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Capítulo 3 Aslan

Aslan

Liguei para a minha melhor amiga, a Kate, naquela noite porque, se eu não ligasse, meu cérebro ia acabar se devorando por dentro.

Ela atendeu no segundo toque. “Me conta tudo.”

Eu me joguei na cama, encarando o teto. “Tá, então. Segundo dia em Crownwell e eu já virei inimigo público número um.”

Ela soltou um suspiro dramático. “Eu sabia. Você peitou alguém, não foi?”

“Várias pessoas”, eu corrigi. “Tem esse grupinho de elite — a Constellation. Pensa em gente rica, intocável, alérgica a consequências.”

“E você cutucou eles.”

“Eu talvez tenha enfiado o braço inteiro na boca do leão, sim.”

Ela riu. “Tô tão orgulhosa de você que eu podia chorar.”

Eu contei sobre o James. Sobre o diário. Sobre como eles leram em voz alta e riram como se crueldade fosse um esporte em equipe — e a Kate ficou tão indignada que eu achei que ela ia aparecer no dia seguinte com um taco de beisebol. Quando eu mencionei o líder — o Garrett — estalando que era hétero e que sentia nojo só de imaginar um cara chamando ele de “gostoso”, a Kate ficou quieta por meio segundo.

“…Tá”, ela disse, com cuidado. “Mas fala a verdade. Ele é?”

“Ele é o quê?”

“Gostoso! Ele é gostoso?”

Eu gemi. “Esse não é o ponto.”

“Então ele é.”

“Eu não disse isso.”

“Mas também não negou”, ela cantou. “Aaaai, Aslan.”

Virei de lado, enfiando o rosto no travesseiro. “Ele é irrelevante.”

“Uhum.”

Eu apressei o assunto, contando sobre o armário, os livros destruídos, a foto. Minha voz apertou sem eu querer. Aí eu contei sobre quase ser “batizado” com um balde d’água do lado de fora da sala.

“Mas”, eu acrescentei, “um outro da Constellation — o Aitor — jogou uma bola de basquete e derrubou a porta antes de eu entrar.”

A Kate deu um gritinho. “PERA. ELE TE SALVOU?”

“Mais ou menos. Sem querer. Querendo. Eu não sei.”

“Tá, mas pergunta importante”, ela disse. “Ele é gostoso?”

“Meu Deus, o que tem de errado com você?”

Ela riu. “Ué? É tipo nos filmes! O bully gostoso e o herói quieto e sexy.”

“Eu tô literalmente sendo destruído emocionalmente”, eu falei, seco.

“E mesmo assim pegando o elenco inteiro”, ela rebateu. “Eu amo isso pra você.”

Aí teve um movimento na porta. O James entrou no quarto, silencioso como um fantasma, evitando meu olhar.

“Tááá”, eu resmunguei. “Beleza. Eu preciso dormir. Te mando mensagem amanhã.”

“Não deixa eles te quebrarem”, a Kate disse, baixinho. “Você dá conta.”

Eu desliguei e me virei pro James. “Então”, eu disse, sentando. “Se você vai sumir até eu pegar no sono e sumir de novo antes de eu acordar, é melhor você se mudar pro corredor.”

Ele se encolheu.

“Você não entende”, ele disse, baixo. “Você não faz ideia de como é aqui. É meu último ano. Eu não posso estragar isso pra mim.”

Eu encarei ele. “Acho que você já estragou. Quando trocou amizade de verdade por… essa merda aí.”

O James baixou os olhos para as próprias mãos. “Eu nunca te pedi pra fazer isso por mim”, ele sussurrou. “Desculpa.”

Eu não respondi. Só me deitei de novo e virei para a parede.

Minha cabeça não calava.

A verdade é que eu não tinha feito aquilo só pelo James. Não totalmente. Eu fiz porque tudo aquilo era deprimente pra caralho.

Mas agora eu estava com raiva. Não do James — ele tinha me traído, sim, e se rendido a eles — só que a posição dele me lembrava demais a pessoa que eu já fui… preso na escuridão, com medo e sozinho. Eu conhecia aquela dor bem demais pra julgar ele por escolher sobreviver.

Minha raiva era desse lugar; do jeito privilegiado, ingênuo e descuidado com que uns moleques cruéis — que nunca precisaram fazer essa escolha, que nunca souberam o que era ser esmagado até não sobrar nada pra dar — tratavam tudo como brincadeira.

E Crownwell, pelo visto, estava só começando.


Na manhã seguinte, eu me vi de volta na sala do diretor acadêmico.

Cadeira diferente. Mesmo sorriso.

Ele ouviu enquanto eu explicava o que tinha acontecido com o meu armário, assentindo devagar, com os dedos em posição de “pirâmide”, como se estivesse ponderando algo muito complexo — em vez de um problema bem óbvio.

—Podia ter sido qualquer um —ele disse, por fim. —Essas brincadeiras acontecem.

