Capítulo 3 Capítulo 3
Ela balançou a cabeça que não, ele estendeu a mão, falou oferecendo ajuda.
— Vem comigo, vou te ajudar.
Ainda que com medo, ela sabia que daquele jeito, não poderia continuar, e ir para casa parecia pior, apreensiva envergonhada, ela se aproximou mancando, aceitou a ajuda, estava se sentindo indisposta, ele a olhou reparando na aparência simplória, unhas sujas, roupas rasgadas surradas, cabelo ressecado em uma trança mal feita, ele parou de andar, falou preocupado.
— Posso te carregar, tudo bem?
Foi se aproximando para pegá-la no colo.
— Deve estar cansada.
— Não vou te machucar.
Ela ficou nitidamente desconfortável, nervosa, pela proximidade, mesmo que ingênua, sem ter a noção de que um homem, poderia lhe ferir, muito mais do que uma mulher.
Ele a levou para o cavalo, subiu primeiro e a levou sentada de lado, ela continuou quieta, olhando para todos os lados curiosa, quando avistou a fazenda dele, manteve os olhos colados na casa, era grande, muito bonita, com chafariz, um jardim enorme bem verde, com grama e flores muito bem cuidadas.
Tudo lá parecia ser muito bem cuidado, ao se aproximarem da casa, ele disse que ia chamar alguém, para ajudá-la, uma mulher.
Foram descendo do cavalo e entrando, ela não soltou a trouxa de lençol por nenhum momento, ficou nitidamente entretida reparando na casa, quando entraram na sala, tinha uma televisão ligada, ela parou de andar, ficou olhando fixamente, curiosa.
Fabrizio disse que já voltava, saiu andando chamando pela Glória, estava passando jornal, notícias sobre acidentes, Cayenne até deu alguns passos, para mais perto da televisão, adorou ver imagens das rodovias, tudo o que passou, a deixou muito curiosa, parecia um outro mundo.
Glória entrou na sala apreensiva surpresa, reparando na simplicidade e sujeira dela. Falou gentilmente.
— Vem menina. Vamos entrar!
— Se machucou foi?
Fabrizio ficou olhando, falou intrigado.
— A Glória vai te ajudar. Vai com ela!
Cayenne foi andando, mais aliviada por ter uma mulher junto, Glória era uma senhora, de idade mais avançada, deu para notar que era uma funcionária, também era neggra, mas de pele bem mais clara, do que a de Cayenne. Foram para um corredor grande, onde tinham vários quartos, Glória entrou em um e foi direto ao banheiro, falou olhando para trás.
— Vou te dar um banho, depois nóis passa um remédio nesses seus machucados tudo.
Cayenne ficou parada na porta do banheiro, olhando como era lindo, até com banheira, ao se ver no espelho, teve vergonha de si mesma, por estar suja, Glória a olhou gentil esperando, falou.
— Entra aqui menina, tira essa roupa.
— Vou lavar pra você.
Cayenne não queria ficar sem roupas, na frente dela, teve que abrir a boca, falou baixinho apreensiva.
— Posso tomar banho, sozinha dona Glória?
Glória sorriu, respondeu surpresa.
— Pode, mas eu num sou dona de nada aqui não.
— Vou cozinhar um arroz com frango, refogar uma verdura e volto, pra te ajudar.
— Está com fome?
— Gosta de frango?
Cayenne concordou envergonhada, apenas balançou a cabeça que sim, ficou achando que teve muita sorte, porque pessoas muito boas, estavam lhe ajudando. Trancou a porta do banheiro, entrou no chuveiro achando a água muito quente, pois estava acostumada a só tomar banho gelado, desde criança.
Tinham alguns cosméticos no box, mas ela só se lavou com água, teve medo de mexer em qualquer coisa e deixá-los bravos.
Glória e Fabrizio estavam indignados, achando que ela tinha entre quatorze a vinte anos, ele não achou possível, que ela morasse ao lado, porque nenhum vizinho a trataria daquela forma, deduziu que ela estava fugindo de algum outro lugar e acabou indo parar lá.
Quando o almoço ficou pronto, Glória foi chamá-la, levou um kit de primeiros socorros, Cayenne estava vestida com um vestido mais limpo, sentada na beirada da cama, esperando. Glória fez o curativo, colocou uma faixa protegendo o ferimento, perguntou como quem não queria nada, de onde ela estava vindo, disse que o patrão era muito bom e até poderia empregar ela, perguntou sua idade, Cayenne simplesmente não respondeu, só agradeceu o curativo.
