Capítulo 1 Aslan
Aviso de Conteúdo
Este livro traz temas que podem ser perturbadores para algumas pessoas, incluindo bullying, homofobia e violência emocional e física. Também há menções a abuso passado, agressão e automutilação (incluindo cortes). Esses elementos aparecem ou são mencionados ao longo da história.
Recomenda-se discrição ao leitor.
Aslan
—Sr. Rivers, bem-vindo à Crownwell Academy. Esperamos que você se sinta à vontade entre nós.
O diretor acadêmico apertou minha mão, me parabenizou pela bolsa e abriu aquele sorriso que as pessoas guardam para eventos beneficentes e filhotes resgatados.
À vontade.
Eu e essa palavra tínhamos um histórico complicado.
“À vontade” não descrevia meu primeiro colégio — o que terminou em trauma, escândalo e adultos passando a sussurrar meu nome como se ele pudesse manchar a boca deles. Também não descrevia o segundo, onde eu tive que conquistar popularidade na marra, me matando de trabalhar num lugar em que ninguém me conhecia.
Conforto, pra mim, sempre foi temporário. Condicional. Revogável.
Então é, na Crownwell Academy, “à vontade” provavelmente não estava no baralho.
Mesmo assim, eu assenti, porque concordar com a cabeça era uma habilidade de sobrevivência que eu tinha aperfeiçoado cedo.
—Obrigado, senhor. Agradeço a oportunidade. —As palavras certas, entregues direitinho. As pessoas adoravam isso.
Do lado de fora da sala do diretor, Crownwell parecia exatamente o que era: um lugar que sabia quanto custava. Prédios de pedra com nomes entalhados nas fachadas, gramados tão impecavelmente aparados que nem pareciam de verdade, e estudantes cruzando o campus de cabeça erguida. A autoconfiança pendia deles como se viesse inclusa na mensalidade. Eu vestia uma jaqueta que eu mesmo tinha ajustado, achada num brechó, e tentei não pensar em como os pontos deviam ficar óbvios de perto.
Eu vinha de uma cidadezinha no Maine pequena o suficiente pra todo mundo saber da vida de todo mundo. Minha mãe era bibliotecária da comunidade, o que significava que lá em casa tinha mais livros do que móveis e uma crença firme de que conhecimento podia te salvar se você amasse aquilo com força suficiente. Eu amava. Livros, arte, coisas silenciosas.
Morar no campus ia ser um nível totalmente novo de exposição. A experiência completa de Cinderela. Só que não tinha fada madrinha — só uma carta de bolsa, uma designação de dormitório e a expectativa de que eu fosse infinitamente grato pelo privilégio de existir ali. Sorria bonitinho. Não quebra nada caro. Não lembra ninguém de que você veio de outro lugar.
Ajustei a alça da mochila no ombro e saí da sala do diretor com um mapa do campus dobrado na mão, já tentando decifrar o labirinto de prédios e alas de dormitórios impresso nele. Dei exatamente três passos distraídos antes de trombar com força em outro corpo.
O mapa escapou dos meus dedos e flutuou até o chão.
—Ei! Olha por onde anda.
As palavras me atingiram antes que eu conseguisse soltar um pedido de desculpas. Secas. Cortantes. Nem foi alto — o que era pior. Como se ele esperasse que o mundo saísse da frente e estivesse irritado por não ter saído.
Eu levantei o olhar.
Grande erro.
Os olhos dele, de um azul gelado, se prenderam nos meus sem a menor hesitação. Não havia nada amigável naquele olhar — nenhuma suavidade, nenhum humor. Só intensidade. Sem desculpas. Perigoso de um jeito que não precisava se anunciar.
Por meio segundo, meu cérebro simplesmente desligou.
Ele era alto — bem mais alto do que eu —, com ombros largos que esticavam o tecido da jaqueta como se ela tivesse sido feita sob medida pra destacar aquilo. Atlético sem nem tentar. O cabelo loiro, comprido e ondulado, caía para a frente da testa, pegando a luz de um jeito injusto.
Eu devia ter pedido desculpas. Provavelmente abri a boca pra isso, mas não saiu nada.
O que aquele olhar fez comigo foi imediato e profundamente perturbador. Meu pulso disparou, agudo e idiota, e de repente eu estava muito consciente de como a gente estava perto — perto o suficiente pra eu sentir um cheiro limpo e caro, perto o suficiente pra eu me sentir exposto de um jeito que eu não gostava.
Então fui eu quem desviou primeiro.
Me agachei pra pegar o mapa, fingindo que eu estava muito interessado em não encarar feito um idiota.
Quando me endireitei de novo, o corredor estava vazio.
Nenhum som de passos. Nenhuma presença demorando. Só o mapa amassado na minha mão e a certeza desagradável se acomodando no meu peito de que eu tinha acabado de conhecer alguém que ia arruinar minha vida de pelo menos três maneiras diferentes.
Quando enfim encontrei meu dormitório, já tinha alguém lá.
Ele estava sentado de pernas cruzadas na cama, dobrando roupas com precisão cirúrgica. Ergueu os olhos quando eu entrei, arregalando-os só um pouco antes de um sorriso suave tomar conta do rosto.
—Ah… oi —ele disse depressa. —Você deve ser o Aslan.
Ele era magro, delicado de um jeito que parecia intencional. Pele pálida salpicada de sardas, quase rosada; cabelo ruivo-alaranjado em cachos soltos; uma regata grudada nos ombros estreitos. Havia algo inconfundivelmente feminino nele — não caricato, só… ali, como se ele tivesse parado de tentar lixar isso há anos.
