A Cativa Desejada pelos Herdeiros

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Capítulo 2 Capítulo 2

Outra voz muito semelhante, disse que não deviam mexer nas coisas dos avós, começaram a conversar, falando que lá era horrível e cheirava a esterco o tempo todo, se afastaram falando que iam beber pinga, escondidos, não pareciam nem tristes pelo luto.

No outro dia todos foram embora, Egilda foi abrir a porta do quartinho, disse que queria tudo limpo e rápido. Enquanto organizava todos os quartos, que ninguém se quer estendeu uma única cama, Cayenne encontrou um colar simples preto, com tiras de couro e um pingente de vidro, com um arroz dentro, ela não sabia ler, mas viu que tinha algo escrito, achou muito legal e guardou escondido.

Se passaram alguns dias e ela percebeu que Egilda parecia triste, diferente, em uma manhã chuvosa, após deixar tudo impecável, Cayenne se aproximou apreensiva de Egilda na sala, a olhou desconcertada e disse.

— Dona Gilda, quer que eu te faça companhia?

— Não estou com sono.

— Se a senhora quiser, eu...

Egilda interrompeu, falou ríspida.

— Não! O seu lugar é lá no seu quarto.

— Nada vai mudar, enquanto eu estiver viva.

— Se você pensar, em me desobedecer, vou chamar a polícia.

— Te colocar na rua, sozinha.

— As pessoas lá fora, não gostam de gente da sua cor, você tem sorte, de poder morar aqui.

Cayenne morria de medo, nem na sala podia ficar, se a televisão estivesse ligada. Egilda trancava tudo, a dispensa com os mantimentos mais diferenciados, como doces, chocolates, balas, tudo o que era industrializado, Cayenne não conhecia o sabor, ela via as embalagens no lixo, pelo chão do quarto, até cheirava as vezes, imaginando como eram.

A sala onde ficava a televisão e o telefone, ela não podia nem limpar sozinha, Cayenne nunca nem encostava no telefone, às vezes se pegava pensando, em como ele funcionava, só ouvia Egilda conversando.

Chateada ela foi para o seu quarto, estava um pouco agitada, com os lápis de cor quase no fim, de tanto olhar o colar, conseguiu desenhar o nome, que estava no arroz "Renzo", ficou refazendo várias vezes, foi melhorando a caligrafia, deixou o desenho escondido. Alguns dias depois, Egilda entrou no quartinho, para ver se estava organizado, enquanto Cayenne tomava banho.

Sem querer ela derrubou um punhado de folhas, quando viu a inicial "R" pegou a folha, olhou uma por uma, ficou possessa de raiva, de ver o nome do neto, foi até o quintal, pegou um chicote velho de couro, quando encontrou Cayenne indo para o quarto, a mandou se ajoelhar.

Ela estava enrolada na toalha, Egilda começou a bater nela, pelo corpo todo, a onde alcançava, Cayenne não entendeu porque estava sendo punida, perguntou o que tinha feito de errado.

Egilda esfregou o papel no rosto dela, perguntando como ela conseguiu escrever aquilo, quis saber de onde, ela tirou o nome do neto dela, Cayenne falou que encontrou um colar, implorou para Egilda parar.

Entrou pegar e mostrou, pediu perdão, apanhou mais, por ter roubado o colar, ficou cheia de vergões sangrando, Egilda a ameaçou, dizendo que ia chamar a polícia no dia seguinte.

A trancou e acabou nem pegando o colar de volta, Cayenne ficou com muito medo, fez uma trouxa de lençol, com as poucas roupas que tinha, pulou a janela e fugiu de madrugada, sem saber para onde ir, ficou andando dentro da propriedade, beirando a fazenda de Giuseppe o irmão de Francesco, que já era falecido também.

Passou o dia na cachoeira, comeu mangas que colheu lá perto, quando anoiteceu, se arrependeu e foi espiar a casa, tudo estava aparentemente normal, passou a noite dormindo no quintal, quando amanheceu voltou para a cachoeira, foi deixando as cascas e caroços das mangas, em cima de uma pedra, entrou na água, para se limpar, de vestido mesmo.

Estava distraída quando ouviu um barulho de cavalo relinchando, parecia estar perto, desesperada saiu da água correndo, pegou a trouxa e correu descalça mesmo, machucou o pé o cortando, ficou escondida no mato chorando, viu um homem maduro, forte, chegando na cachoeira, usando calça jeans, camiseta pólo, botas e chapéu, ele desceu do cavalo, olhando tudo, viu as sujeiras das mangas, se abaixou e viu que algumas estavam frescas, recém chupadas, viu sangue no chão.

Ele se levantou de imediato, olhando para os lados, como quem procurava algo, falou curioso.

— Olaaaa? Quem está aí?

— Aqui é propriedade particular.

— Se eu te pegar, invadindo aqui de novo, não terá conversa.

Ela pode vê-lo melhor, estava armado, parecia ser mais velho, era grisalho, ele subiu no cavalo, ela saiu correndo desesperada, voltando para a fazenda mancando com muito medo, quando chegou, viu que tinha um carro diferente lá, ficou espiando de longe e por isso, não voltou para dentro, teve que dormir no relento, sentada, com frio e dor.

Queria ter coragem de sair da fazenda, mas não tinha noção, de como tudo era lá fora, como o carro continuou lá, ela voltou para a cachoeira, com um corte grande no pé, estava o molhando chorando de dor, quando aquele homem retornou, a surpreendendo, ele deixou o cavalo mais longe, se aproximou confuso a olhando fixamente reparando em tudo, a achou muito nova, vulnerável.

— O que está fazendo aqui? — Ele perguntou sério.

Ela o olhou desesperada, se levantou com dificuldade mancando, chorando, dava para ver, que tinha levado uma surra, ele se manteve distante, notando que ela estava muito nervosa, falou calmo.

— Qual o seu nome, menina?

— Está machucada?

— Não vá, calma.

— Precisa de ajuda!

Ela estava juntando a trouxa, tentando colocar os chinelos, ficou cabisbaixa, ele se aproximou mais, falou com pena dela.

— Sou o Fabrizio Massaro, dono dessas terras.

— Não vou te machucar.

— Você parece estar precisando de ajuda.

— Está muito machucada.

Ela o olhou séria, quando ele disse que era o dono das terras, ficou parada apreensiva e desconfiada, sem dizer uma única palavra. Ele se abaixou, falou tentando tranquilizar ela.

— Posso te levar ao hospital, vai precisar levar pontos, fazer curativo.

— Eu nunca te vi, por aqui. Quantos anos você tem?

— Como se chama?

— Só quero te ajudar, pode falar comigo.

— Ou você é muda? Não consegue falar?

Ela balançou a cabeça que sim, ele já tinha percebido, que ela estava com medo, sorriu sutilmente, falou olhando a hora no relógio.

— Você tem uma casa? Família?

Ela balançou a cabeça que sim, ele se afastou, indo para a mesma direção de onde veio. Falou a chamando com a mão.

— Vou te levar embora, venha, a minha fazenda é logo ali.

— Vai poder comer, cuidar do seu pé.

Parou a olhando intrigado

— Você quer ir ao hospital?

— Quem fez isso, com você?

— Te bateram, não foi?

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