Capítulo 6 Eu não quero você!
Ponto de vista de Elara
O trovão ribombou do lado de fora da janela, e o relâmpago ameaçou partir a Montgomery Manor ao meio, limpinho.
Encolhi-me no canto mais distante da cama, o suor frio encharcando a seda da minha camisola.
O pesadelo se enrolou em mim como uma rede sufocante, esmagando minha garganta.
No sonho, tudo estava manchado de um vermelho ofuscante.
Luzes cirúrgicas incidiam sobre o meu rosto, frias e impiedosas.
Damian estava de pé sobre mim, de camisa preta, segurando um bisturi, a expressão vazia enquanto cortava meu peito.
Atrás dele, Caleb batia palmas e comemorava: “Isso! A mamãe Vivian finalmente vai ganhar o coração novo dela!”
Tentei gritar, implorar para que parassem, mas nenhum som saiu.
A agonia de ter meu coração arrancado do peito me consumiu.
Eu me debatia contra aquilo até que, de repente, um par de braços me envolveu — firme, frio, trazendo o cheiro de chuva e cedro.
O peito pressionado contra mim era largo e inflexível.
Um braço forte circundou minha cintura, puxando-me para junto de uma fonte de calor que parecia ao mesmo tempo perigosa e inexplicavelmente segura.
“Elara.”
A voz acima de mim era baixa e áspera, um pouco sem fôlego.
Acordei sobressaltada, arrancando-me daquele sonho sufocante.
No clarão branco do relâmpago atravessando a janela, distingui a linha dura do maxilar dele e a cicatriz familiar cortando sua sobrancelha.
Ele tinha voltado do hospital.
Antes, por pior que ele tivesse me ferido, se chegasse em casa e me abraçasse assim, eu teria me comovido até as lágrimas.
Eu teria me convencido de que, em algum lugar lá no fundo, ele ainda se importava.
Mas agora, o alarme na minha cabeça soou alto e claro: doadora de coração.
Ele não estava aqui para consolar a esposa.
Estava aqui para monitorar o futuro coração de Vivian.
Os médicos tinham sido explícitos — a doadora não podia ficar estressada nem assustada.
Empurrei-o para longe como se tivesse me queimado, com um movimento tão violento que senti a dor do hematoma na parte baixa das minhas costas, do incidente de ontem no hospital, latejar.
Damian claramente não esperava resistência.
O aperto dele afrouxou o suficiente para eu jogar as cobertas para o lado e me atrapalhar para fora da cama.
Nem me dei ao trabalho de procurar chinelos; meus pés descalços bateram no carpete gelado enquanto eu me afastava, os olhos cautelosos e distantes.
“Que porra você está fazendo?” A voz dele baixou, carregada de desagrado.
Ele se sentou na beira da cama, os olhos azul-gelo presos em mim na penumbra, como um predador cujo território tinha sido invadido.
Não olhei para ele.
Fui até o closet e peguei um robe fino.
“Vou dormir no quarto de hóspedes.”
Eu mal tinha dado dois passos quando a mão dele se fechou no meu pulso como um torno.
Ele puxou com força, e eu perdi o equilíbrio, caindo de volta na cama.
Antes que eu pudesse reagir, o corpo dele cobriu o meu, me prendendo com o peso.
Ele prendeu meus dois pulsos com uma mão só e os forçou acima da minha cabeça.
A palma dele era áspera e quente, o tipo de mãos que seguraram armas por anos.
A pura dominância de um chefe da máfia irradiava dele, sem filtro.
“Que porra você está aprontando no meio da noite?”, ele rosnou, o hálito quente contra a minha bochecha, os olhos em chamas de fúria.
“Fazer cena no clube não foi o bastante? Agora você quer camas separadas? Elara, você acha que eu tenho sido bonzinho demais com você?”
Ele achava que eu estava fazendo joguinho.
Estava acostumado com a minha submissão, acostumado comigo me agarrando a ele como hera numa parede.
Qualquer resistência da minha parte soava, para ele, como busca por atenção.
Eu não lutei.
