Capítulo 1 1
Yve de Paula
Entrei na universidade cheia de sonhos e metas. Dentro da graduação, a maioria dos professores nos colocava na realidade. Sempre tinha um para dizer: Vocês entram aqui merda nenhuma, e saem daqui pouca merda. Só a graduação não vai lhe levar a lugar algum.
Foi por causa desses conselhos, que me preparei para o mercado de trabalho. Não queria chegar aos 30 como uma fracassada. Pós, NBA e mestrado. Falava inglês, mandarin e dava aquela arranhada em espanhol.
¿Quién no habla un tantito del portuñol?
Me enchi de esperança quando pleiteei uma vaga de supervisor na empresa Beleza Black. Afinal, o meu colega de classe, Robson Rangel, conseguiu uma vaga de assessor da presidência apenas com a graduação. Meu currículo acadêmico era mil vezes melhor do que o dele.
Assim como eu esperava, passei em todas as etapas. Bem, quase todas… só faltava uma. A entrevista com o CEO da Beleza Black. O homem gostava de conversar com todos os colaboradores que seriam contratados para a área de estratégia da organização.
Era um ponto bastante positivo, pois criava uma relação de comando hierárquico.
Para o dia da entrevista, investi em um terninho. Nem era um dinheiro que eu poderia gastar. Mas valeria a pena. Calça social, blusa de gola rolê, colete e blazer, tudo na cor marrom. Somente a blusa na cor marfim, para dar um contraste no visual.
Para variar, minha irmã, Eva, não estava em casa. E eu precisava da opinião de alguém que não fosse minha mãe. Para dona Irani, tudo sempre estava bom. Pela chamada de vídeo, Eva disse que o terno tinha cor de merda. Por ela, eu vestiria algo vermelho.
Nada de maquiagem, fiz um coque baixo, prendendo todo o meu Black, dando um ar ainda mais formal. Sai de casa, confiante de que não teria ninguém melhor do que eu para a vaga. Poderia ter igual, melhor, não.
(...)
Já na sala de espera, antes da entrevista com o poderoso chefão, achei super estranho quando tinham somente duas mulheres, contando comigo. Os demais dos sete candidatos eram homens.
Em média, a entrevista estava durando entre 15 e 20 minutos, até que a única mulher, além de mim, foi chamada para entrar, e saiu de lá apenas em dois minutos e aos prantos. Cheguei a cogitar que aquela mulher foi tratar de outro assunto que não teria nada a ver com a vaga.
Após mais um candidato, finalmente chegou a minha vez. A secretária, uma loira alta, com um vestido midi colado em um tom azul-royal, abriu a porta para mim.
A sala era muito bem planejada, com móveis na cor mogno, sobre um carpete grosso na cor vermelho, cravado com o nome Beleza Black. O homem negro e robusto, estava sentado na cadeira ergométrica, mexendo em um ofício sobre a madeira, bem ao lado de uma placa dourada escrita: Arthur Ribeiro. Chief Executive Officer.
Fui andando até a mesa e lhe cumprimentei com um bom-dia — que não foi correspondido. Puxei a cadeira de frente para ele e iria me sentar, quando, no mesmo instante, fui interrompida por sua voz preenchendo o ambiente.
— Não falei que podia. — Discorreu sem olhar para mim.
— Perdão, senhor. — Respondi constrangida e pus a cadeira no lugar.
— Agora, sim, bom dia — Ao menos ele mostrou educação. — Excelente currículo, senhorita Yve Rosendo de Paula! — Ele exclamou e eu me empolguei. — Posso te indicar para uma vaga de supervisão de um de nossos institutos de beleza.
No mesmo instante, minha face de sorriso pelo elogio da minha formação acadêmica se dissipou.
— Obrigada, senhor. Contudo, sou uma seguidora desta organização como um todo e sei que o cargo de supervisão dos institutos não cabe as minhas competências. São supervisoras de procedimentos estéticos. O senhor pode constatar que toda minha formação está voltada para a área de sistema de informação gerencial.
Sem olhar para mim, ele continuou a grifar de verde fluorescente um currículo que não era o meu.
— E quando você tiver filhos?
— Como? — Realmente não entendi sua pergunta.
— Filhos. A senhora sabe o que são filhos, creio eu. — Deus do céu! Que homem arrogante!
— Sim, senhor, minha cabeça não está focada em filhos no momento. O meu foco é total no profissional.
E finalmente ele olhou para mim.
— Sim, mas pode sair daqui agora e, no ônibus, com o cara que sentar ao seu lado, mudar esse foco. Mulheres sempre estão abertas aos sentimentos. E depois disso, são oito meses, no mínimo, que perco de análise de uma importantíssima parte da empresa. Supervisão de estética qualquer um aprende. Agora, o meu analista de SiG¹, não posso me dar ao luxo de ficar sem ele mais do que trinta dias. Por favor, obrigado pela sua presença. Já que não te interessa a vaga em nossos institutos, pode se retirar e peça para o último entrar.
Era surreal o que eu estava ouvindo. Me virei, atônita, rumo a saída, cheguei a segurar na maçaneta da porta e a entreabrir alguns centímetros, mas voltei a fechar e regressei, me pondo novamente de frente para o homem.
