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Capítulo 4 Tudo por outra mulher

Ponto de vista de Elara

Ele fez um gesto para eu descer. Aquela mão carregava uma ordem inegável.

Olhei para ele; o álcool deixava meu cérebro lento, mas também me dava uma coragem sem precedentes. Agarrei o poste de aço gelado e dei um passo para trás.

— Não.

Suspiros percorreram a multidão.

Ninguém ousava desafiar o padrinho da família Montgomery, ainda mais quando ele estava claramente furioso. Os homens armados ao nosso redor baixaram a cabeça; até a respiração deles ficou deliberadamente silenciosa.

Os olhos de Damian se estreitaram, perigosos. Ele não desperdiçou palavras. Com uma passada longa, subiu ao palco. Sua figura imponente me lançou na sombra de imediato, e aquele cheiro de pólvora e abeto me envolveu.

— Elara, minha paciência tem limites. — A voz dele era baixa, mal contendo a violência.

Inclinei a cabeça para trás, encarando seu olhar frio.

Ele estava com medo, não estava? Medo de eu me esforçar demais, medo de que algo me acontecesse num lugar como aquele e danificasse as “peças de reposição” da mulher amada dele. Afinal, o médico tinha avisado que esse coração precisava da manutenção mais cuidadosa.

— Não encosta em mim! — Afastei a mão dele com um tapa.

Mas ele não me deu chance de escapar. A palma áspera se fechou no meu pulso, com uma força que quase esmagou o osso. Ele puxou com violência, e eu perdi o equilíbrio, batendo no peito sólido dele.

— Me solta! — Lutei desesperadamente, meus punhos socando o torso musculoso dele, mas era como bater numa parede.

— Já terminou sua birra? — Ele prendeu as minhas duas mãos atrás das costas com uma só mão; com a outra, segurou meu queixo e me obrigou a olhar para cima. Os olhos dele estavam cruelmente escuros. — Você faz ideia de que seu corpo não aguenta esse tipo de esforço? As minhas palavras não significaram nada pra você?

Meu corpo.

Não. O coração da Vivian.

Uma onda de luto e raiva subiu do fundo do meu peito. O álcool ferveu no meu sangue, cortando o último fio de racionalidade. Cinco anos de humilhação, degradação e autoengano se cristalizaram numa piada cósmica.

Com os olhos ardendo, eu gritei para ele:

— Eu vou morrer de qualquer jeito! Que diferença faz se eu me soltar uma vez?!

No instante em que aquelas palavras saíram da minha boca, o silêncio ao nosso redor se tornou absoluto.

A mão de Damian no meu queixo enrijeceu.

Eu vi com clareza a fissura que se abriu na violência do olhar dele. As íris azul-gelo tremularam com uma confusão que nem ele reconhecia. A respiração dele falhou, os músculos do peito se contraíram, e a mão que me prendia tremeu de leve.

Ele não falou de imediato; apenas me encarou como se nunca tivesse me visto antes.

Olhando para ele assim, de repente eu quis rir.

Ele estava se sentindo culpado? Ou achava que eu estava usando a morte para ameaçá-lo, desafiando a autoridade dele como padrinho da máfia?

— O que foi? Com medo de eu morrer em algum lugar que não seja na mesa de cirurgia e a sua Vivian ficar sem um coração pra usar? — Eu ri com frieza, embora as lágrimas me traíssem, caindo no dorso da mão dele.

Aquela lágrima pareceu queimá-lo. Ele soltou meu queixo de supetão.

Mas não me soltou.

A confusão sumiu na mesma hora, substituída por uma necessidade de controle ainda mais fria.

— Cala a boca. — A voz dele saiu perigosamente rouca.

No segundo seguinte, o mundo girou.

Ele se abaixou e me ergueu com brutalidade, jogando-me por cima do ombro largo.

— Damian! Me põe no chão! Seu desgraçado! — Pendurada de cabeça para baixo no ombro dele, com o álcool revirando meu estômago, eu só conseguia chutar inutilmente as costas dele.

Ele caminhou em direção à saída como se não sentisse dor.

— Solta a Elara! — Marry correu do camarote, mas dois seguranças de terno preto e óculos escuros bloquearam o caminho dela imediatamente.

— Damian, você não pode fazer isso com ela! — Marry gritou atrás de nós.

Damian nem virou a cabeça; largou uma única frase, gelada:

— Vigia ela. Se ela levar a Elara a um lugar desses de novo, eu boto tudo abaixo.

Ele me enfiou no banco de trás do Maybach preto blindado. A porta travou.

Ele entrou no banco do motorista e afundou o pé no acelerador. O carro disparou pela noite como uma flecha.

A pressão dentro do veículo era sufocante.

