O Executor e a Princesa da Máfia

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Capítulo 5 O Palácio dos Urubus

—Ele está tentando nos puxar para dentro.

—Então a gente entra junto de uma vez!

—Não. Esse desgraçado quer exatamente isso.

Reconheci a outra voz: Henrique.

Costumava chegar mais cedo às confraternizações de fim de ano para ajudar Marta a organizar as mesas, tinha uma quedinha por ela. Meu pai dizia que era um homem confiável. Talvez realmente tivesse sido um dia.

Os invasores permaneceram imóveis por alguns segundos. Rafael havia conseguido exatamente o que desejava. Quanto mais demorassem para entrar, mais nervosos ficariam. Quanto mais nervosos, maiores as chances de abandonarem o treinamento e passarem a agir por instinto e desespero.

Foi Henrique quem cedeu primeiro.

Seu braço surgiu pelo batente segurando a arma curvada para dentro e disparou a esmo. Atingiu um vaso de cerâmica sobre o aparador fazendo o objeto explodir em dezenas de fragmentos, produzindo um mar de cacos azuis e brancos.

Rafael arremessou um peso de papel em direção a porta, fazendo Henrique instintivamente recolher o braço.

Sem dizer uma palavra, arrancou a mesa de centro do lugar e a arremessou sobre o corredor, criando uma confusão improvisada de vidro e metal que obrigou Márcio e Henrique a perder alguns segundos preciosos tentando entender o que ele pretendia. Em seguida correu em minha direção.

A verdadeira batalha ainda nem havia começado.

Rafael permaneceu imóvel ao meu lado. A princípio, pensei que estivesse avaliando alguma rota de fuga ou esperando o momento certo para enfrentar os dois homens restantes garantindo minha plena proteção, mas bastou observar seu rosto para compreender que sua batalha acontecia em outro lugar. Seus olhos percorriam o apartamento relendo um livro de violência escrito por ele mesmo. Cada móvel, cada parede perfurada, cada estilhaço espalhado pelo chão parecia ocupar exatamente o lugar que ele previra. Era mais que isso: ele absorvia aquele pandemônio equacionando os parâmetros a um plano que media a grandeza e função de cada peça num logaritmo de massacre. Pela primeira vez desde que aquilo tudo começou, percebi que sua maior arma nunca foi a pistola presa ao coldre. Era a paciência.

Sem que eu percebesse, sua mão encontrou a minha. Apertou-a, entrelaçando nossos dedos com firmeza, mesclando sua pulsação à minha. Aquele contato atravessou meu corpo inteiro, que não prestava méritos as possíveis intenções que a situação exigia. Em meio ao cheiro de pólvora e sangue, senti o calor de sua pele, a aspereza discreta dos calos na palma e a segurança absurda que apenas sua presença tão presente e pulsante era capaz de transmitir. Eu deveria estar apavorada. Em vez disso, tudo o que conseguia pensar era que, enquanto Rafael me segurasse daquela maneira, o mundo inteiro poderia desabar que eu estaria satisfeita em morrer em meio aos escombros desde que eu estivesse com aquele homem.

Márcio e Henrique avançavam com cautela: ambos conheciam Rafael bem o suficiente para saber que nenhum gesto seu era impulsivo. Não era uma mesa destruída, mas uma armadilha. A cada passo que davam, armas em punho, procurando o executor, empurravam destroços com a ponta do pé, examinavam cantos escuros, conferiam cortinas e janelas antes de prosseguir, pé ante pé. Haviam aprendido a duras penas após a perda dos primeiros seis que sobreviver significava desconfiar de tudo quando Rafael Corval estava por perto.

Foi exatamente essa desconfiança que ele explorou.

Antes que eles entrassem, sem desviar os olhos da porta da frente, aproximou os lábios do meu ouvido. Sua voz chegou até mim tão baixa que quase se confundiu com minha própria respiração.

— Quando eu andar, você anda. Quando eu parar, você para. Pise na sombra dos meus passos. Não olhe para trás.

Assenti sem perceber que prendia a respiração, olhando para cada movimento que ele fazia com devoção. Não era a primeira vez que eu o olhava assim.

Ele esperou.

Dois passos lentos sobre o porcelanato, seguidos pelo rangido de uma porta sendo aberta. Rafael acompanhou aquele ritmo com a maestria do invisível. Henrique deu mais um passo, Rafael deu outro na direção oposta. Márcio empurrou uma cadeira caída, Rafael deslocou discretamente uma cristaleira na bancada com a ponta dos dedos, produzindo um ruído quase idêntico do outro lado do apartamento. Os sons se sobrepunham de maneira tão perfeita que qualquer pessoa juraria que todos continuavam no mesmo ambiente.

Eu finalmente compreendi. Ele não pretendia derrotá-los. Só queria permanecer exatamente um cômodo à frente deles.

Eu o segui. Eu o seguiria até o Inferno.

Enquanto Henrique revistava a sala, atravessamos a cozinha. Quando Márcio abriu lentamente a porta de um quarto que estava vazio, Rafael abriu a porta da cozinha e me levou pelo pequeno corredor de serviço. A cada movimento dos homens, ele respondia com outro movimento simétrico, fazendo o apartamento inteiro parecer ocupado, embora estivéssemos desaparecendo dele pouco a pouco. Eu assistia a um enxadrista vencendo uma partida sem sequer tocar nas peças do adversário.

Descemos os primeiros degraus sem produzir praticamente nenhum ruído. Eu ainda sentia sua mão envolvendo a minha, firme, quente, inabalável. A proximidade entre nós era tão grande que, em alguns lances da escada estreita, meu ombro roçava o peito dele, e bastava um movimento involuntário para que eu sentisse sua respiração tocar meus cabelos. Havia sangue em sua camisa, um corte profundo atravessava sua manga, e mesmo assim continuava caminhando com a serenidade de quem carregava sobre os ombros uma única prioridade: tirar-me dali.

Descemos as escadas, silenciosos e cúmplices. Lá fora, Rafael sorriu.

Quando alcançamos o térreo, um coro de sirenes começou a ecoar ao longe. Rafael não diminuiu o passo. Apenas lançou um rápido olhar para a rua, avaliando o movimento antes de me conduzir até a sombra formada pelos edifícios vizinhos. Permanecemos ocultos enquanto duas viaturas freavam bruscamente diante da entrada principal. Policiais desembarcaram com armas em punho e desapareceram pelo saguão do prédio entrando em combate frenético com os homens perplexos e surpreendidos sem nos encontrar no apê.

Olhei para Rafael, ainda tentando compreender como conseguíramos escapar de dois assassinos experientes. Ele sustentou meu olhar por um instante, e percebi que seus olhos carregavam um cansaço que jamais demonstraria em voz alta. Havia enfrentado antigos companheiros, sangrado por mim.

Continuava ali, segurando minha mão com a mesma firmeza de quando tudo começou.

Meu pai podia ter perdido seu império, seus homens, sua liberdade. Ainda assim, preservou aquilo que julgava mais importante: deixou-me nas mãos do único homem que jamais aprendeu a fugir quando alguém que amava precisava dele. Um homem disposto a tornar um esconderijo uma mansão de abutres abatidos.

Me encarou.

—Dessa vez eu prometo que vou te levar para um lugar seguro de verdade.

—Eu não me importo com o lugar, desde que me leve imediatamente para onde você e eu possamos ficar sozinhos.

Ele apertou mais minha mão e sorriu, enquanto caminhávamos até um Uber que ele havia chamado.

—Sim, senhora.

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