Capítulo 1
PONTO DE VISTA DA FREYA
— Aí, isso, bem aí… assim mesmo.
Eu congelei na porta.
A voz da mulher era ofegante e fina. Ela estava na minha cama. O cabelo escuro se espalhava pelo meu travesseiro como se aquilo fosse dela. O vestido vermelho — que eu não reconheci — estava jogado no chão, ao lado de um salto que provavelmente custava mais do que o meu aluguel. O batom dela estava borrado na boca e descendo pelo pescoço.
Kelvin estava em cima dela.
As mãos dele estavam enfiadas no cabelo dela. A boca dele estava no pescoço dela. Os lençóis que eu tinha lavado três dias antes estavam embolados em volta das pernas dos dois.
Ele ergueu o olhar.
Nossos olhos se encontraram.
Ele não parou. Não se afastou às pressas. Nem sequer pareceu surpreso. Apenas me encarou por um longo segundo, antes de se puxar devagar para trás e se sentar na beira da cama.
— Freya. — A voz dele saiu reta. Calma. Como se eu tivesse flagrado ele assistindo televisão, e não transando com outra mulher na nossa cama.
A mulher virou o rosto para me olhar. Ela não se cobriu. Não correu para pegar a roupa. Só se apoiou num cotovelo e me observou com olhos castanhos preguiçosos.
— Você devia ter avisado — disse Kelvin.
Meu cérebro não conseguia processar as palavras. Não conseguia entender o que ele tinha acabado de dizer. Eu fiquei ali, com as chaves ainda na mão e a bolsa do trabalho ainda no ombro.
— Avisado? — a palavra saiu baixa.
— Sim. Você geralmente fica até tarde nas quintas.
A mulher riu. O som fez minha pele arrepiar de nojo.
— Você tá falando sério agora? — Minha voz estava mais firme do que minhas mãos. Minhas mãos tremiam tanto que eu tive que enfiá-las nos bolsos.
Kelvin se levantou e pegou a cueca no chão. Vestiu sem pressa nenhuma. Sem vergonha nenhuma.
— Olha, Freya. A gente precisa conversar.
— Ah, é mesmo?
Ele passou a mão pelo cabelo bagunçado. O mesmo cabelo em que eu costumava enfiar os dedos quando a gente assistia filmes naquele sofá. O mesmo cabelo que eu lavei no mês passado, quando ele estava bêbado demais pra ficar em pé direito. Agora eu queria arrancar aquilo do couro cabeludo dele.
— Isso ia acontecer uma hora — ele disse. — Você e eu… a gente não tava dando certo.
O chão pareceu instável debaixo dos meus pés.
— Então você resolveu “consertar” isso trazendo alguém pra nossa cama?
— Eu vou me casar.
As palavras não faziam sentido. Eu ouvi, mas parecia que estavam em outra língua.
— O quê?
— Sábado que vem. Eu vou me casar.
A mulher se sentou mais ereta. Ela olhou para Kelvin com os olhos arregalados.
— Você ainda não contou pra ela?
— Eu ia contar — ele rosnou pra ela, sem tirar os olhos de mim.
Meu peito apertou. Apertou demais. Como se alguém estivesse espremendo todo o ar dos meus pulmões.
— Casar com quem?
— Com a Vanessa. Nossas famílias combinaram.
— Combinaram… — Eu repeti devagar, testando a palavra, tentando fazer aquilo fazer sentido. — Ninguém combina casamento hoje em dia.
— A minha família combina. Isso já vem sendo planejado faz um tempo.
— Faz quanto tempo?
Ele deu de ombros. Deu de ombros de verdade.
— Uns meses.
Meses. Ele sabia havia meses que ia se casar e não disse nada. Continuou dormindo ao meu lado. Continuou me pedindo pra eu cobrir a metade dele do aluguel quando ele estava sem grana. Continuou fazendo planos pro próximo semestre como se a gente tivesse um futuro.
Alguma coisa trincou dentro do meu peito. Não quebrou. Ainda não. Só trincou o bastante pra raiva começar a vazar.
— Sai.
Kelvin piscou.
— O quê?
— Sai do meu apartamento. — Minha voz saiu baixa, mas cortante. — Vocês dois.
Ele riu. Não foi uma risada de verdade. Foi aquele som que ele fazia quando achava que eu estava sendo ridícula.
— Seu apartamento? Eu pago metade do aluguel, Freya.
— Não paga mais. Você tem dez minutos pra se vestir e ir embora antes que eu chame a polícia.
— E vai dizer o quê? Eu não cometi crime nenhum.
— Então eu jogo cada coisa sua pela janela. Você pega lá na rua. Escolhe.
