O Don da Máfia Implora para Eu Voltar

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Capítulo 3 Eu vou desaparecer no dia da cirurgia.

Elara

Quando voltei, Caleb já estava no chão, o rostinho inchado num roxo escuro, manchado.

Meu corpo se mexeu antes que meu cérebro conseguisse acompanhar. “Caleb!”

Caí de joelhos e segurei o rosto dele entre minhas mãos trêmulas. A pele dele ardia, a respiração era curta e acelerada — anafilaxia, as vias aéreas estavam fechando.

Girei para encarar Damian. “O que você deu pra ele?!”

Uma veia pulsava na têmpora dele, e aquela mão — a mesma que um dia já tinha quebrado o pescoço de um homem sem hesitar — tremia de forma incontrolável.

“Hoje de manhã... só um doce hoje de manhã.”

“Que tipo de doce?! Tinha uva-passa?!”

Ele me encarou, paralisado.

“Ele é alérgico a uva-passa — você não sabia disso?!” Eu gritei na direção da porta. “Chamem um médico! Alguém chama um médico, agora!”

A enfermeira enfim saiu do choque e disparou para fora do quarto. Estávamos na ala VIP de cardiologia — pneumologia ficava em outro prédio. Mesmo correndo o mais rápido possível, levaria vários minutos para alguém chegar.

Arranquei o colarinho da roupa do Caleb, virei-o de lado e revirei minha bolsa em pânico, procurando o injetor que eu sempre carregava. Caleb era alérgico a tudo desde que nasceu. Quando tinha um ano, comeu pasta de amendoim por engano e quase morreu. Depois disso, nunca mais saí de casa sem uma caneta de epinefrina.

Enfiei a agulha na coxa dele e vi a respiração, devagar, dolorosamente, começar a se estabilizar. Quando o médico entrou correndo pela porta, toda a força já tinha escoado do meu corpo.

No pronto-socorro, o médico guardou o estetoscópio no bolso do jaleco. “Você pegou a reação cedo, e sua intervenção foi perfeita, de manual. Mais alguns minutos e estaríamos tendo uma conversa bem diferente. Ele vai precisar ficar na pediatria em observação — no mínimo três dias.”

Damian e eu soltamos o ar ao mesmo tempo.

Na ala pediátrica, Caleb continuava dormindo, o rosto ainda pálido como papel. Ele era meu filho, afinal — meu sangue, minha carne.

Olhei para ele, e alguma coisa se retorceu dolorosamente dentro do meu peito.

“O corpo dele precisa descansar”, disse o médico. “Durante a internação, a dieta vai exigir um monitoramento extremamente cuidadoso.”

Damian olhou para mim. “Você vai ter que cuidar dele enquanto deveria estar internada também. Isso é... inconveniente. Então.”

Ele fez uma pausa, como se escolhesse as palavras com cuidado.

“Seus exames foram adiados. Uma semana.”

Eu não tinha mais nada a dizer a ele.

Naquela tarde, fui para casa e fiz sopa para o Caleb. Apesar de tudo o que ele tinha me dito de manhã, eu não podia simplesmente abandoná-lo. Nenhuma mãe consegue, de verdade, virar as costas para o próprio filho, por mais que doa.

Algumas horas depois, voltei ao hospital com uma garrafa térmica na mão. A cama do Caleb estava vazia. Eu nem precisava adivinhar para onde ele tinha ido.

No último andar, a porta do quarto de Vivian estava entreaberta.

Antes mesmo de eu conseguir entrar, eu vi — aquele tipo de cena que faz o sangue virar gelo nas veias.

Damian estava de costas para a porta, ombros largos afunilando até uma cintura estreita. Vivian estava sentada diante dele e, de onde eu estava, o ângulo não deixava dúvida — eles estavam se beijando.

Meus dedos apertaram a garrafa térmica até os nós dos dedos ficarem brancos.

A voz do Caleb soou alegre, vinda de algum lugar lá dentro. “Isso é perfeito! A tia Vivian finalmente pode ser minha mãe de verdade!”

“Agora a gente pode morar junto e ser feliz! Finalmente longe daquela velha bruxa.”

Fiquei ali, congelada, com a visão embaçando nas bordas.

Naquele momento, eu entendi. A minha existência era um erro. Mas, em breve, eles teriam o que queriam — uma família de verdade. Sem mim.

Deixei a garrafa térmica no chão, do lado de fora da porta, e caminhei dura até o elevador.

De volta à propriedade, fiquei sentada sozinha no escuro por horas, ou pelo menos pareceu.

Quando meu telefone finalmente tocou, era Marry.

“Elara, você ainda tá respirando?” A voz dela era afiada e vibrante. “Nem pense em me dizer que você vai ficar em casa brincando de dona de casa. Sai daí. Agora.”

Eu não disse nada.

“Querida?”

“...Vem me buscar.”

Quarenta minutos depois, Marry parou lá fora. Ela baixou o vidro, revelando um rosto feito de ângulos marcados e cor forte. Quando me viu, uma sobrancelha perfeitamente desenhada se arqueou. “Jesus. Você tá pior do que a minha avó, e ela tá morta há três meses.”

