Capítulo 5 5
Yve de Paula.
Como esse povo era prepotente, me olhando como se eu fosse um ET. Sem drama, mas uma mulher preta falando em mandarim, não era a todo momento que se via por aí.
A questão era, tudo o que os professores me falavam na faculdade eu seguia. Me lembrava do Dalton de economia, falar inglês é demodê, mas necessário. O idioma empresarial do momento era o mandarim, o mundo inteiro estava fazendo negócios com os chineses. E eu rapidamente fui tratar de pôr a linguagem no currículo.
Sempre tive facilidade com idiomas.
— Modelou na China? — Arthur sussurrou, enquanto os bisbilhoteiros tentavam ouvir o que falávamos.
— Está me perguntando se trabalhei com chineses?
— Sim, estou.
— Trabalhei, sim. — Em parte não mentia, trabalhei na pastelaria Akira do senhor Hum, não tinha nada a ver com o eu saber mandarim, mas que ele deduzisse o que quisesse.
— Deveria ter me falado que entendia o que estava escrito no cardápio, mais do que qualquer pessoa que está nessa mesa.
— O senhor não me perguntou, apenas tirou suas conclusões. Me pediu para falar pouco, lembra? — Quando percebi, minha boca estava muito próxima da dele, a maneira que encarou meu rosto me deixou desconfortável.
Ziza fez um barulho de quem limpava a garganta.
— A comida chegou, queridinhos, deixem a pegação para depois.
Queria responder a essa mulher, mas já tinha estourado minha cota. Arthur Ribeiro exigiu que eu ficasse calada, apesar de eu usar sua fala quando me foi conveniente, tenho feito só o contrário.
Enquanto eles se exibiam com o hashi, eu pedi o bom e velho garfo e faca. Vargas queria enrolar o elástico na ponta para me ajudar, o velho truque para iniciantes. Informei a ele que não havia interesse da minha parte, achava estranho e não compreendia como mais de 1 bilhão de pessoas podiam comer com dois pauzinhos.
(...)
Depois da janta, me deliciei com um apetitoso harumaki de doce de leite super quente, servido com sorvete de baunilha. A conversa entre os demais da mesa estava acalorada. Arthur Ribeiro era comedido, ele ofendia e se matinha rude sem alterar a voz, o homem sabia como matar uma pessoa na unha. Eu que o diga.
— Juro que acreditei que essa reunião era para discutir preços de suprimentos com o Vargas. — Arthur questionou.
— Sim, essa é uma das pautas da reunião. A outra é que não é justo você fabricar um produto dentro da minha empresa e não dividir os royalties¹ comigo. — Ziza expôs sua indignação.
Com cautela, Arthur sorveu no pequeno cálice, um pouco do licor de Amarula.
— Cara irmã, antes de pôr em prática o Coloríssima, sentei com você e o Vargas. Ambos disseram que era loucura implementar um produto novo em meio a uma pandemia. A empresa também é minha, se não quer, está em todo seu direito, pus o projeto para a frente sem afetar em nada sua parte dentro da Beleza Black.
— Mas o momento era outro, cunhado, foi no auge da pandemia. Era quase certo dar errado. Nós iremos ter que despedir pessoas, esse dinheiro ajudaria a amenizar o impacto. — opinou Gilvan.
— Se o produto tivesse fracassado, teria me fodido com meu prejuízo, duvido que estaríamos tendo essa conversa. — Ele jogou na cara de todos.
Se Sabine estava entediada antes, agora que começaram a falar de negócios, a mulher já se levantou para fumar e ir ao banheiro umas cinco vezes.
— Arthur, posso tentar reduzir o valor da matéria-prima e quem sabe vocês entram em um acordo pelos royalties do Coloríssima.
Com a expressão séria, Arthur debruçou os braços com as mãos entrelaçadas sobre a mesa.
— Qual é o seu interesse nisso, hein, Vargas? A presidência da Beleza Black? Foi isso que te prometeram? — O homem inclinou o corpo, se aproximando mais da face do tal Vargas. — Tira seu cavalinho da chuva, eu sou e sempre serei o CEO da empresa.
— Está entendendo tudo errado… — o coroa bonito começou a se explicar, sendo interrompido por Ziza.
— Vagas se compadeceu da situação dos institutos. Estou com 63 colaboradoras voltando de licença-maternidade. Dentro de casa, em quarentena, essa mulherada achou que foder não trazia prejuízo. Enquanto elas ficam sete meses fora, tenho que pôr outras no lugar. Agora que vão voltar, terei que mandar gente embora e chove de problema na justiça.
— E todo esse problema será resolvido com o dinheiro do meu produto, que você, junto ao cérebro brilhante do seu marido, rejeitou? — Senti a ironia do "Si Ou" em cada palavra.
Enquanto eles falavam em dinheiro, eu só pensava que faltava planejamento e estratégia.
Irritada, Ziza chegou a levantar um pouco a bunda da cadeira.
— Não é seu produto, rei Arthur, pensamos nele juntos, apenas não achei que fosse o momento de arriscar em algo novo.