Fiquei ali sob ele, olhando para o rosto que eu tinha amado por cinco anos.
Sem lágrimas. Sem histeria. Nem muita dor mais.
— Não estou brincando — eu disse, e minha voz soou estranha até para mim: calma demais, distante demais.
Damian soltou uma risada fria, os lábios se curvando num sorriso de deboche.
Ele não acreditou em mim.
Encarei seu olhar afiado de frente.
— Eu sei o quanto esse coração é importante para a Vivian. Os médicos disseram que o doador não pode ter reações emocionais extremas, precisa dormir o suficiente e manter o humor estável. Dormir ao seu lado me mantém acordada. Isso faz mal para o coração. No quarto de hóspedes, eu vou dormir melhor. Eu prometo manter esse coração em perfeitas condições até o mês que vem.
As palavras o atingiram como um tapa no rosto.
O corpo inteiro dele ficou rígido.
A fúria nos olhos vacilou e se apagou, substituída por algo perto do choque.
Ele me encarou como se procurasse algum traço de manipulação, mágoa ou fingimento.
Não havia nenhum.
Eu o encarei de volta com a mesma calma, como um produto assegurando ao comprador o controle de qualidade.
Os músculos do maxilar dele trabalharam com força, o pomo de adão subindo e descendo quando ele engoliu em seco, mas nenhuma palavra saiu.
Todo aquele autocontrole do qual ele se orgulhava não tinha onde se agarrar diante da minha obediência racional.
O silêncio era sufocante.
Por fim, ele soltou meus pulsos e saiu de cima de mim.
Ficou me olhando por mais alguns segundos, a expressão indecifrável, antes de se virar e sair a passos largos do quarto.
A porta bateu atrás dele com um estrondo ensurdecedor.
Sentei devagar, alisei a roupa e caminhei com calma até o quarto de hóspedes no fim do corredor.
Não muito depois, o mordomo bateu de leve, trazendo numa bandeja uma tigela fumegante.
— Senhora Montgomery, o senhor mandou a cozinha preparar este tônico para dormir para a senhora. — O tom dele era respeitoso, os olhos baixos.
— Ele me instruiu a garantir que a senhora beba.
Olhei para a tigela e não recusei.
Peguei-a e bebi tudo de uma vez.
Se eu ia embora no mês que vem, eu precisava estar em condições máximas.
Nos próximos trinta dias, eu não podia me dar ao luxo de cometer nenhum erro com a minha saúde.
Na manhã seguinte, eu não acordei às seis e meia como vinha fazendo nos últimos cinco anos.
Não fui à cozinha supervisionar o café preto do Damian.
Não separei o terno dele para a reunião do sindicato.
Não preparei o café da manhã sem alérgenos do Caleb.
Dormi até as oito.
Depois de me lavar e vestir uma roupa casual confortável, desci as escadas num ritmo tranquilo.
O clima na sala de jantar estava tenso.
Damian estava sentado na cabeceira da mesa comprida, com uma camisa cinza-chumbo, a gola um pouco aberta, a expressão fria enquanto passava por alguma coisa no tablet.
O café à sua frente estava intocado.
Caleb estava na cadeirinha, empurrando um potinho de remédio e protestando alto.
— Eu não quero! É muito amargo! Eu quero o de morango! — Ele jogou a colher, espirrando leite pela mesa.
Ele teve uma reação alérgica grave ontem, então o médico prescreveu anti-histamínicos por via oral.
O remédio tinha um gosto absolutamente horrível.
No passado, eu teria esmagado os comprimidos até virar pó e misturado no purê de maçã favorito dele, convencendo-o a cada colherada.
Se ele sequer franzisse a testa, eu sofreria por ele.
Quando Caleb me viu descendo as escadas, os olhos dele se iluminaram por um instante.
Então ele ergueu o queixo e aumentou a voz de propósito, num tom manhoso.
— Eu quero que a mamãe Vivian me dê! Eu não quero você!
Ele provavelmente esperava que eu corresse até ele e o convencesse com paciência como sempre, ou talvez que eu ficasse magoada quando ele mencionasse o nome da Vivian.