Eu encarei ele. —Alguém arrombou. Destruiu meus livros. Rasgou coisas pessoais.

—Sim, bom —ele respondeu, num tom suave—, não dá pra presumir intenção. Nem apontar culpado sem prova. A Crownwell prefere não tirar conclusões precipitadas.

Meu maxilar travou. —Uma dessas coisas era insubstituível, e eu não tenho como comprar livros novos.

Ele amoleceu, só um pouquinho. —A escola vai cobrir o custo dos seus livros didáticos. Quanto ao resto… eu recomendaria deixar esse incidente pra lá. Ficar remoendo só vai tornar a sua adaptação mais difícil.

Deixar pra lá.

Claro.

Quando eu me levantei pra sair, ele acrescentou: —Considerando a sua situação financeira, talvez você se interesse pelas oportunidades de trabalho aqui no campus. Serviços leves. Tempo de sobra pra estudar.

Foi assim que eu acabei trabalhando na biblioteca.

Acho que tava no sangue, né?

Eu até entendia o que a minha mãe amava nisso. Paz e silêncio, coisa rara aqui, e um milhão de jeitos de escapar… pelo menos na minha cabeça.

Era bem legal. Tinha cheiro de papel velho e couro. Familiar de um jeito que quase doía.

Depois de guardar as devoluções nas estantes e marcar umas coisas numa prancheta, eu finalmente relaxei o bastante pra dar uma olhada.

Estendi a mão pra um livro.

Alguém pegou primeiro.

Pisquei e tentei outro.

Sumiu.

Um terceiro.

A mesma coisa.

Fiquei parada por um momento, com as mãos pairando, inúteis, até cair a ficha. Não era coincidência. Era mais como uma coreografia.

Eu dei um passo pra trás, o pulso batendo mais alto do que a sala permitia.

Aí o Evan apareceu no balcão com uma pilha de livros—exatamente os que eu vinha rodeando. Ele sorriu como se tivesse acabado de resolver um quebra-cabeça.

—Vou levar esses aqui —ele disse, simpático. —O Garrett precisa.

—Pra quê? —eu perguntei, seca.

—Pra calçar o canto da mesa dele —ele disse. —Pernas desniveladas.

Minhas mãos se fecharam em punhos. —Diz pro Garrett que, se ele quer livro, ele que venha aqui buscar.

Foi aí que eu senti.

Eu ergui o olhar.

O Aitor estava sentado no canto perto da janela, estojo de violino aos pés, partituras abertas sobre a mesa. Ele não estava olhando pro Evan. Ele estava olhando pra mim.

Nossos olhos se encontraram—e, por um segundo, ele balançou a cabeça. Quase imperceptível. Um aviso.

Eu soltei o ar devagar.

—Sabe de uma coisa? —eu disse, empurrando os livros na direção do Evan. —Pensando bem… leva. Quanto mais longe, melhor.

O sorriso do Evan se alargou. Ele se inclinou, baixando a voz. —Escolha inteligente.

Eu vi ele ir embora, depois olhei de volta pro Aitor. Ele já tinha abaixado o olhar pra página, o arco batucando de leve na mesa como se nada daquilo tivesse a ver com ele.

Mas o maxilar dele estava tenso.

Eu continuei meu trabalho, tentando ficar invisível, e no fim do meu turno, bem quando eu ia tirar meu crachá, passos se aproximaram.

Aitor.

Ele parou no balcão, perto o bastante pra eu ver a marca discreta entre as sobrancelhas, o cuidado com que ele mantinha a expressão neutra. Ele enfiou a mão na mochila e tirou um livro, colocando-o entre nós.

Uma segunda cópia de um dos livros que eu tinha tentado pegar antes.

A Arte da Guerra.

—Eu já li —ele disse, baixo.

Ele empurrou o livro na minha direção—não por acaso. Não de qualquer jeito.

—É bom —ele acrescentou. —Recomendo muito.

Algo afrouxou no meu peito.

Eu levantei os olhos pra ele e sorri, pequeno, mas de verdade. —Obrigada.

Ele assentiu uma vez, como se fosse só isso que ele tinha vindo dizer, e então se virou e foi embora como se nada tivesse acontecido. Como se ele não tivesse acabado de cruzar uma linha invisível.

Eu vi ele se afastar.

Depois olhei pras janelas altas que davam pro pátio.

O Garrett estava lá fora, braços cruzados, postura rígida. O olhar dele estava cravado na biblioteca, em nós—ou talvez só em mim. A expressão dele era sombria, inconfundivelmente irritada.

E por baixo disso…

Tinha outra coisa.

Algo afiado e inquieto que eu ainda não conseguia nomear.

Eu engoli em seco, os dedos se fechando em torno do livro que o Aitor tinha deixado.

Tá tentando me quebrar, Garrett?

Então vamos ver quem quebra primeiro.

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