Capítulo 4 Capítulo 4
Aquele seria um daqueles dias no qual ele não ia a empresa por conta da falta de uma babá, infelizmente perderia alguns dias de trabalho para que as crianças não ficassem sozinhas, e por mais que soubesse que ambos não lhes dariam trabalho se os levasse para a KC, não achou que seria confortável para eles ficarem tantas horas por lá. Liam não culparia os filhos pela forma como expulsaram a babá, não dessa vez, não quando sabia que eles tinham certa razão em mandá-la embora. Claro que não concordava com o modo no qual fizeram, mas compreendeu prontamente, ao saber toda a história da boca de Naty, sua princesinha, que realmente havia ficado chateada com a forma que a mulher lhe tratou. Ambos eram muito carentes e extremamente manhosos, mas tinha de confessar de que Naty era muito mais; talvez por ser uma garotinha.
Estava extremamente cansado.
Ser pai solteiro não era fácil, mas ele não reclamava, mesmo quando estava exausto e precisava dar banho em ambos e colocá-los para dormir, independentemente de como havia sido seu dia.
Sempre dizia a si mesmo: seu dia foi ruim, mas a culpa não é dos gêmeos. Era uma forma de não surtar, porque havia dias que ele gostaria de gritar para o mundo, e de xingar a mãe de seus filhos, bem alto, para ver se aquela mágoa passava; ela o havia deixado sozinho, havia sido egoísta e não havia pensado em nenhum deles nem por um segundo. Ainda não entendia como uma mãe é capaz de abandonar os próprios filhos e conseguir dormir bem a noite.
Thomas e Natalie perguntaram por ela pela primeira vez a dois anos trás, quando já tinham três, e estavam extremamente curiosos com o fato de que eles não tinham mãe como seus primos. E por um momento não conseguiu dizer uma palavra, até ouvir novamente a pergunta, vindo por seu insistente filho meses depois. Explicou que ela havia ficado doente e que não pode ficar com eles; e para ele, só uma pessoa doente abandona os próprios filhos.
Mas o moreno sabia que em algum momento novamente aconteceria a mesma pergunta, e realmente aconteceu, a alguns meses atrás, pouco depois do aniversário de cinco anos de ambos; mais especificamente seis meses. E novamente explicou a mesma coisa, só que de forma que eles compreendessem melhor e que – se tivesse sorte – eles parariam de perguntar por ela.
Surpreendentemente, Thomas perguntou se a mãe havia os deixado, e Liam não conseguiu responder – por dois motivos: primeiro porque estava muito surpreso e segundo porque não sabia como responder a uma pergunta que levaria a uma resposta na qual o faria sofrer, a ele e a sua irmãzinha –, o que foi o motivo para que o pequeno acreditasse que sim. O moreno sentiu seu peito apertar por ver sua garotinha triste, mas diferente dela, seu pequeno estava extremamente sério.
“Tudo bem ser só nós, papai”
Essa frase ficou martelando em sua mente por semanas.
Thomas tinha apenas cinco anos, mas naquele momento, ele ficou muito mais maduro que deveria; ele era extremamente inteligente, assim como sua irmã, mas pegava as coisas no ar, muito mais rápido que ela. E por isso Liam vinha tomando cuidado com o que falava perto do garotinho.
Não havia foto alguma de Lillie na casa, e mesmo assim, os gêmeos nunca pediram por uma. Os avós maternos haviam sumido na mesma época que a filha e nunca mais apareceram, então Thomas e Natalie não os conhecia. E nem mesmo pareciam querer saber deles, já que nunca perguntaram por eles; nenhuma vez.
Naquele momento, estavam os três em frente à TV, assistindo a um filme infantil. Havia combinado de almoçar na casa dos pais naquele dia, e só por esse motivo não havia ido ao parque com ambos, como fazia quando estava de folga ou apenas ficava em casa por conta de um imprevisto com uma das babás. E aquele era um desses dias, mas diferente do de sempre, havia prometido algo a mãe, que havia voltado de viagem na tarde anterior; ela e seu pai estavam ansiosos para ver os netos.
— Será que o vovô e a vovó trouxeram presentes como da outra vez? – Thomas perguntou de repente, ainda que seus olhos estivessem fixos na TV.
Liam olhou para o filho.
— Não perguntem sobre isso quando chegarmos a casa dos seus avós, pelo amor de Deus!
Sabia que não era do feitio de ambos, mas não custava avisar.
