta e sete.
Ela ergueu o rosto.
Nossos olhos se encontraram e alguma coisa elétrica passou entre nós. A respiração dela falhou. Só por um segundo. Então ela desviou rápido e se atrapalhou com o livro.
Kael ronronou dentro de mim. Ela também tinha sentido. A atração. O vínculo tentando se encaixar, mesmo atravessando a amarra.
Eu me obriguei a desviar o olhar e chamei outro aluno para ler. A aula se arrastou. Cinquenta minutos fingindo me importar com literatura gótica enquanto meu lobo queria esvaziar a sala e prendê-la contra a mesa.
Por fim, o relógio marcou nove e cinquenta.
— É só por hoje. As redações são para sexta-feira.
Os alunos começaram a guardar as coisas. Freya enfiou tudo na bolsa e se levantou depressa.
— Srta. Reed. — Minha voz cortou o burburinho. — Fique.
Ela congelou. Todos os outros alunos passaram por ela. Alguns olharam para trás, curiosos, mas ninguém disse nada.
Eu esperei até o último sair, depois fui até a porta e a fechei. Tranquei.
O clique ecoou na sala silenciosa.
Freya ficou ao lado da carteira, agarrando a bolsa.
— Eu recebi seu bilhete.
— Eu sei.
— Como você sabe onde eu moro?
— Isso importa? — eu me aproximei. Só alguns passos. O bastante pra deixá-la nervosa.
Ela recuou meio passo. — O que você quer?
Direto ao ponto. Eu gostei disso. Sem joguinho.
— Fiquei sabendo do Kelvin.
O rosto dela empalideceu e, em seguida, ficou vermelho. — Como?
— O pessoal comenta. — Parei a poucos metros. Perto o suficiente pra sentir o cheiro dela direito agora. Medo e raiva e alguma coisa mais doce por baixo. — O casamento dele é no sábado.
— E daí?
— E daí que você devia ir.
Ela me encarou como se eu tivesse enlouquecido. — Você quer que eu vá assistir meu ex se casar? Você tá falando sério?
— Eu quero que você vá comigo.
Silêncio.
Ela piscou. — O quê?
— Como meu par. A gente vai junto. Você tá incrível. Ele percebe o que perdeu. Todo mundo ganha.
— Isso é loucura.
— É mesmo? — Inclinei a cabeça. Estudei o rosto dela. — Ou é exatamente o que você quer? Entrar lá e fazer ele se arrepender de tudo?
A mandíbula dela travou. Eu enxergava a guerra nos olhos dela. O orgulho brigando com a necessidade de vingança.
— Você é meu professor — ela disse, enfim. — Existem regras.
— A gente não estaria quebrando regra nenhuma. Só indo juntos a um evento público. Nada inapropriado. — Fiz uma pausa. Deixei a palavra pairar entre nós. Inapropriado. Como se nós dois estivéssemos pensando em todas as formas de quebrar essas regras.
As bochechas dela coraram. — Isso não faz sentido. Por que você sequer ia querer ir?
— Deixa eu me preocupar com isso.
— Não. Eu preciso saber o que você ganha com isso.
Garota esperta. Desconfiada. Eu conseguia trabalhar com isso. — Eu ganho a chance de irritar gente de quem eu não gosto. Você ganha sua vingança. Simples.
— Nada nunca é simples.
— Então considera um favor.
— Eu não pedi favor nenhum.
— Mas você precisa de um. — Dei mais um passo pra perto. Dessa vez ela não recuou. Só me observou com aqueles olhos castanhos arregalados. — O Kelvin não merece você. A família dele não tem o direito de te fazer se sentir pequena. Então a gente mostra pra eles que você não é alguém que dá pra descartar.
— Fingindo namorar meu professor.
— Fazendo eles pensarem duas vezes antes de te subestimar.
Ela mordeu o lábio. Aquele tique nervoso que fez Kael querer morder por ela. — Eu não tenho nada pra vestir. Eu trabalho a semana inteira. Eu não posso pagar…
— Eu resolvo tudo. Roupa. Carro. Tudo. Você só aparece.
— Por que você faria isso?
Porque você é minha. As palavras quase escaparam. Eu engoli. — Isso importa?
— Importa.
A gente ficou ali, se encarando. O cômodo pareceu menor. Mais quente. Eu conseguia ouvir o coração dela daqui. Rápido, mas não em pânico.
Ela estava considerando.
— Uma noite — eu disse, baixo. — Só o casamento. Depois disso, a gente volta ao normal. Você nunca mais precisa me ver fora da sala de aula.
"E se eu disser não?"
"Então você diz não. Eu não vou te forçar." Sustentei o olhar dela, deixei que visse que eu falava sério. "Mas nós dois sabemos que você quer isso."
A respiração dela falhou. Por um segundo, a guarda caiu e eu vi a raiva por baixo. A dor. A necessidade de machucar Kelvin do mesmo jeito que ele tinha machucado ela.
"Isso é uma péssima ideia", ela sussurrou.
"Provavelmente."
"Eu devia dizer não."
"Devia."
"Mas eu não vou."
A vitória me atravessou como um choque. Kael rugiu, aprovando.
"Escolha inteligente." Mantive a voz controlada, mesmo com tudo dentro de mim querendo agarrá-la ali mesmo. "Eu te pego às quatro no sábado."
"Quatro? O casamento só é às sete."
