O Executor e a Princesa da Máfia

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Capítulo 1 A Última Manhã do Império

Eu acordava cedo por culpa do meu pai.

Carlo Castellano jamais precisou bater à minha porta, a mansão inteira conhecia seus horários e todos nós acabamos nos tornando peças diferentes do mesmo relógio. Às seis o cheiro de café quente já subia desde a cozinha. Às seis e quinze, Marta abria as janelas da biblioteca para os livros respirarem, como gostava de dizer. Às seis e meia, todo o santo dia, religiosamente, papai atravessava o jardim de inverno lentamente, lendo os jornais do dia com tanta atenção que parecia que as notícias haviam sido escritas apenas para ele.

Naquela quinta-feira de Junho despertei antes do alarme e permaneci alguns minutos observando o teto ganhar a luz dourada das manhãs de Brasília. Era ano de Copa do Mundo, eleições presidenciais e o ar-condicionado mantinha o quarto frio, embora o céu já anunciasse outro dia de calor seco.

Da janela, eu enxergava uma vasta faixa do lago Paranoá entre as árvores. Cresci acreditando que aquela paisagem seria eterna. Pior: que seria eternamente minha. O lago continuaria refletindo o céu e meu pai seguiria comandando homens poderosos com poucas palavras.

Vesti uma calça clara, enfiei na cabeça uma camisa branca qualquer, prendi os cabelos e desci.

A mansão ainda conservava seu silêncio habitual. O mármore branco devolvia o som de meus passos, os lírios do corredor que mamãe tanto gostava haviam sido devidamente trocados por flores frescas e os seguranças ocupavam seus lugares com ternos austeros.

Meu pai detestava ostentação espalhafatosa. Preferia móveis italianos escuros, obras de arte brasileiras e peças raras que pareciam simples para quem não sabia reconhecê-las. Segundo ele, o verdadeiro poder dispensava anúncios.

Encontrei-o na varanda, sentado na poltrona. Minha mãe estava no Rio de Janeiro havia três dias, ocupada com a reforma da cobertura no Leblon. Papai vestia uma camisa amarela clara com as mangas dobradas e lia enquanto o café esfriava diante dele.

—Bom dia, principesca.

—Sua benção, papai.

Sentei-me à direita, beijei sua mão e enchi minha xícara. Ele terminou de ler a página antes de erguer os olhos e me encarar com censura:

—Dormiu tarde.

—O senhor instalou câmeras no meu quarto para saber?

—Você postou no Instagram às uma e quarenta e sete. Um gato julgando um quadro, ou algo assim.

—Isso só prova que eu estava bem acordada.

Um sorriso discreto surgiu em seu rosto.

—Vai hoje à universidade?

—Tenho aula às dez.

—O motorista estará pronto às nove.

—Eu posso dirigir.

—Pode.

—Então vou dirigindo.

—O motorista estará pronto às nove.

A discussão terminou como todas as outras: meu pai reforçando sua decisão como lei natural.

Peguei uma fatia de pão e fiz questão de demonstrar minha irritação. Vinte anos na cara e eu ainda lutava por autonomia e independência.

Queimei a boca com o café quente quando vi que Rafael estava ali, próximo às portas do jardim.

Usava terno cinza chumbo, camisa preta e o mesmo relógio de metal cromado que eu via em seu pulso desde sua adolescência. Rafael trabalhava para meu pai havia quinze anos, embora ninguém soubesse explicar exatamente qual era sua função. Cuidava da segurança pessoal e alguns o chamavam de braço direito, Conselheiro.

Eu sabia poucas coisas sobre ele, no começo. Rafael tinha hoje trinta anos, sempre estava disponível e nunca permanecia de costas para uma porta. Durante minha infância, inventei histórias sobre aquele homem silencioso. Acreditava que ele dormia armado. Descobri que de fato dormia.

—Corval.

Rafael se aproximou e lhe entregou um celular. Papai leu a mensagem exibida na tela. Seus dedos permaneceram imóveis por um instante.

—Confirmado?

—Ainda não.

—Brasília ou Rio?

—Os dois.

Meu pai olhou o jardim. A mudança em sua expressão foi mínima, porém suficiente para despertar minha atenção.