A mulher finalmente se mexeu. Ela escorregou pra fora da cama e começou a catar as roupas do chão. Não me encarou enquanto se vestia. As mãos dela tremiam, só um pouco.
Ótimo.
Kelvin observou ela por um segundo e depois voltou o olhar pra mim.
— Você está exagerando.
— E você acabou de me dizer que vai se casar com outra pessoa daqui a seis dias, depois que eu te peguei na cama com uma terceira. Sai daqui antes que eu faça alguma coisa que a gente dois vai se arrepender.
Ele me encarou. O maxilar travado. Os olhos duros. Era a cara que ele fazia quando não conseguia o que queria. Quando o time dele perdia um jogo. Quando os amigos desmarcavam. Quando as coisas não saíam exatamente do jeito dele.
Eu encarei de volta e não pisquei.
Ele pegou a calça jeans da cadeira perto da janela e enfiou com pressa. A mulher já estava vestida. Parou na porta do quarto, com os braços cruzados sobre o peito, como se estivesse com frio.
— Isso não acabou — Kelvin disse, passando por mim no corredor.
— Acabou, sim.
Ele parou na porta da frente e se virou. O rosto agora estava vermelho. De raiva.
— Amanhã eu volto pra pegar minhas coisas.
— Vou deixar no corredor.
— Freya, qual é…
— Sai.
A mulher passou por mim depressa e foi pra porta. Kelvin me lançou um último olhar antes de seguir atrás dela. A porta bateu com força o bastante pra tremer o batente.
Eu fiquei na entrada do quarto, olhando a bagunça. O lençol estava meio caído no chão. O perfume dela tinha tomado conta de tudo. Doce, pesado, errado. O quarto inteiro cheirava a ela.
Eu fui até a cama e arranquei os lençóis de uma vez. Joguei no chão. Peguei os travesseiros e joguei também. Eu queria botar fogo em tudo. Queria esfregar o apartamento inteiro até não sobrar nenhum vestígio dele.
Mas eu só fiquei ali, no meio do quarto, com o peito apertado demais e as mãos ainda tremendo.
Esperei o choro.
Nada veio.
Em vez disso, eu me senti oca. Vazia. Como se alguém tivesse metido a mão dentro de mim e arrancado tudo o que importava, e tivesse me deixado só com ar e raiva.
Meu celular vibrou no bolso. Eu tirei ele de lá. Uma mensagem do meu chefe na lanchonete.
Você consegue cobrir o turno da Amy amanhã de manhã? Começa às 6h.
Respondi que sim. Eu sempre dizia que sim. Eu precisava do dinheiro. Eu sempre precisava do dinheiro. O Kelvin dizia que pagava metade do aluguel, mas isso só quando ele lembrava. O resto eu bancava. Bancava as compras do mercado. Bancava as contas quando ele gastava o salário em bebida com os amigos.
Agora eu ia bancar tudo sozinha.
Olhei em volta do apartamento. Pequeno. Apertado. A tinta estava descascando no canto perto da janela. O aquecedor só funcionava quando dava na telha. A porta do banheiro não fechava direito. Mas era meu. Eu tinha trabalhado por cada móvel. Tinha sobrevivido ali com dois empregos e aulas em período integral.
Eu ia sobreviver a isso também.
Meu celular vibrou de novo. Clara, dessa vez.
Noite de filme? Tenho vinho e aquele queijo que você gosta.
Eu quase disse não. Eu queria ficar sozinha. Queria sentar no apartamento vazio e não sentir nada até aquela sensação oca ir embora.
Mas respondi que sim, porque, de repente, ficar sozinha parecia pior do que fingir que estava tudo bem.
A Clara morava a duas quadras, num prédio melhor que o meu. Peguei minha jaqueta e tranquei a porta atrás de mim. O corredor cheirava como se alguém estivesse cozinhando curry. Meu estômago roncou. Eu não comia desde o bagel murcho que peguei correndo entre as aulas hoje de manhã.
Eu ia comer na casa da Clara. Ela sempre tinha comida.
A caminhada levou menos de cinco minutos. Outubro na cidade significava um vento que atravessava jaquetas finas e deixava tudo mais áspero. Mantive a cabeça baixa e as mãos nos bolsos.
Eu não chorei no caminho. Não gritei. Não fiz nada além de andar e respirar e tentar não pensar no Kelvin se casando em seis dias com alguém cujo nome eu só descobri hoje.
A Clara abriu a porta antes de eu bater. Ela olhou uma vez para a minha cara e me puxou para dentro sem dizer nada. O apartamento dela era quente. Ela mantinha tudo sempre aquecido porque dizia que frio deixava ela ansiosa.
