Capítulo 9 Talvez ele soubesse e simplesmente não se importasse.
Ponto de vista de Elara
Damian caminhava ao meu lado, seu porte alto bloqueando a maior parte da brisa do mar.
Minhas emoções eram um emaranhado.
Eu parei e empurrei a cadeira de rodas para trás de uma grande formação rochosa.
O lugar ficava abrigado do vento, e a luz do sol ainda nos alcançava ali.
— Vamos parar aqui — disse Vivian, baixinho.
Ela virou o rosto na minha direção, oferecendo um sorriso fraco, porém delicado.
— Obrigada, Elara. Você empurrou tão suavemente... eu não senti nenhum solavanco.
Ignorei a gratidão dela, soltei as manoplas e recuei dois passos, enfiando as mãos de volta nos bolsos.
Damian lançou um olhar para mim, a testa franzindo de leve, como se meu jeito frio o irritasse.
Mas não disse nada.
Apenas se abaixou e ajeitou a manta sobre o colo de Vivian.
— Vou pegar um pouco de água morna no carro — disse Damian a Vivian, a voz suavizando.
— Tá bom — respondeu Vivian, com um aceno obediente.
Damian se virou e seguiu em direção ao Maybach estacionado à distância.
Eu fiquei na sombra da rocha, observando as ondas quebrarem ritmadas na praia.
Então, sem aviso, passos apressados soaram mais à frente, na areia.
Antes que eu conseguisse entender o que estava acontecendo, a voz de Vivian disparou, aguda e estridente, estilhaçando o silêncio.
— Caleb?!
Vivian se ergueu num sobressalto na cadeira de rodas.
A concha cor-de-rosa que ela segurava caiu na areia e rolou alguns metros para longe.
O rosto dela ficou pálido como um fantasma quando virou a cabeça depressa, a voz tremendo de pânico.
— Damian! — ela gritou para a figura que se afastava, a voz falhando de terror. — O Caleb sumiu!
O grito de Vivian rasgou a quietude da praia.
Segui o olhar horrorizado dela, e meu coração travou no peito.
Lá fora, na água cinza-azulada, Caleb — que brincava no raso instantes antes — agora estava preso na parte funda.
As correntes de retorno da costa da Califórnia eram notoriamente cruéis.
Uma onda bateu nele e o arrastou para fora mais de nove metros.
Só a cabecinha dele ainda ficava visível, subindo e descendo desesperada na arrebentação revolta.
— Caleb!
Damian deixou cair a garrafa de água que carregava e disparou em direção ao oceano como um predador solto.
Ele nem tirou o paletó antes de avançar para dentro d’água, pronto para mergulhar.
Então Vivian soltou um grito agudo de dor e tombou para fora da cadeira de rodas.
— Tá doendo... Damian! — Ela desabou na areia, segurando o tornozelo.
Sangue vermelho-escuro escorria entre os dedos dela, manchando a areia branca embaixo.
Ela parecia ter pisado num pedaço afiado de recife quebrado.
Ela agarrou a barra da calça de Damian com as duas mãos, os olhos cheios de lágrimas frágeis.
— Meu pé... tá cortado. Dói demais. Eu não consigo ficar de pé...
Os passos de Damian pararam de repente.
Ele olhou para Vivian no chão.
Naquele único segundo de hesitação, eu arranquei o cardigã e me atirei na água gelada sem pensar duas vezes.
Eu não me importava com como Caleb tinha me xingado naquela manhã, nem com o quanto ele me odiava.
Ele ainda era a criança por quem eu quase sangrei até a morte na mesa de cirurgia, aquela que eu passei sete horas agonizantes trazendo ao mundo.
Eu não podia simplesmente ficar ali e vê-lo morrer.
O mar estava congelante, roubando o calor do meu corpo instantaneamente.
Eu nadei com força em direção a Caleb.
Ele já tinha engolido vários goles de água do mar.
O rosto estava pálido de morte, os bracinhos se debatendo descontrolados acima da superfície.
— Caleb, não fica com medo! A mamãe tá aqui!
Eu o alcancei e tentei passar meus braços por baixo dos dele por trás, mas ele se agarrou a mim como um animal se afogando.
Para uma criança de quatro anos, a força que ele reuniu no pânico era assustadora.
Ele se enrolou em mim — braços, pernas, tudo — e me empurrou para baixo d’água com todo o peso.
— Para... Caleb, solta... eu não consigo te manter na superfície assim...
A água salgada invadiu meu nariz e minha garganta.
Eu tinha sido mantida protegida por cinco anos como se não fosse nada além de um receptáculo.
Eu não tinha fôlego para esse tipo de esforço.
Minhas forças se esgotaram rápido.
O coração no meu peito — aquele que nunca tinha sido de verdade meu — começou a bater de forma irregular, enviando uma dor aguda, rasgando minhas costelas.
Tentei arrancar as mãos dele do meu pescoço, mas o aperto era de ferro.
Outra onda desabou sobre nós, e eu afundei completamente sob a superfície.
A asfixia tomou conta de tudo.
Eu encarei a luz distorcida filtrando pela água enquanto meu corpo descia, minha consciência se apagando.
Eu pensei: talvez isso fosse justiça.
Eu tinha dado à luz um filho que me odiava, tudo por um homem que não me amava.
E agora eu ia morrer diante dos dois, deixando esse coração intacto para a mulher que ele realmente queria.
