A agonia da carne sendo rasgada ainda queimava na minha memória.
Mas eu tinha renascido.
Com as mãos tremendo, toquei o rosto no espelho. Inteiro, sem marcas. Isso era real?
Só alguns instantes atrás, eu estava lutando à beira da morte, e agora eu estava num corpo de dezoito anos. Tudo parecia irreal demais.
A alcateia inteira ainda achava que eu era aquela Elena ingênua, condenada a viver para sempre na sombra da minha irmã, Sarah, uma puro-sangue. Eles não sabiam que eu tinha visto a verdade mais sombria.
A porta se escancarou de repente, e Sarah entrou carregando uma xícara de chá quente.
— Elena, não se estresse. — A voz dela carregava um ar de superioridade. — Dada a sua... situação, a Deusa da Lua seria mais compreensiva.
Ao ver o sorriso impecável dela, quase me deu ânsia. Esse rosto, essa expressão — eu tinha visto isso incontáveis vezes na minha vida passada.
— Sobre esse negócio de companheiros predestinados e tudo mais... — Sarah acariciou meu ombro com delicadeza. — Não é algo que você seja obrigada a seguir. Se você achar o Alfa Lucas autoritário demais, escolher um Alfa mais gentil também é uma boa opção. Eu vou ficar do seu lado de qualquer jeito.
Ficar do meu lado? Quase soltei uma risada.
Na minha vida passada, eu tinha sido cegada justamente por essas palavras. Eu tinha aberto mão de outras oportunidades e escolhido meu companheiro predestinado, o Alfa Lucas, só para virar uma ferramenta para encobrir os sentimentos verdadeiros dele.
A verdade só veio à tona na comemoração do aniversário da Sarah. Quando as garras dos lobos renegados miraram nela, aquele homem que dizia me amar havia anos não hesitou em me empurrar na direção da alcateia.
Enquanto eu desabava numa poça do meu próprio sangue, com as garras abrindo cortes profundos na minha carne, eu vi Lucas segurando Sarah de forma protetora, enquanto ela agarrava a barriga em pânico.
— Salvem a Sarah! Rápido, salvem ela! A criança na barriga dela... — Lucas a levou imediatamente para a enfermaria.
Ninguém deu atenção a mim, largada numa poça de sangue. Aos olhos de todos, só a Sarah importava.
— A culpa é toda minha — Sarah disse, fraca. — Se eu não tivesse engravidado, a Elena não estaria descontando em mim por ciúme...
O quê? Ela realmente disse que eu estava atacando por ciúme?
— Elena, me desculpa... Vou compensar você na próxima vida. — Lucas me lançou um último olhar, com os olhos cheios de culpa.
Próxima vida?
Você me matou e ainda queria que eu te desse uma chance na próxima vida? Vai sonhando!