O Executor e a Princesa da Máfia

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Capítulo 4 Aquele Que Permaneceu Comigo

Rafael levou a mão ao coldre no mesmo instante. A mudança foi tão rápida que o homem diante de mim deixou de ser Rafael e voltou a ser Corval, o segurança de meu pai. Aproximou-se da porta sem fazer ruído, observou pelo visor e destrancou apenas depois de alguns segundos, me fazendo um gesto para me recompor.

Do lado de fora estava um dos nossos advogados, o Mendes. O suor escorria por sua testa e o paletó parecia ter envelhecido dez anos desde o café daquela manhã.

—Encontraram as contas internacionais — disparou sem sequer cumprimentar. — Congelaram empresas, bloquearam patrimônio e a imprensa já começou a divulgar os nomes dos sócios. Esse lugar não é mais seguro, tá no rol paralelo de bens. Eles já sabem, já sabem de tudo.

O homem respirou fundo antes de concluir:

—A prisão de Carlo era apenas a primeira peça. Eles querem destruir o império inteiro. Vocês dev...

Repentinamente, a cabeça de Mendes explodiu num estampido que me fez gritar de horror, confirmando minha presença para os assassinos que avançavam pelo corredor.

O trovejar reverberou pelo apartamento e o corpo do advogado caiu para dentro da sala se desmilinguindo como um boneco de posto de gasolina. O sangue que fluiu do estrago encharcou o tapete de entrada numa velocidade absurda, dando-lhe uma cor carmesim. Rafael fez um gesto com o queixo para me esconder atrás do balcão da cozinha com uma firmeza que não admitia discussão. Na hora do desespero, minha cabeça bateu contra o armário suspenso, mas a dor desapareceu sob o choque de perceber que o homem que segundos antes tentava nos alertar do perigo, agora jazia morto diante da porta de entrada do esconderijo nada seguro.

Rafael já não era o homem charmoso que dividira comigo há pouco um instante de vulnerabilidade. Em um movimento lépido se posicionou ao lado da porta e esperou, um alabastro de tranquilidade. Era evidente que aquela não era a primeira emboscada de sua vida. Enquanto eu lutava para me manter quieta, ele observava o corredor muito mais escutando do que vendo. Do lado de fora, passos abafados se distribuíam em um avanço indomável, acompanhados por sussurros que só podiam revelar a disciplina de verdadeiros profissionais.

Para minha confusão e desespero, notei que Rafael sorria. Seus pensamentos estavam palpáveis. “Amadores”.

— Ela está aí dentro: não matem a garota! Cuidado com o cão de guarda, ele é perigoso.

A voz atingiu meu estômago quando reconheci o dono do comando sussurrado: Renato. Durante anos ele trabalhou como segurança da mansão. Eu cresci chamando aquele homem pelo primeiro nome. Lembrei-me de quando ele me ensinou o jeito certo de arremessar uma vara de pesca durante um fim de semana no lago Paranoá.

Minutos depois eu reconheceria também Jonas, depois Cláudio e, por fim, Márcio. Todos haviam servido meu pai. Todos haviam jurado fidelidade à nossa família. Na primeira oportunidade, trocaram de lado.

Rafael fechou os olhos por um instante, confirmando uma suspeita antiga. Seu olhar me encontrou, repleto de piedade e indignação. Seus olhos diziam:

“Eu conheço cada um deles.”

Que horror. Que horror.

“Acabe com eles!” o furor de minha expressão respondeu, trabalhada no puro ódio.

“Sim, senhora.” — suas ações responderam.

O primeiro invasor entrou apontando a arma para o centro da sala, convencido de que nos encontraria escondidos atrás do sofá. Rafael não esperou que ele terminasse o movimento. Surgiu como um raio do ângulo morto da parede, desarmou-o com um golpe seco no braço e o empurrou contra o corredor, obrigando os homens do lado de fora a interromperem os disparos para não atingirem mais ainda o próprio companheiro já alvejado nas costas.

O estrondo das armas tomou conta do prédio, estilhaçando as paredes, portas, quadros e luminárias do corredor, enquanto Rafael empurrava o homem sobre os companheiros e ajoelhava para atingi-los de baixo para cima, sempre mirando em seus pescoços e queixos desprotegidos. Havia uma tola lenda urbana de que os melhores assassinos miravam sempre na cabeça, qual o quê. Nada se comparava a um tiro vantajoso no pescoço, enquanto os atiradores adversários naturalmente miravam adiante em busca de um alvo em pé. O mundo era muito mais tridimensional do que se ensinava e Corval sabia disso. Abateu três deles assim, em concentração total, apertou o botão do elevador e descarregou a pistola em tiros cadenciados para dirimir a possível coragem dos demais em se aproximar. 

Os invasores tentaram avançar em dupla, repetindo uma formação que certamente haviam aprendido trabalhando para Carlo. Rafael antecipou a manobra porque fora ele quem a ensinara anos antes. Quando Jonas cruzou o batente acreditando que o veterano estivesse recuando, encontrou apenas o corredor vazio. Rafael estava tranquilamente recostado no ângulo onde as paredes do elevador se encontravam segurando o botão que mantinha a porta aberta e o derrubou com dois disparos nas costas antes que pudesse reagir. O segundo homem hesitou por uma fração de segundo ao ver o líder abatido e aquele instante bastou para decidir seu destino.

Soube que mais da metade já haviam embarcado com Caronte quando ouviu o ex-companheiro tentar negociar. Eram oito, então.

—Corval... não precisa terminar assim.

Rafael saiu do elevador com a arma apontada para a curva de onde a voz vinha, seus ouvidos atentos a súplica indigna de seu antigo colega de profissão.

—Terminou quando vocês venderam o chefe.

A resposta foi suficiente para que os três compreendessem que não havia mais retorno. Ou matavam aquele desgraçado ou não sairiam dali vivos.

O corredor voltou a explodir em disparos, obrigando Rafael a recuar para dentro do apartamento.

A fumaça começava a encobrir a entrada e o cheiro de pólvora misturava-se ao do sangue de Mendes, que insistia em redecorar tudo que alcançava. Tapei os ouvidos agachada atrás do balcão, já sem conseguir distinguir se gritavam para matar ou apenas tentavam sobreviver ao terror do combate. Tudo o que eu via era Rafael movendo-se pela sala, mudando de ângulo e posição numa dança presciente e elegante com uma calma assustadora, usando cada parede, cada forma como a luz incidia no cômodo e cada móvel como parte de um plano que parecia existir muito antes daquela manhã enlouquecer.

Um deles invadiu com uma escopeta, gritando e disparando, apenas para ser alvejado com um disparo no sovaco e outro na têmpora. Restaram apenas dois homens. Reconheci um deles pela maneira de falar, era o Márcio. Havia me ensinado a andar de bicicleta quando eu tinha onze anos. Que ódio! Nunca imaginei que o veria tentando invadir um apartamento para me sequestrar.

—Entregue a menina, Corval. Você sabe que não tem saída! Outros virão.

Pela primeira vez desde o início do confronto, Rafael respondeu alto o suficiente para que todos ouvissem, enquanto recarregava o pente da arma.

—Carlo me pediu apenas uma única coisa quando tudo caísse: permanecer com ela.

Houve um breve silêncio de compreensão do outro lado da porta.

—Então você vai morrer por causa dela.

Rafael respirou fundo, conferiu o carregador e olhou rapidamente para mim. Não havia heroísmo em seu rosto, apenas uma determinação silenciosa repleta de lealdade.

Um silêncio tão absoluto fez com que os homens do corredor começassem a desconfiar se tinham realmente alguma chance.

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