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Capítulo 2 Aslan

Aslan

Segundo dia, e eu acordei cedo.

O James já tinha saído de novo. O lado dele do quarto parecia nem ter sido usado — impecável — em contraste direto com o meu. Não é que eu seja um porco nem nada, mas poxa. Eu sou um cara…

“Porra”, murmurei, esfregando os olhos. “Esse cara dorme?”

Sorri sozinho enquanto me vestia, mais devagar dessa vez. A calça e a camisa tinham vindo de brechós diferentes, escolhidas pra combinar o máximo possível com as cores da academia. O blazer, por outro lado, era de verdade — certinho, pesado, com o emblema da Crownwell costurado — e juro que aquilo me deixava com cara de Harry Potter…

Aí eu fui em direção ao café da manhã, com o estômago já apertado de um jeito que não tinha nada a ver com fome.

Foi aí que começou.

O efeito Estrela de Prata.

Nos corredores, ninguém exatamente me empurrava nem cuspia insultos. Faziam algo pior. Desviavam o olhar. As conversas morriam no meio da frase quando eu passava. Um ou dois garotos pra quem eu tinha acenado ontem de repente acharam o chão fascinante.

“Bom dia”, eu disse pra uma menina perto da escada.

Ela nem piscou.

Hostilidade é pouco?

Merda.

Quando eu cheguei ao refeitório, o recado já estava bem claro. Peguei uma bandeja e procurei um lugar vazio, até escorregar numa mesa meio vazia perto das janelas.

Eu mal tinha colocado a mochila no banco quando uma voz me cortou.

“Olha só, se não é o garoto do Rei Leão.”

Levantei o olhar.

Evan. O cara chinês de ontem — um dos Constelação.

“Nárnia”, eu resmunguei, baixo. “Seu idiota.”

Ele bateu a mão na mesa.

Os dois alunos que estavam sentados ali se levantaram na hora e se afastaram, como se as cadeiras tivessem pegado fogo.

“O que você falou?”, Evan perguntou, se inclinando mais pra perto.

Eu encarei os olhos dele antes que meu cérebro conseguisse segurar minha boca. “Não tem Aslan em O Rei Leão. O nome é de As Crônicas de Nárnia.”

O silêncio que veio depois foi imediato e pesado.

Por dentro, eu me encolhi.

Não acredito que eu acabei de falar isso pra esse babaca.

Aí as risadas explodiram ao nosso redor.

Evan fungou, rindo. “Meu Deus, eu não tô nem aí. Seus pais são o quê — uns hippies idiotas?”

Mais risadas. Mais gente da elite se encaixando nos lugares ao meu redor, tomando conta da mesa como se ela sempre tivesse sido deles.

Soltei o ar devagar, peguei minha bandeja e me levantei. “A mesa é toda de vocês.”

Ninguém parou de rir.

Olhei o refeitório de novo e avistei o James perto da parede do fundo. O alívio veio — rápido e idiota. Fui na direção dele, bandeja na mão.

Ele levantou os olhos. Aí se levantou e foi embora.

Assim, do nada.

Eu congelei por meio segundo, encarando a cadeira vazia que ele tinha deixado pra trás.

Sério?

Tá de sacanagem. Senti alguma coisa torcer forte no meu peito. Engoli em seco, com força.

Eu te defendi ontem.

Eu te defendi, porra*.*

“Vão todos pro inferno”, eu murmurei, já me virando.


Quando eu cheguei à minha primeira aula, eu já estava no limite.

Levantei a mão duas vezes. Talvez três. Em cada uma, os olhos do professor passavam por mim como se eu não existisse. Quando eu finalmente falei mesmo assim — alguma coisa sobre a leitura, um ponto que eu sabia que era bom — a sala respondeu com um silêncio coletivo, ensaiado.

Nada de resmungos. Nada de comentários.

Nada.

Era como se eu tivesse falado numa língua que ninguém reconhecia.

Tá. Beleza.

Enfiei as mãos nos bolsos e disparei pra História no segundo em que o sinal tocou, cabeça baixa, andando rápido. Foi aí que eu vi.

Meu armário.

A porta estava torta, o metal dobrado pra fora como se alguém tivesse arrombado na pura raiva. Por dentro, parecia que uma pequena explosão tinha acontecido — livros rasgados, páginas arrancadas, anotações trituradas e espalhadas pelo chão.

Minha respiração travou.

Eu caí de joelhos sem pensar, as mãos tremendo enquanto eu revirava a bagunça. Capas amassadas. Lombadas quebradas. E então eu vi.

A foto.

Ela ficava colada com fita do lado de dentro da porta do armário, escondida a menos que você soubesse que estava ali. Meu pai, me segurando quando eu era bebê. O sorriso dele aberto e um pouco torto, como se ele mesmo não acreditasse que tinha conseguido fazer algo tão pequeno e vivo.

A única coisa que eu ainda tinha dele — e agora estava rasgada bem no meio.

Alguma coisa dentro de mim estalou.