— O que aconteceu? — Ela me guiou até o sofá e me empurrou para baixo nas almofadas.
— Kelvin.
Ela sumiu na cozinha. — O que aquele filho da puta fez agora?
— Ele vai se casar.
O barulho de vidro quebrando veio da cozinha. Clara apareceu na porta com os olhos arregalados. — Ele vai o quê?
— Vai se casar. No próximo sábado. A família dele arranjou. Ele me contou isso depois que eu peguei ele com outra garota na nossa cama.
O rosto da Clara ficou pálido, depois vermelho, depois pálido de novo. Ela voltou para a cozinha e reapareceu com duas taças e uma garrafa. Nem se deu ao trabalho de pegar saca-rolhas. Só girou a tampa e encheu as duas taças.
— Começa do começo. — Ela me entregou uma taça e se sentou do meu lado.
Eu contei tudo. A porta destrancada. A voz da mulher. Eu entrando no quarto. O vestido vermelho no chão. A voz sem emoção do Kelvin. O jeito como ele olhou para mim como se eu fosse a pessoa interrompendo algo importante. O anúncio do casamento.
Clara não interrompeu. Bebeu o vinho e ouviu, e a mandíbula dela foi ficando mais tensa a cada palavra.
— Eu vou matar ele — ela disse quando eu terminei.
— Entra na fila.
Ela se serviu de mais uma taça. A mão dela tremia. — E você vai fazer o quê?
— Pagar o aluguel sozinha, eu acho. Fazer mais turnos. Talvez pegar umas horas no fim de semana na biblioteca do campus. — Dei um gole longo. O vinho era barato e amargo. — Evitar ele quando vier buscar as coisas dele.
— Você devia ir ao casamento.
Eu encarei Clara. — Por que eu faria isso?
— Pra mostrar pra ele que ele não te quebrou. Que você tá bem sem ele.
— Mas eu não tô bem.
— Então finge. — Ela se inclinou pra frente. Os olhos dela estavam brilhantes. Intensos. — Aparece lá linda, incrível, com alguém que faça o Kelvin se arrepender de cada escolha que ele já fez.
— Eu não tenho ninguém assim.
— Então arruma alguém.
— Em seis dias? Clara, fala sério.
Ela ficou quieta por um instante. Ficou olhando pra taça como se estivesse pensando com força em alguma coisa. — E o professor Metcalfe?
Engasguei com o vinho. — O quê?
— Você disse que ele tem ficado te encarando na aula ultimamente. Talvez ele ajudasse.
— Ele é meu professor. Isso é completamente absurdo.
— É mesmo? — Ela pousou a taça. — O pai do Kelvin não é do conselho da universidade? E se o Metcalfe conhecer ele? E se ele tiver os motivos dele pra querer mexer com a família do Kelvin?
— Por quê?
— Não sei. Mas você disse que o Metcalfe fica te olhando. Que ele te chamou três vezes na semana passada mesmo você não tendo levantado a mão. Talvez ele se interesse.
Minha cabeça começava a doer. O vinho estava batendo rápido demais com o estômago vazio. — Eu preciso ir pra casa.
— Dorme aqui hoje.
— Eu trabalho às seis da manhã.
— Então deixa eu te acompanhar até lá.
— Eu tô bem.
Mas eu não estava bem. Eu estava tão longe de estar bem que já nem conseguia enxergar o que era isso. Eu só não queria que Clara me visse desmoronar.
Saí do apartamento dela e caminhei de volta pelas ruas geladas. O vento estava pior agora. Cortava por dentro da minha jaqueta e fazia meus olhos lacrimejarem. O cheiro de curry tinha sumido. Agora tudo só cheirava a escapamento de carro e à chuva que ameaçava cair.
Quando cheguei ao meu prédio, vi uma coisa que me fez parar.
Havia um envelope branco preso com fita na minha porta.
Meu nome estava escrito na frente, numa letra que eu não reconhecia. Caprichada. Precisa. As letras perfeitamente formadas, como se a pessoa tivesse feito questão de gastar tempo.
Eu puxei o envelope e abri com os dedos tremendo.
Dentro havia um único cartão. Papel grosso. Caro. O brasão da universidade estava em relevo no topo, em dourado. Abaixo, havia uma mensagem escrita à mão, na mesma caligrafia impecável.
Srta. Reed,
Por favor, passe no meu gabinete amanhã às 14h. É sobre um assunto de importância.
Prof. A. Metcalfe
O cartão escorregou dos meus dedos.
Como ele sabia onde eu morava?