“Então você deve ser o James”, eu disse.
Ele abriu um sorriso mais brilhante. “Colegas de quarto.”
Um alívio imediato. Nada de tensão. Nada de olhares medindo. Só… alívio.
A gente conversou enquanto eu desfazia as malas.
Ele estava em Crownwell desde os doze anos, o que explicava o quanto parecia à vontade.
Quando eu terminei de enfiar minhas roupas em gavetas que já estavam perdendo a guerra, James saltou da cama. “Vem”, ele disse. “Vou te mostrar tudo antes que você se perca de vez.”
Enquanto caminhávamos, ele foi apontando as coisas com a familiaridade casual de quem já decorou cada canto. Prédios de aula. Campos de treino. O refeitório. Aí ele abaixou um pouco a voz.
“E… aqueles caras.”
Ele assentiu com a cabeça para a frente.
Um grupo de garotos estava junto perto do pátio central. Rindo. Relaxados. Intocáveis.
“A Constelação”, James disse. “A elite. Eles se conhecem desde sempre. Quatro herdeiros de quatro impérios.”
“Parece… divertido”, eu disse.
James soltou uma risadinha pelo nariz. “Ah, eles são um amor.” Depois, mais baixo: “Se você se encaixa.”
Eu reparei no jeito como os ombros dele se enrijeceram, só um pouco.
“Julgam?”
Ele hesitou. Só por um instante.
“Bom… sim. Mas nem todos são horríveis. O líder deles — o Garrett — ele não é exatamente assim. Eles só…” Ele deu de ombros, os lábios se curvando num sorriso resignado. “Eles ligam pra aparência. Só isso. É assim que funciona. Eles são a realeza. A gente é o povo.”
Sei.
Acordei com o quarto vazio.
“Merda”, eu resmunguei, semicerrando os olhos pra tela do celular.
Desfiz com cuidado a embalagem do meu uniforme — a única coisa minimamente valiosa que eu tinha — e me vesti em tempo recorde, brigando com a gravata antes de sair disparado pela porta com a mochila meio aberta, seguindo o barulho crescente direto pro refeitório.
Foi aí que eu vi James.
Ele estava perto de uma das mesas compridas, ombros encolhidos, mãos cerradas ao lado do corpo. Parecia menor do que na noite anterior. Encurralado. E não estava sozinho.
A Constelação tinha formado um círculo frouxo ao redor dele, cruel e ameaçador, enquanto alguém segurava um caderno gasto, mostrando pra todo mundo.
“Lê essa parte”, ele disse, já rindo.
Um garoto pigarreou e forçou a voz num tom mais agudo, debochado.
“Meu Deus, o Garrett Williams é muito gostoso”, ele arrastou as palavras até o refeitório explodir. “Sério, toda vez que ele passa por mim, eu—”
A gargalhada estourou ao redor.
“Coloca esse viadinho no lugar, Garrett”, alguém acrescentou, sorrindo. “Vai deixar ele escrever isso de você assim?”
O maxilar de Garrett se contraiu. “Eu sou hétero”, ele cuspiu. “Um cara gostar de mim me dá nojo.”
Parece que o chão inclinou.
Eu reconheci ele na hora. Aquela presença esmagadora do corredor. Aquela calma perigosa… agora tinha um nome.
O rosto de James ficou branco.
Algo antigo e feio se mexeu no meu peito. Trauma. Escândalo. O eco de uma risada que nunca vai embora de verdade. Eu me vi no lugar de James. Vi a Kate entrando no meio quando ninguém mais entrava.
Então eu fiz o mesmo.
“Zombar do sentimento genuíno de alguém é engraçado”, eu disse, alto o bastante pra cortar o barulho, “ou seu ego é tão frágil que você precisa pisar nos outros pra se sentir grande?”
Todas as cabeças viraram.
Os olhos de Garrett se fixaram nos meus.
Aqueles olhos azuis queimavam — furiosos, surpresos, vivos de um jeito afiado demais pra caber em palavras. Um calor estalou entre nós, indesejado e inegável, e por um segundo idiota eu esqueci onde estava.
Então a expressão dele endureceu.
“Quem diabos é você?”, ele exigiu.
“O cara mandando você parar”, eu disse. “Devolve isso.”
O garoto com o diário hesitou, depois largou como se queimasse. Eu peguei e enfiei nas mãos de James, conduzindo ele pra longe antes que alguém impedisse.
Atrás de nós, eu peguei um movimento — olhos escuros amolecendo só um pouco. Aitor, eu saberia depois. Ele parecia… inquieto. Os outros dois observavam com interesse, como se aquilo fosse um entretenimento melhor do que tinham esperado.
James apertou o diário contra o peito. “Obrigado”, ele sussurrou quando já estávamos fora dali. “Você não devia ter feito isso.”
“É”, eu disse. “Eu ouço isso bastante.”
Foi aí que ele me avisou — sobre Crownwell, sobre a hierarquia, sobre como gente como Garrett Williams não esquecia quando alguém os desafiava.
Eu quase ri.
No fim daquele dia, antes de eu me arrastar de volta pro quarto, encontrei uma estrela prateada presa direitinho no meu armário.
Embaixo, um bilhete numa caligrafia precisa:
Bem-vindo a Crownwell, herói plebeu.
Eu encarei por um bom tempo, meu pulso ainda se recusando a acalmar.
Garrett Williams… eu tinha certeza.
E, de algum jeito, eu já sabia que aquilo era só o começo.