— Nada que me fale irá me convencer a te dar a parte que seria "sua" e você rejeitou. Estou investindo em um projeto social de menor aprendiz, não irei deixar de lado.
Isso, sim, me surpreendeu. Imaginava o projeto fajuto. Devia ser alguma lavagem de dinheiro.
— Então, você pegou o meu dinheiro para investir em um monte de melequentos?
— Não o seu dinheiro. O meu dinheiro. — ele não deixava por menos.
Ziza foi recolhendo celular e pegando a chave do carro na bolsa.
— Tire o produto Coloríssima de dentro da fábrica ou faça o meu repasse até depois de amanhã, senão receberá a visita dos meus advogados.
Arthur, parado estava e assim continuou. Não moveu uma pestana ao ver sua irmã se levantar e sair da mesa.
— Sua vez, Vargas, diga o que tem que falar. — Gilvan pressionou.
Um tanto gago e receoso, o homem tomou coragem.
— Se... é.... Se não fizer o que é certo, a Bawer irá se desvincular da Beleza Black, ficará sem matéria-prima.
Gilvan também saiu do restaurante. Vargas se levantou para ir junto a Sabine, mas antes se despediu de mim e depositou em minha mão um cartão. Fiquei assustada quando, sem eu esperar, Arthur puxou o quadrado de papel antes que eu pudesse fechar minha palma com ele dentro e devolveu ao Vargas, no mesmo instante.
— Pode levar, ela não precisa do seu cartão. Já tem o meu.
"Hã! Não queria e não tinha nenhum dos dois."
Assim que Vargas saiu, coloquei o todo poderoso em seu lugar.
— Pode deixar que eu falo por mim, não...
— Sim, precisa. Esse não é o seu nohall² de pessoas. Além do mais, por cinco horas você é minha, portanto, faz o que eu quero.
— Não sou sua, apenas estou te acompanhando. — tentei pôr Arthur Ribeiro em seu lugar.
Como se não desse a mínima pelo o que eu disse, voltou a falar.
— Se quiser mais alguma coisa, peça. Vou ao banheiro, quando voltar, pedirei a conta e iremos embora. Preciso me desestressar, salvar a minha noite.
"O que será que ele quis dizer, com salvar a noite dele?"
Algo me dizia que o meu corpo estava nos planos de desestresse de Arthur Ribeiro. Peguei minha bolsa e tentei sair, mas fui barrada de forma educada pela recepcionista. Minha tentativa de fuga não deu certo.
Tive que retornar à mesa. Arthur pagava a conta e, assim que me viu, tratou de ironizar.
— Tentando sair sem pagar?
— Apenas iria te esperar lá fora — me justifiquei — Afinal, não irei pagar nada mesmo.
Arthur Ribeiro colocava na carteira o cartão preto com letras platinadas. De pé, ele pôs o objeto no bolso na parte inferior do blazer. Com poucos passos, ele diminuiu a curta distância que havia entre nós.
O corpo da gente era nosso maior traiçoeiro. Não vou com a cara desse homem, não mesmo. Contudo, não podia negar o quanto ele era atraente fisicamente. Me fazendo engolir em seco e os pelos da minha pele me traírem. Arthur deslizou sua mão da minha nuca, passeando pelas vértebras até o meu cóccix. Com a voz suave, quase em sussurros, e a boca no pé do meu ouvido, ele terminou de embrulhar o meu ventre.
— A conta, não. Mas pagar você vai… olhando para mim e de joelhos.
(...)
Dentro do carro, ainda me sentia tonta, ao lembrar do toque aveludado nas minhas costas nuas, ao mesmo tempo que suas palavras libidinosas me enojavam. Tentei me desenvencilhar, queria pegar um táxi que tinha na porta do próprio restaurante, porém, Arthur Ribeiro passou na minha cara que ainda tinha três horas da minha companhia.
— Onde mora? — essa foram uma das poucas palavras que ele disse enquanto dirigia.
— Em Copacabana. — Menti na cara dura. Ele estava bem próximo do bairro, assim falaria para ele parar na frente de um prédio qualquer. Depois que fosse embora, eu pegaria condução para casa.
Mudando meus planos, antes de chegar em Copa, Arthur dobrou uma esquina no Leblon, andou mais alguns metros e manobrou o carro para um estacionamento de motel.
— O que acha que está fazendo aqui? — Perguntei, mesmo sabendo a resposta. — Não vou entrar aí com você.
Ele bufou, impaciente, como se essa fosse uma situação natural.
— Diz qual o preço. — O descarado nem ao menos olhou para mim e vomitou suas palavras sem reservas. — Se tiver um bom desempenho, no final ainda leva uma boa gratificação.
— Está me achando com cara de puta?!
— Não, mas se gostar, posso te chamar do palavrão que quiser. — Ele finalmente olhou para mim. — Dou uns tapas, puxo o cabelo e gozo na cara.
Eu abri a porta do carro e desci. Ainda pude ouvi-lo dar uma risada debochada.
"Escroto."
GLOSSÁRIO DE ADMINISTRAÇÃO
Royalties¹ - Receita sobre a patente de um produto.
Nohall² - Conhecimento