"Antes a gente tem coisas pra conversar. Coisas que você precisa saber antes de chegarmos lá."
Os olhos dela se estreitaram. "Que coisas?"
"Nomes. Rostos. Gente pra evitar. Eu explico tudo no sábado." Passei por ela em direção à porta. Destranquei. "Agora vai. Você já já tem trabalho."
"Como é que você soube—"
"Você tá com cheiro de gordura e café. Não é difícil adivinhar." Abri a porta e segurei. Esperei.
Ela passou por mim devagar. Cautelosa. Como se esperasse que eu a puxasse.
Eu não puxei. Só a observei indo em direção à saída.
"Srta. Reed."
Ela parou. Olhou pra trás.
"No sábado, use o cabelo solto." Deixei meu olhar percorrer ela lentamente, sem pressa. "Fica bem em você."
O rosto dela ficou vermelho. Ela se virou e foi embora sem dizer mais nada.
Fiquei na porta, vendo-a desaparecer pelo corredor. Observando o jeito como ela se movia. A curva do quadril naqueles jeans apertados demais. O balanço do cabelo a cada passo.
Minha.
A porta se fechou, e eu voltei para a sala de aula vazia.
Kael agora rosnava dentro da minha cabeça. Exigente. Faminto.
Ela aceitou. Agora ela é nossa.
Ainda não. Não até o vínculo se quebrar. Não até ela saber o que é.
Ela vai saber em breve. O cheiro dela está mudando. Ficando mais forte. O vínculo está rachando.
Eu sabia. Eu conseguia sentir. Três semanas atrás, o cheiro dela era fraco. Apagado. Agora ficava mais nítido a cada dia. Mais doce. Mais intoxicante.
A gente devia ter mantido ela na sala. Trancado a porta. Feito ela entender que pertence a nós.
E aterrorizado ela. Feito ela sair correndo. Estragado tudo.
Ela não correria. Ela é mais forte do que imagina.
Talvez. Mas eu não podia arriscar.
Fui até a janela e olhei para o campus lá embaixo. Vi ela atravessando a praça em direção ao estacionamento. Mesmo daqui, eu conseguia distinguir. Conseguia acompanhar o movimento dela no meio da multidão de estudantes.
Olha pra ela. O jeito como ela se move. O jeito como tenta se fazer pequena.
Ela não seria pequena por muito tempo. Quando a loba dela despertasse, ela seria poderosa. Perigosa. Perfeita.
Imagine ela debaixo de nós. Aqueles olhos castanhos olhando pra cima. Aquela boca aberta. Dizendo o nosso nome.
Eu agarrei o batente da janela com força suficiente pra rachar a madeira.
Imagine reivindicar ela. Marcar aquela garganta bonita. Garantir que todo macho saiba que ela é nossa.
Sábado. Só mais cinco dias. Cinco dias e eu a teria perto o bastante pra começar a derrubar as muralhas dela. Perto o bastante pra deixar o vínculo puxar as amarras até elas estourarem.
Cinco dias é tempo demais.
Tinha que ser o suficiente.
Ela vai tentar lutar contra isso. Lutar contra nós. Ela ainda não entende o que é.
Então eu ia ensinar. Mostrar. Fazer ela entender que lutar contra o destino era inútil.
E se ela fugir?
Ela não iria longe.
Eu vi quando ela entrou no carro. Um trambolho velho e todo detonado, com cara de que podia morrer a qualquer segundo. Ela ficou ali um bom tempo, com as mãos no volante. Só sentada. Pensando.
Ela está pensando na gente.
Provavelmente se arrependendo da escolha. Se perguntando com o que acabou de concordar. Garota esperta.
Ela não faz ideia do que acabou de aceitar.
Não. Ela não fazia. Não podia. Não tinha a menor noção de que o homem com quem tinha acabado de fechar um acordo era um lobisomem que vinha perdendo a cabeça, aos poucos, fazia três semanas. Que passava toda noite lutando contra a vontade de arrombar o apartamento dela e marcá-la enquanto ela dormia. Que queria despedaçar Kelvin Brooks com as próprias mãos por encostar no que era meu.
Nosso.
Nosso.
O carro dela finalmente pegou, e ela saiu do estacionamento. Eu acompanhei até desaparecer na esquina.
O sábado não chegava nunca.
A gente precisa se alimentar. A fome está piorando.
Depois. Depois que eu garantisse que o apartamento dela estava seguro. Depois que eu falasse com a matilha. Depois que eu me certificasse de que a turma do Asher não estava rondando.
Sempre protegendo ela. Sempre vigiando. Ela odiaria se soubesse.
Um dia ela ia entender. Quando a loba dela despertasse, ela sentiria isso também. A necessidade de proteger. De reivindicar. De marcar.
De foder.
Eu fechei os olhos e respirei fundo. O cheiro dela ainda estava no ambiente. Preso no ar. Enlouquecendo Kael.
Cinco dias. Só cinco dias e a gente pode ter ela. Tocar nela. Provar.
Cinco dias pareciam uma eternidade.
Eu peguei minha jaqueta e fui até a porta. Eu tinha trabalho a fazer. Planos pra montar. Um casamento pra preparar. Mas, por baixo de tudo, tinha uma verdade simples que não me deixava em paz.
Freya Reed não fazia ideia do que estava vindo pra cima dela.
E eu mal podia esperar pra mostrar.