— Eu queria tanto um gatinho. – Sua princesa diz com os olhos brilhando.
— De jeito nenhum! – O pai diz rapidamente. – Primeiro que vocês não conseguiriam cuidar do bicho, segundo que eles destruiriam nossa casa e terceiro e o mais importante, ambos têm alergia.
Assim como eu, completou em pensamento.
Só de imaginar um bicho daqueles em sua casa, já começava a suar frio.
— Então podemos ter um cachorro?
— Vocês já têm na casa do vovô. – Diz em resposta ao filho.
— Mas não aqui, papai. – O garotinho retrucou.
— Thomas, eu mal tenho tempo para vocês dois, filho, como teria tempo de cuidar do cachorro?
— A gente cuida.
Sua pequena lhe olha, sorrindo, e ele infelizmente imaginou que aquele sorriso desapareceria no instante em que se pronunciasse, o que não demorou.
— Filha, nós não iremos ter um cachorro.
— A vovó e o vovô deixariam. – Thomas retrucou.
— Isso porque eles mimam vocês o tempo todo. – Murmurou, se levantando para pegar os copos que se encontravam em cima da mesa de centro. – Me ajudam a levar essas coisas para a cozinha.
Ambos se levantaram para fazer como o pai pediu.
— Podíamos passar mais dias assim, papai. – Naty comentou, quando já se encontravam no cômodo ao lado. – Só nós três.
Os olhos de Liam caíram em ambas as crianças imediatamente.
— Eu sinto muito por não termos mais tanto tempo juntos, mas eu preciso trabalhar. – Viu os olhos deles se entristecerem. – Mas quem sabe eu não consiga tirar pelo menos duas vezes na semana para passar a tarde com vocês?
— De verdade? – Thomas perguntou, mais animado, assim como a irmã.
— Eu vou programar isso para que dê tudo certo, mas preciso da ajuda de vocês, está bem?
Ambos assentiram, com um sorriso contagiante, e o moreno não pode deixar de corresponder. Ele sabia o quanto estava fazendo falta para os filhos, afinal, sentia-se da mesma forma. Achava que todas as peripécias que os dois faziam com as babás não era só para que as deixasse longe dele, mas também para chamar sua atenção; ele fazia o mesmo para com seu pai quando tinha mais ou menos a idade de ambos.
Queria poder desistir de encontrar uma babá e passar todas as tardes com eles, mas era impossível, principalmente agora que trabalhava até as 17h da tarde. Infelizmente não tinha mais tempo para poderem ir a uma sorveteria juntos durante a semana ou mesmo comer fora, porque simplesmente chegava exausto em casa e só o que desejava era descansar, e por isso o máximo que faziam juntos, era assistir a um filme e comer besteira.
Mas ele mudaria isso.
Mesmo que estivesse cansado, mesmo que sua vontade fosse ficar em casa, ele tiraria pelo menos três dias na semana para comerem fora ou ao menos tomar um sorvete, já que mal passavam o dia juntos; e esse tempo seria ainda menor quando eles estivessem estudando, o que não demoraria muito a acontecer.
Enquanto os arrumava para poderem sair, o Kavanagh mais velho ouviu a pergunta que já esperava em algum momento.
— Papai, por que temos que ter uma nova babá? – Natalie perguntou, durante o penteado que pai lhe fazia em seus lisos cabelos negros.
— Porque eu preciso trabalhar e vocês não podem ficar sozinhos.
— Eu e a Naty podemos nos virar.
Liam quase riu. Quase. Só não o fez porque conhecia o filho que tinha, e com toda a certeza ele ficaria irritado.
— Vocês têm cinco anos, Thomas.
— E daí?
— Entendam uma coisa, de uma vez por todas... – Soltou a segunda parte do cabelo da filha, se colocando a frente de ambos. – Eu preciso trabalhar e vocês precisam ser cuidados por alguém, então se Deus quiser... até segunda vocês terão uma nova babá.
— Só não sabemos quanto tempo ela vai durar.
— Thomas! – O repreendeu pela ameaça.
— Papai, não queremos uma babá, todas são más. – Naty diz, com os olhinhos tristes. – Elas não se preocupam comigo e o maninho, só com você.
E o pai das crianças teve de concordar com a garotinha.
Infelizmente havia tido problemas com cada uma das que contratou, e metade delas havia não só entrado em seu quarto sem a sua permissão, como também dado em cima de si de forma descarada.