Quando foram sair do quarto, ela pegou a trouxa de lençol, Glória com um tom de brincadeira, a mandou deixar e ficar a vontade, quando chegaram na cozinha, Fabrizio estava sentado à mesa, comendo uma pratada de arroz, com frango, ao lado tinha um pratinho com pé de frango, Cayenne gostava e logo reparou.
Ela se sentou com a boca salivando, estava faminta desde que tinha fugido, Glória a ajudou fazer o prato, deu uma coxa de frango, Cayenne não sabia comer de garfo e faca, assim que foi tentar cortar a carne, derrubou comida na mesa, muito envergonhada foi pegando com o próprio garfo, o que derrubou e voltando para o prato, falou cabisbaixa.
— Me desculpem, perdão. Vou limpar!
Fabrizio não parava de se surpreender, sorriu simpático, foi pegando a coxa dele, do frango na mão. Falou tentando deixá-la calma.
— O importante é encher a barriga.
— Pode comer, como preferir.
— Eu gosto de coxa.
Glória disse que gostava do peito, percebeu que Cayenne estava observando o pedaço de frango, perguntou desconfiada.
— O que foi menina? Tem alguma coisa aí nesse pedaço?
Cayenne a olhou, falou desconcertada.
— Não, é que eu nunca comi a coxa, e nem o peito.
— Tem gosto diferente?
Fabrizio quase se engasgou ficando até nervoso, a olhou sério, falou confuso.
— Não, é bem macio. A carne é mais saborosa, do que o peito.
— Qual parte, você já comeu?
Cayenne pegou a coxa curiosa, respondeu ingenuamente.
— Pescoço, pé, miúdos.
— Gosto de temperar com alho, cebola, coentro.
Mordeu um pedaço, sorriu espontaneamente saboreando, começou a comer um pouco rápido demais, era nítido que não tinha bons modos, Glória perguntou tentando investigar mais sobre ela.
— Você gosta de cozinhar?
— Qual sua comida preferida?
Cayenne já tinha devorado a coxa, respondeu espontaneamente.
— Preferida de fazer ou de comer?
Fabrizio estava cada vez mais preocupado, perguntou curioso.
— Você não comia, o que cozinhava? A onde morava?
— De onde você veio?
Ela ficou séria, falou cabisbaixa.
— As vezes sim.
— Eu não sei, o nome.
Glória o olhou dando sinal que não, como quem dizia para parar, ele terminou de comer, foi saindo da mesa, dizendo que ia a cidade, resolver algumas coisas, saiu da cozinha alguns instantes e logo voltou, mexendo no celular, falou sério.
— Qual o seu nome?
— Você não quer mesmo, ir ao hospital?
Ele estava falando com um amigo da polícia por mensagens, foi instruído a saber a idade e nome dela, Cayenne ficou nitidamente nervosa com as perguntas, falou cabisbaixa.
— Não precisa. A dona Glória já cuidou de mim.
— Obrigada! Não precisa se preocupar.
Foi largando o prato
— Já vou embora. Estão me esperando!
Glória se levantou as pressas, falou pegando o prato.
— Não, pode comer, eu vou pegar suas coisas pra lavar, passar e depois, você vê o que vai fazer.
Glória saiu da cozinha, Fabrizio ficou, falou apreensivo.
— Vou comprar remédios, fique aqui hoje, é muito bem vinda.
— Come, termina seu prato, pode pegar mais.
Ela voltou a sentar cabisbaixa, ouviu ele se afastando, com o celular tocando, foi espiar curiosa e o ouviu falando:
"Tem alguma menina desaparecida com essas características?"
"Entendo, sim, acho pouco provável"
"Certo, obrigado. Vou até a delegacia, pra gente prosear melhor"
Ao ouvi-lo falando dela e de delegacia, o desespero bateu, sem saber o que iria acontecer e com muito medo, ela voltou para a mesa.
Glória logo voltou com a trouxa de lençol, foi indo para o quintal, Cayenne foi atrás observando tudo, disse que preferia, ela mesma lavar suas roupas, Glória a deixou na lavanderia, disse que ia achar um frasco de remédio caseiro com arnica, demorou cerca de dez minutos.
Quando voltou para fora, Cayenne já tinha partido, levando suas coisas, desesperada ela correu mancando de volta para casa, pelo mesmo trajeto que havia feito, quando chegou, o carro diferente não estava lá, achando que Egilda estava sozinha, ela entrou pelos fundos e foi direto para o seu quartinho...