—Algum problema?

—Assuntos de negócios.

Os Castellano possuíam muitas empresas. Construção civil, transportes, restaurantes, casas noturnas, importadoras, participações em hotéis e principalmente segurança privada especializada. Eu conhecia os nomes estampados nos documentos e ouvia falar dos diretores durante os jantares. Jamais compreendi como todas as peças se conectavam. Meu pai dizia que um império bem construído se parecia com uma cidade: cada edifício tinha uma função, enquanto os túneis permaneciam escondidos.

Naquela manhã, os túneis começaram a desabar.

O celular pessoal de papai tocou. Ele atendeu e ouviu alguém durante vinte segundos. Levantou-se.

—Ative o protocolo vermelho.

Rafael começou a digitar. Meu pai caminhou até a biblioteca enquanto fazia outra ligação, dessa vez falando em italiano. Voz controlada, passos rápidos.

Um segurança atravessou o corredor carregando duas pastas. Logo depois, a secretária de meu pai desceu as escadas com um notebook comprimido ao peito. Portas começaram a abrir e fechar por toda a mansão. As pessoas ainda evitavam correr, porém a casa perdera o ritmo perfeito que eu conhecia. Todas as peças do relógio descompassaram.

Fui até a biblioteca e encontrei a porta fechada. Quando toquei na maçaneta, ouvi a voz de meu pai.

—Todos os endereços?

—Vinte e seis — Rafael confirmou — Deve aumentar.

—Mandados?

—Busca, apreensão e prisão.

Abri a porta.

Papai estava diante da mesa, com as mãos apoiadas sobre a madeira. Rafael permanecia junto à janela.

—Duda, volte para o seu quarto — meu pai ordenou.

—O que está acontecendo?

—Faça o que eu pedi.

—Você falou em prisão. Eu ouvi você falar.

Rafael tocou o fone preso à orelha e escutou alguma coisa.

—A Polícia Federal saiu da superintendência há nove minutos.

Meu coração acelerou.

—Eles estão vindo para cá?

Papai se aproximou de mim e segurou meu queixo. Seus dedos estavam frios.

—Vá ao quarto, arrume uma mala pequena e espere por Rafael.

—A polícia vai prender o senhor?

Ele respirou fundo.

—Eles têm um mandado.

—Então ligue para os advogados e impeça isso!

Parece meio absurdo pensando agora, mas naquela hora eu acreditava que todos os problemas podiam ser resolvidos por uma ligação de Carlo Castellano. Meu pai conhecia deputados, senadores, juízes e ministros. Homens poderosos se levantavam quando ele entrava em restaurantes.

—Existem batalhas que começam antes de sabermos que estamos em guerra.

—Eu vou ficar contigo. Ninguém vai te levar.

—Você vai com Rafael.

—Pai...

—Eduarda Eloá Vivaldi Castellano, me obedeça e obedeça já!

Meu nome completo encerrou a discussão.

Subi para o quarto, abri o closet e encarei vestidos, sapatos, bolsas e joias, tentando descobrir o que alguém deveria carregar quando a própria vida precisava caber em uma mala. Coloquei algumas roupas, meus documentos, cartões e um envelope com dinheiro. Decidi colocar as joias também, por puro instinto. Quando espiei a janela, vi veículos pretos subindo a rua. Um helicóptero avançava sobre o lago.

Rafael entrou no quarto e fechou minha mala.

—Ainda não terminei.

—Terminou.

—Rafa, quanto tempo ficarei fora?

Ele me encarou por alguns segundos. Estar sozinha com ele assim, tão perto, me trouxe agridoces lembranças. Memórias secretas de segredos proibidos.

—Ainda não sabemos.

Descemos pela escada de serviço e alcançamos a garagem dos funcionários. Saímos de carro, virei-me para a mansão. Agentes atravessavam o portão principal. Havia três drones.

—Que droga, Rafa, você é o maldito segurança dele! Por que não traz papai conosco?

—Ele precisa estar onde esperam encontrá-lo.

—E o que vamos fazer?

—Eu tenho ordens de cuidar de você.

Detestei quando meu coração disparou.

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