Eu me encolhi no canto do banco de trás, vendo os postes de luz se borrando pela janela, enquanto as lágrimas escorriam em silêncio pelo meu rosto.

Ele nem perguntou por que eu estava chateada, por que eu tinha bebido. Só se importava em saber se este corpo tinha sido danificado, se a cirurgia do mês que vem poderia seguir o cronograma.

O carro rasgou as ruas e, por fim, parou diante dos portões da propriedade Montgomery.

Damian escancarou a porta e me puxou para fora. Minhas pernas estavam fracas, e ele me arrastou e me carregou ao mesmo tempo para dentro do grande saguão.

O saguão estava inundado de luz.

Antes que eu conseguisse me firmar, uma figurinha desceu correndo as escadas.

— Sua mulher horrível!

Caleb, de pijama, com o rostinho vermelho. Instintivamente, estendi a mão para abraçá-lo, achando que ele tinha se assustado por acordar e não me encontrar.

Mas ele veio direto para cima de mim e chutou minha canela com força.

Já tonta de álcool, perdi completamente o equilíbrio e caí no mármore gelado. Meus joelhos arderam de dor, mas não era nada comparado à agonia no meu peito.

— Caleb! — Damian franziu a testa, estendendo a mão para conter o filho.

— Papai! — Caleb se agarrou à perna de Damian, apontando para mim e gritando, com a voz cheia de mágoa e fúria. — É tudo por culpa dela! Porque você foi atrás dela, o coração da mamãe Vivian doeu hoje à noite. Ela estava com tanta dor que estava chorando, mas não teve coragem de ligar e te incomodar!

Minha cabeça zuniu, o som oco reverberando.

Eu me sentei no chão, olhando para o filho que eu carreguei por dez meses.

O jeito como ele me olhava — como se eu fosse sua inimiga mortal.

— A mamãe Vivian é tão coitadinha. Por que você fica correndo por aí e deixando o papai bravo? Você faz de propósito! — A voz infantil de Caleb ecoou pelo saguão vazio, cada palavra uma lâmina acertando em cheio meu coração.

— Você não sabe quanto tempo a mamãe Vivian sofreu sozinha porque não queria incomodar o papai? Você é tão malvada! Eu te odeio!

Eu encarei ele, vazia.

Esse era o filho que eu amei e protegi com tudo o que eu tinha. Eu abandonei minha carreira de Avaliadora de Joias de ponta por ele, aguentei a violência fria de Damian por ele, sobrevivi cinco anos nessa família sem amor por ele. Eu vinha me arrastando no limite havia anos — secretária de Damian de dia, dona de casa à noite, sem um minuto que fosse realmente meu. Eu fazia a papinha dele à mão, virava noites inteiras quando ele ficava com febre.

E agora ele me repreendia por eu não ficar quieta em casa, esperando morrer, tudo por causa de outra mulher.

De repente, eu já não tinha forças nem para explicar.

A pequena chama de rebeldia que o álcool tinha me dado foi apagada por completo por essa água gelada, deixando só cinzas.

Virei o rosto para Damian.

Ele estava ali, imponente sobre mim, o paletó preto já jogado fora havia tempo, a gola da camisa um pouco aberta, revelando as tatuagens cruéis que atravessavam seu peito. Seus traços esculpidos pareciam ainda mais duros sob o lustre de cristal.

Ele não interrompeu o ataque irracional de Caleb. Não me ajudou a levantar.

Apenas me encarou com aquele olhar de quem sabe de tudo, debochado.

— Então foi disso que se tratou o seu teatrinho de hoje à noite? — A voz de Damian era glacial.

Eu congelei.

— O quê?

Ele olhou para mim de cima, os olhos azuis cheios de nojo e impaciência. — Você foi de propósito àquele clube, fez de propósito para que os meus homens me avisassem, tudo para me obrigar a sair do hospital, para me fazer abandonar a Vivian?

Eu encarei, sem acreditar.

Para ele, meu desespero, meu colapso, minha imprudência — era tudo só um truque para chamar atenção. Ele achava que eu tinha feito tudo isso apenas para fazê-lo me notar.

— Elara. — Ele se inclinou um pouco, os dedos ásperos agarrando meu queixo e me obrigando a encarar seus olhos frios.

— Eu te avisei. Minha tolerância tem limites. — A voz dele baixou para um sussurro letal, carregando toda a crueldade e o aviso. — Guarde esses seus esqueminhas patéticos para chamar atenção. O corpo da Vivian não aguenta nenhum contratempo. Se os seus ataques de birra causarem qualquer mal a ela...

Ele fez uma pausa, o olhar afiado como uma faca.

— Eu vou fazer você se arrepender de cada escolha que já fez.

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