— Deixa eu ver se entendi bem… o senhor está me escorraçando porquê eu tenho útero? — eu realmente precisava entender. Havia uma necessidade latente em esclarecer essa história com o misógino à minha frente.
— Se vai chorar igual a última que saiu, a toalha de papel fica no banheiro… Essa porta atrás de você à direita. — Sem olhar para mim novamente, ele apontou na direção do cômodo.
— Sabe quem não é qualificado para estar nessa cadeira? — Ele me olhou. — O senhor. Como pode avaliar uma pessoa por ela usar vestido, maquiagem… enfim, pelo gênero dela?
Nesse momento o homem negro tinha um olhar inquisidor e coercitivo. Escaneou todo o meu corpo, muito bem coberto pelo terninho, mesmo assim seu olhar me deixou constrangida.
— Se tivesse vindo de vestido e maquiada, talvez eu tivesse outra vaga para te indicar. — Ele falou de maneira que beirava a obscenidade. — Mas não. Vestida assim, não poderia ser minha secretária.
— Você não passa de um idiota! — o homem conseguiu me tirar do sério.
— Saia da minha sala. Por favor, não me faça perder mais tempo. — se limitou a dizer.
E essa foi a minha pior experiência em um processo seletivo. Ainda tive muitas portas na cara, mas nenhuma espancou o meu nariz como fez Arthur Ribeiro, o CEO da Beleza Black.
(...)
Dois anos depois que um vírus maldito assolou o mundo e a escassez de emprego se tornou pior, tive que parar de sonhar com um emprego dentro da minha realidade acadêmica. E aonde vim parar? No chão de fábrica da Beleza Black. Me tornei auxiliar de produção.
Por sorte, colaboradores de nível 4 como eu, não precisavam fazer entrevista com a gestão. Para manusear maquinário, fazendo movimentos repetitivos até contrair uma LER², não era necessário o aval de nenhum pulha, misógino e arrogante.
Estava em mais um final de expediente, derrotada, esgotada e vi Robson, o meu amigo da faculdade, que conseguiu o emprego de assessor nesta digníssima empresa — o que tinha um currículo inferior ao meu. Ter um saco escrotal garantiu a ele habilidades necessárias para conseguir a vaga. Ele vinha pelo corredor e, antes que eu entrasse no vestiário, me chamou.
— Yve, espera!
Eu bufei, ao mesmo tempo que debrucei meu rosto sobre o braço na parede. O que ele queria agora no final do meu expediente? Me auto questionei.
— Fala, Rob. — falei sem humor.
— Está afim de ganhar um extra?
— Não. Nem adianta, que não irei me ferrar naquela caldeira, fazendo hora extra para ganhar mais 35 reais no meu salário. — deixei claro que não me interessava.
— Não é na caldeira, é de acompanhante.
— O quê? — Não aceitaria isso nem que eu perdesse o meu emprego! Mas iria enfiar minha mão na cara desse abusado. — Olha aqui, Robson…
— Ei…! Ei…! Ei…! Não é esse tipo de acompanhante que você está pensando. Apesar da maioria delas aceitarem a proposta quando os magnatas se interessam.
— Explica, que não estou entendendo. — discorri com uma certa irritação.
— Um executivo precisa de uma mulher bonita para acompanhá-lo até um jantar de negócios chique. Ele tinha já uma programada, mas a mulher adoeceu e a única mulher que conheço educada e gos… bonita é você, mesmo se disfarçando de feia.
— Minha resposta é não. Primeiro, não tenho roupa adequada. Segundo, meu cabelo está um lixo. Terceiro, que mesmo não sendo aquele tipo de acompanhante, o engraçadinho pode tentar alguma coisa e eu irei perder meu emprego. Pois comigo não irá arrumar nada.
Logo após a negativa, tentei mais uma vez me enfiar no vestiário, mas o Robson não parava de falar.
— Sobre a roupa, eu iria te pagar agora e você pode comprar uma cara e de grife. O cabelo, vou ligar para um de nossos institutos para que tenha carta branca no que quiser de serviço e, sobre o não para o cara, caso ele queira algo mais… não precisa e nem deve dizer que trabalha aqui.
Não podia negar que eu precisava de dinheiro. Rob já estava mesmo me alugando, então ouviria a proposta.
— De quanto estamos falando?
— 3.500.
— O quê? Esse valor é quase o dobro do que ganho aqui em trinta dias de trabalho infernal. Vão me pagar mais de três mil só para sentar em um restaurante chique e ouvir homens falarem de negócios e se gabarem de quem tem o pinto maior?
— Não somos assim! Quero dizer, somos, sim. Isso quer dizer que aceita? — Perguntou empolgado.
— Quem é o executivo?
— Rachuribeiro… — Robson tossiu e limpou a garganta.
— Quem? Não deu para entender.
Ele enfiou a mão fechada na frente da boca, como se fosse tossir novamente.
— Rachuribeiro!
— Fala direito, homem! Não está dando para entender.
— Arthur Ribeiro...!
— Não, ele não! Desiste… Ele nunca!
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SIG¹ - Sistema de Informação Gerencial
LER² - Lesão por Estorno Repetitivo