Havia tentado, por saber que era uma necessidade, mesmo sabendo que ambos seus filhos não aceitariam nenhuma delas, e por isso havia sido tão difícil encontrar uma babá que aceitasse trabalhar para si por conta da má fama dos filhos gêmeos de Liam Kavanagh.
E o moreno tinha que confessar que eles tinham motivos para mandar cada uma delas para fora de suas vidas; apesar de não concordar com a forma com que faziam isso.
— Não podemos ficar com você no trabalho? – Thomas perguntou.
O adulto suspirou.
— Depois das aulas, papai. – Naty completou.
— É o que acontecerá se não conseguir uma babá logo. – Murmurou, voltando a amarrar última parte dos cabelos da filha.
— Isso quer dizer que ficaremos com você? – O garotinho perguntou em animação.
— Isso quer dizer que vocês terão de aceitar a próxima babá, gostando dela ou não.
— Que injusto! – Dizem ambos.
— Pronta. Você está linda. – Se afastaou sorrindo.
Para sua garotinha, havia escolhido um vestido completamente rosa-bebê, com um cinto de strass rumo a cintura; a saia era volumosa, sendo que três faixas de cima a abaixo, uma mais grosa que a outra, eram em um tom mais escuro e mais claro que o vestido em si, havia também alguns desenhos estampando-a; três laços brancos com bolinhas rosas que ficavam um de cada ponta da frente do vestido e um no meio, perto da cintura, mas nas mesmas posições que os laços, três balões de ar, sendo que o saco eram em formatos de várias flores cor-de-rosa, mas pouco mais escuro que o vestido em si, duas árvores no centro e perto delas, acima dos laços, entre cada um deles, havia uma raposa em preto e branco. Nos pés, escolheu uma sapatilha Molekinha rosa-bebê completamente em glitter, com exceção da correia, e para completar, havia um lindo laço no centro. Nos cabelos, havia feito duas marias-chiquinhas, sendo que as xuxinhas pareciam dois pompons cor-de-rosa; algo que sua mãe havia comprado aos montes.
Assim como o pai, Thomas não gostava de muita cor, e por isso Liam escolheu um conjunto infantil Milon que era composto por uma bermuda cor gelo, no qual havia um cordão para ajustar no corpo, em azul-marinho e uma camisa de mangas até os cotovelos, também em azul-marinho, mas com glitter diferenciando do cordão, sendo que no centro havia uma prancha de surf cinza escrito em letras pequenas abaixo dela: Ocean Surf. Nos pés, um tênis Addan Jogging azul-marinho e branco de cano baixo, com detalhes em mesh que trabalham na ventilação dos pés.
— A vovó podia voltar a cuidar de nós.
— Não vamos falar mais sobre isso, filho.
— Mas, papai...
— A sua avó merece descanso e seu avô também. – Se abaixou na altura de ambos. – Eu entendo o porquê de expulsarem as babás, eu entendo, de verdade, mas precisam parar de usar esses seus métodos e começarem a apenas conversar comigo. Não podem jogar as babás na piscina, não podem assustá-las quando elas estiverem fazendo a refeição, não podem colocar o skate no meio do quarto escuro, a fim de fazê-las tropeçar e definitivamente não podem trancá-las dentro de um quarto durante todo um dia, com seus ratinhos de estimação dentro dele.
— Nem temos mais eles. – Thomas diz, desviando os olhos.
— Vocês mereceram perdê-los. – Retrucou. – E tem sorte de eu não doar o coelho também.
— Ah não, papai, a Lilika não, por favor! – Naty praticamente implora.
— Então começam a se comportar ou ela vai para junto do Mickey, da Minnie, da Speed e do Sonic.
Sim, as crianças haviam dado esses nomes a seus hamsters, simplesmente porque adoravam desenhos da Disney e porque os dois últimos que o pai citou, eram extremamente rápidos, muito mais do que seus amiguinhos.
— Estamos entendidos?
— Sim senhor! – Dizem juntos, com um biquinho nos lábios.
O Kavanagh podia entender muito bem o porquê de seus filhos não quererem uma babá, mas ele não podia admitir que eles as machucassem, principalmente porque em algum momento eles poderiam machucá-las de forma realmente séria e isso seria muito ruim, tanto para elas, quanto para eles. Não haviam machucado nenhuma de verdade, e não gostaria de imaginar o quanto ficariam assustados e se sentindo culpados se isso acontecesse, e por isso era melhor avisar e deixar claro de que não aceitava aquelas ações.