Encarei aquilo, a visão embaçando, a garganta apertada como se estivesse se fechando por dentro. Apertei a palma da mão contra o peito, respirando curto, e então enfiei os dedos dormentes na mochila. Comprimido. Água. Engole.

Entra. Sai.

Não pira.

Não aqui.

Catei o que deu — livros, folhas, a foto destruída — e cambaleei até História da Arte, atrasado, com os braços cheios e tremendo.

“Quem foi o desgraçado que fez isso?”, eu gritei.

A sala ficou num silêncio mortal.

O professor Vance ergueu o olhar bruscamente do púlpito. “Aslan”, disse ele, calmo. “Por favor — sente-se.”

Eu não me mexi. “Alguém destruiu meu armário. Quem foi?”

Uma pausa.

O professor Vance se virou para a turma. “Alguém viu alguma coisa?”

Silêncio.

Pesado. De propósito.

Varri a sala com os olhos. A Constelação estava sentada junta, relaxada, se divertindo. Um deles deu um meio sorriso. Outro se recostou, como se aquilo fosse só mais uma atração do dia.

“Certo”, o professor Vance disse, com cuidado. “A gente registra isso depois da aula. Por favor, vá para o seu lugar.”

Minhas mãos se fecharam em torno dos livros arrebentados. “Então é isso? Ninguém sabe de nada?”

Ninguém olhou para mim.

“Sente-se, Aslan”, ele repetiu, mais firme.

E eu sentei. Porque eu ia fazer o quê?

Depois da aula, o professor Vance me parou no corredor. A voz dele baixou, gentil, mas cansada. “Você tem talento. Eu não quero ver você se machucar aqui.”

Eu ri uma vez, curto, sem humor nenhum.

“A Constelação manda em Crownwell há muito tempo”, ele continuou. “Se você não recuar — se você não pedir desculpas — eles vão tornar sua vida impossível. Vão te obrigar a trancar o curso.”

Pedir desculpas.

Por existir.

Eu assenti, porque aparentemente essa tinha virado a minha resposta padrão.

Com raiva. Ferido. Oco.

Puxei o ar algumas vezes, do jeito que eu tinha aprendido. Devagar. Controlado. Peguei meu livro didático destruído e fui em direção à próxima aula.

Eu já tinha sobrevivido a coisa pior.

Mas Crownwell claramente estava decidido a garantir que eu lembrasse exatamente qual era o meu lugar.


Eu me perdi no caminho para a próxima aula. De novo.

O que, sinceramente, pareceu maldade do universo.

Os corredores de Crownwell se torciam e voltavam sobre si mesmos, como se tivessem sido desenhados para eliminar gente no caminho, e depois do dia que eu tinha tido, minha paciência já estava por um fio. Parei numa esquina, encarando dois corredores idênticos, desafiando em silêncio qualquer um deles a fazer sentido.

“Procurando alguma coisa?”

Virei e vi um cara de cabelo escuro encostado de um jeito relaxado na parede, as mãos nos bolsos, um sorriso quente e fácil. Sotaque italiano. Polido. Sem esforço. Um deles — eu reconheci do refeitório. Joseph.

“É”, eu disse. “História.”

“Ah — é pro lado errado”, ele falou rápido, apontando para o corredor da esquerda. “Acontece com todo mundo. E, ah… foi mal pelo seu armário. Foi tenso.”

Tenso.

Aham.

“Valeu”, eu disse, já andando.

Cheguei na sala bem quando o sinal estava prestes a tocar, com a respiração curta, os nervos vibrando. Pela janelinha estreita na porta, eu via os alunos já sentados lá dentro, os rostos virados para a entrada com uma mistura de expectativa e algo mais feio.

Esperando.

James estava perto da porta. Quando nossos olhos se encontraram, a expressão dele se fechou — relutante, dolorida, como se ele quisesse dizer alguma coisa e não soubesse como.

Eu hesitei.

Foi aí que eu senti. Uma presença atrás de mim.

Olhei por cima do ombro e vi o quarto da Constelação.

Cabelo escuro, comprido, ondulado, solto em volta dos ombros. Aitor — agora eu já sabia o nome. Um deles. Ele estava a alguns passos de mim, uma bola de basquete presa debaixo do braço, postura relaxada, expressão tudo menos relaxada.

Nossos olhares se encontraram.

Uma tensão atravessou o rosto dele — desconforto, talvez. Remorso. Como se ele odiasse o que estava prestes a acontecer.

Então ele se mexeu. A bola saiu da mão dele e bateu na porta com força brutal. A porta voou aberta, o balde tombou, e a água desabou, espirrando pelo chão, enquanto a risada explodia dentro da sala.

Eu fiquei ali, com o coração disparado, encarando a bagunça.

Aitor passou por mim sem dizer uma palavra, pisando por cima da poça e entrando na sala como se nada tivesse acontecido. Quando ele passou, nossos olhares se cruzaram de novo — rápido, elétrico, confuso… e tão diferente da indiferença gelada do Garrett. Diferente de um jeito que eu ainda não conseguia nomear.

Soltei o ar devagar e entrei na sala.

Um ano disso?

Caramba.

Isso ia ser divertido.

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