A Cativa Desejada pelos Herdeiros

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Capítulo 4 Capítulo 4

Egilda não estava sozinha. Na fazenda, a presença de Renzo, o neto mais novo dela, era um castigo para ele e um incômodo para a matriarca.

Mimado, instável e rebelde, ele estava lá de castigo, por ter se metido em encrencas. Sem a menor vontade de mudar de vida, ele só estava esperando a oportunidade de começar a aprontar lá também.

Quando Cayenne entrou, Egilda estava na sala e Renzo, no quarto, ouvindo música nos fones de ouvido. Ninguém notou a presença dela até que Egilda foi preparar o jantar e percebeu que faltava uma jarra de água.

Já imaginando que Cayenne havia voltado, ela foi procurá-la e a encontrou sentada no seu quartinho. Falou brava.

— Onde você foi, sua im.unda? Sua neg.rinha sem-vergonha! Está achando que pode sair, ir para o mundo e voltar, me trazendo problemas, doenças? A minha vontade é de lhe dar uma su.rra. Sua ing.rata!

— Mal agradecida igual sua mãe.

Chorando, Cayenne se ajoelhou aos pés de Egilda, pedindo perdão. Disse que não tinha feito nada de errado, que apenas ficou no mato, e garantiu que obedeceria, que nunca mais sairia dali. Egilda a chutou para longe, afastando-a.

— Você não é ninguém fora daqui. Não tem família, nem dinheiro, não vale nada. Vai para a cadeia. É isso o que você merece.

— Agora não te quero mais aqui. Ordinária.

Com lágrimas escorrendo pelo rosto, Cayenne implorou o perdão de Egilda, que a chutou para longe de novo. Ela se encolheu no canto, com o corpo dolorido pela surra e a alma ferida pelas palavras cruéis.

Egilda a encarou com desdém e, com a voz carregada de autoridade, ordenou:

— Quero a casa limpa e brilhando. Eu volto para te chamar. Fique quieta. Temos um hóspede e não quero, de jeito nenhum, que você fale com ele.

— Ou eu corto sua língua.

A ameaça era clara, e o medo de uma nova surra paralisou Cayenne. Mais do que as palavras, era o olhar de Egilda que a mantinha sob controle. Ela sabia que a patroa, agora com um "hóspede" na casa, ficaria ainda mais rigorosa com sua invisibilidade. Cayenne assentiu nervosa.

Egilda saiu e a deixou trancada, foi preparar o jantar. Renzo, estava distraído com o próprio mundo em seu celular, jantou a comida feita por Egilda e foi ficar no quarto. Deu boa noite à avó e se isolou novamente, com os fones de ouvido.

Egilda, trancou a porta do quarto do neto, um hábito para mantê-lo sob controle, e foi liberar Cayenne para começar a faxina noturna. Em seguida, recolheu-se em seu próprio quarto, deixando a menina sozinha na casa.

Cayenne, saiu do quartinho como o fantasma da fazenda, começou seu trabalho na cozinha. A tristeza da surra e o medo de Egilda se transformaram em energia para as tarefas. Depois de limpar os banheiros, o chão da casa toda, ela se dirigiu à lavanderia, para lavar a mão, as roupas deles.

O que antes era seu único momento de liberdade, virou um lembrete constante de seu lugar no mundo e de sua existência invisível, o que antes era o suficiente, deixou de ser.

Entediado e com o celular sem bateria, Renzo tentou sair do quarto e percebeu que a porta estava trancada. Frustrado, ele pulou a janela. Começou a caminhar pelo quintal, foi dando a volta na casa.

Quando chegou perto da lavanderia, a viu iluminada e ouviu o barulho de água. Ele parou perto e percebeu que havia alguém lá dentro. Imaginou que fosse a avó.

Renzo, surpreso, entrou e viu Cayenne. Falou confuso.

— Oi. Quem é você?

Ela, ao se virar, assustou-se. Com o coração acelerado, balbuciou, visivelmente aterrorizada:

— Você não pode estar aqui. Por favor, vai embora!

— Volta pra dentro.

Ele, intrigado pela presença dela, se aproximou lentamente, reparando na aparência dela.

— Quem é você? O que está fazendo na casa da minha avó a essa hora?

Cayenne implorou, com a voz trêmula, baixa.

— Por favor, não diga a ela que me viu. Não podemos conversar. Ela não permite.

— Eu limpo a casa.

Ao se aproximar, Renzo reparou nos machucados dos braços de Cayenne. Os olhos dele percorreram as marcas, percebendo a tristeza refletida em seu olhar. Ele a achou bonita, mas o que mais o intrigou foi o medo nos olhos dela e o corpo machucado.

Ele falou, com a voz surpreendentemente suave.

— Eu não vou contar nada.

— Mas com uma condição.

— Qual? — ela perguntou, confusa, com o desespero ainda presente em sua voz.

— Você tem que ser minha amiga. — ele respondeu, com um sorriso leve e um olhar esperançoso.

— Eu não tenho amigos por aqui, e você parece ser a única pessoa interessante nesta fazenda velha. Fedorenta.

Cayenne, sem entender a proposta, ficou em silêncio. Sua mente, limitada pelas proibições de Egilda, não conseguia processar a ideia de ter um amigo. A única coisa que ela conseguia pensar era em manter o segredo e evitar uma nova punição. Assentiu desconcertada, cabisbaixa.

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