Eu não estava pronta para aceitar isso.
Assim que achei que ia me afogar nessas águas da Califórnia, uma força poderosa rompeu a superfície.
Uma mão áspera e forte se fechou no meu braço.
Outra mão arrancou Caleb de cima de mim com eficiência brutal.
O cheiro familiar de cedro frio, misturado à salmoura do oceano, me envolveu.
Damian prendeu um braço na minha cintura e puxou nós dois — mãe e filho — para fora da água.
De volta à praia, desabei na areia, tossindo violentamente.
Parecia que eu estava expulsando tudo o que havia dentro de mim, inclusive bile.
Cada órgão do meu corpo gritava de dor.
Damian jogou Caleb para um dos seguranças e então caiu de joelhos ao meu lado.
Ele estava encharcado, a camisa preta colada às linhas duras do corpo.
Seus olhos azul-gelo estavam injetados de sangue, cheios de algo perto de uma fúria descontrolada.
Quando me viu ali, meio inconsciente, ele agarrou meu queixo e forçou minha cabeça para trás.
Beliscou meu nariz, se inclinou e pressionou a boca na minha.
Ele estava me fazendo respiração boca a boca.
O ar foi empurrado para dentro dos meus pulmões.
Seus movimentos eram ásperos, urgentes e completamente dominadores.
A respiração irregular dele roçou meu rosto, e eu senti a mão dele tremer de leve.
Empurrei com força o peito dele e virei o rosto, arfando por ar fresco.
— Você enlouqueceu?! — Damian rosnou entre os dentes cerrados, a voz rouca e perigosa. — Quem mandou você entrar na água? Você tem ideia do que esse tipo de esforço faz com o seu coração?!
Claro. Ele estava preocupado com o coração da Vivian.
Eu não respondi.
Apoiei as mãos na areia e me sentei.
Perto dali, Caleb cuspiu alguns goles de água do mar e se recuperou rápido.
Ele nem olhou para mim.
Em vez disso, se desvencilhou do aperto do segurança e cambaleou até Vivian.
Ele abriu a mão direita, que esteve fechada em punho o tempo todo.
Na palma, havia uma rara concha de vieira roxa.
— Mamãe Vivian, olha! Eu fui lá pegar isso pra você — foi por isso que a água me puxou! — Caleb estendeu a concha como um tesouro, a voz ainda engasgada de choro, mas cheia de uma ânsia desesperada de agradar. — Não chora. Eu não me machuquei.
Vivian o puxou para os braços, os olhos avermelhados, a voz falhando.
— Caleb, você me assustou até a morte. Se alguma coisa tivesse acontecido com você, eu não sei como eu teria continuado…
Que cena comovente de devoção materna.
Eu estava encharcada até os ossos, tremendo incontrolavelmente no vento frio.
Olhei para a criança que eu quase morri para salvar, e a última faísca de calor dentro de mim se apagou por completo.
Caleb virou a cabeça e me lançou um olhar cheio de veneno.
— Ninguém pediu pra você me salvar! Você devia ter cuidado da sua vida! Você me machucou na água. Você é uma pessoa ruim!
Encarei aqueles olhos azuis cheios de ódio e não disse nada.
Apenas forcei minhas pernas rígidas a se moverem, caminhando passo a passo em direção a Vivian.
Vivian ergueu o olhar para mim, ainda mantendo aquela expressão lastimosa.
— Elara, obrigada por salvar o Caleb. Eu machuquei o pé agora há pouco e não consegui parar o Damian, senão ele teria sido o primeiro a…
Não deixei que ela terminasse.
Ergui a mão e dei um tapa no rosto dela com tudo o que ainda me restava.
O estalo seco do tapa ecoou pela praia.
Todo mundo congelou.
Os seguranças de terno preto instintivamente levaram a mão às armas, mas com Damian presente, nenhum deles ousou se mexer.
A cabeça de Vivian virou de lado com o impacto.
Cinco marcas vermelhas e vivas floresceram na bochecha pálida dela.
Ela levou a mão ao rosto, me encarando sem acreditar, enquanto as lágrimas desciam.
— Elara! Você perdeu o juízo?!
Damian se ergueu num salto e se colocou na frente de Vivian, o corpo imponente bloqueando-a por completo.
Ele olhou de cima para mim, a expressão sombria e assassina, todo o peso da autoridade dele como chefe da máfia irradiando como uma força física.
— Quem diabos te deu permissão pra encostar nela?
Eu olhei para o homem que eu amei por cinco anos.
Olhei para o jeito como ele protegia outra pessoa.
E sorri — frio, amargo, carregado de desprezo.
— Vocês são todos iguais. Cães sem coração, cada um de vocês.
Sustentei o olhar dele, minha voz baixa, mas cortante, esmagando cada grama da devoção que eu desperdicei com ele nos últimos cinco anos.
Eu nunca deveria ter te salvado naquela praia.
Pensei que, se eu não tivesse me metido naquele dia, talvez eu nunca tivesse me apaixonado por ele.
Talvez eu não tivesse precisado suportar toda essa dor.
Virei para ir embora, mas antes que eu desse dois passos, um aperto brutal se fechou no meu pulso.
A pressão foi tão intensa que eu achei que meus ossos iam estalar.
Damian me puxou de volta.
Ele me encarou, aqueles olhos azuis frios e controladores agora revolvendo algo violento e indecifrável.
— O que foi que você disse?