Entrei no carro sem dizer uma palavra. Marry não insistiu — apenas nos levou direto para um clube no centro.

No nosso camarote, ela deslizou um drinque pela mesa na minha direção. “Fala.”

Virei metade do copo num gole só, ardendo, e deixei tudo sair.

Quanto mais eu falava, mais os olhos de Marry se arregalavam, até que, por fim, ela se levantou de supetão, a fúria irradiando dela em ondas. “Aquele desgraçado acha mesmo que é Deus, né? Decidindo quem vive e quem morre?!”

As pessoas nas mesas próximas se viraram para olhar. Ela encarou de volta. “O que foi que vocês estão olhando?!”

Marry se virou de novo para mim, o peito subindo e descendo. “Quando você quase morreu de hemorragia dando à luz o Caleb, onde diabos estava o Damian? Quando o Caleb foi internado com um ano e você ficou três dias seguidos sem dormir, onde ele estava? E agora ele quer o seu coração?”

“Por que ele não arranca o próprio coração e dá pra ela?!”

Tomei mais um gole, sentindo o álcool queimar até o fundo.

“Elara.” Marry agarrou minha mão, com uma força quase dolorida. “Você está falando sério que vai dar seu coração praquela mulher?”

“Não.” Minha voz saiu reta, sem emoção. “Eu já comprei uma passagem. Mês que vem.”

“E a cirurgia...”

“No mesmo dia.”

Ergui os olhos para encontrar os dela.

“Ele acha que eu vou estar deitada numa mesa de operação naquele dia. O que ele não sabe é que eu vou ter ido embora.”

A expressão de Marry mudou e, de repente, ela abriu um sorriso, batendo no meu ombro com força suficiente para arder. “Aí está ela! Essa é a Elara que eu conheço!”

Ela me serviu outro drinque.

Dois copos depois, o calor já se espalhava por nós duas, afrouxando alguma coisa que tinha ficado apertada demais por tempo demais.

“Vamos!” Marry me puxou de repente para fora do camarote. “Chega de falar dessa porcaria hoje. Você vai subir lá!”

“Subir aonde?”

Ela apontou com o queixo para o palco, onde mulheres se moviam sinuosas em torno de barras cromadas, e o sorriso dela ficou maldoso. “Lá. Deixa eles verem quem a Elara realmente é.”

Antes que eu pudesse protestar, Marry já estava me arrastando até o palco, meio puxando, meio me empurrando para a frente.

O álcool queimava quente nas minhas veias e, talvez por tudo que vinha me esmagando ultimamente, alguma coisa dentro de mim estalou. Minha cabeça ficou leve e, quando vi, eu já estava subindo na plataforma.

A música era alta e primal. Eu me movi sem pensar, deixando meu corpo se enroscar na barra, deixando tudo o que eu vinha segurando transbordar em movimento.

Toda a raiva, a humilhação, o luto que eu vinha engolindo — tudo explodiu de algum lugar profundo nos meus ossos.

Os homens lá embaixo — sem camisa, tatuados, com cara de perigosos — gritavam e berravam, batendo palmas no ritmo.

Eu dancei com mais força, mais rápido, como se eu pudesse sacudir esse coração para fora do meu peito se me movesse violentamente o bastante.

Mas, em algum momento, o barulho cessou de repente.

Abri os olhos, de súbito consciente de como eu estava instável sobre as pernas. A multidão tinha se aberto como o Mar Vermelho, criando um caminho livre direto até o palco.

Um homem avançou — alto, todo feito de linhas duras e poder contido.

Terno preto. Traços talhados em pedra, com uma cicatriz antiga cortando uma sobrancelha e subindo até a linha do cabelo. Tatuagens subiam do colarinho e desapareciam sob o tecido caro, e ele carregava o cheiro inconfundível de violência, o tipo que gruda num homem por mais que ele esfregue.

O clube inteiro havia ficado em silêncio. Homens armados agora alinhavam as paredes, as mãos descansando com naturalidade sobre armas enfiadas nos cintos.

O homem não tinha dito uma palavra, não tinha levantado um dedo, mas a temperatura do ambiente parecia ter caído vinte graus.

Damian parou abaixo de mim, os olhos azul-gelo presos nos meus com uma intensidade capaz de fazer predadores do topo da cadeia se renderem e mostrarem o pescoço.

Era assim que ele ficava bem antes de alguém se machucar.

Mas eu não fazia ideia do motivo da raiva dele. Eu supus que ele estivesse preocupado que acontecesse alguma coisa com esse coração — o coração que ele precisava intacto para outra pessoa.

Talvez fosse o álcool, mas eu achei que já tinha ficado anestesiada para tudo isso. Ainda assim, ali parada, pensando no motivo real de ele ter vindo, senti meus olhos arderem com lágrimas que eu não conseguia segurar.

Através do borrão molhado, vi Damian erguer uma mão — nós dos dedos marcados, brutal e eficiente.

“Desce.”

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