Capítulo 1 O preço de um batimento cardíaco
Ponto de vista de Elara
Cinco anos dentro do meu casamento com a família criminosa Montgomery, eu finalmente descobri a verdade: Damian só se casou comigo para que eu entregasse, de bom grado, meu coração à preciosa Vivian dele.
Todos esses anos, ele me manteve sob os cuidados da melhor equipe médica, proibindo qualquer atividade extenuante.
Eu achei que ele se importava.
Só que ele se importava com o meu coração — só não do jeito que eu tinha imaginado.
Meus dedos se fecharam em torno do laudo de compatibilidade de órgãos, e meu corpo inteiro tremia de frio. Eu mal conseguia acreditar no que estava vendo.
Foi então que Damian entrou.
Uma camisa preta se esticava sobre o corpo poderoso dele, a gola aberta revelando tatuagens que serpenteavam do pescoço até o peito. Alto e esguio, ele trazia o cheiro de pólvora antes mesmo de a presença dele preencher o cômodo. Aqueles olhos azuis eram frios o bastante para congelar a espinha de qualquer um.
Aquele era o rei do submundo italiano. O Don mais jovem da história da família Montgomery. A organização dele, “The Gate”, controlava trinta por cento das rotas cinzentas de transporte marítimo pelo estreito. Os executores dele se espalhavam pelo país. Todo mundo nas ruas sabia: inimigos da família Montgomery ou acabavam no fundo das águas internacionais, ou simplesmente nunca mais eram encontrados.
Ele reparou no arquivo nas minhas mãos. Os olhos azuis se estreitaram e, em seguida, voltaram àquela expressão controlada e distante.
Ele se acomodou no sofá, pernas cruzadas, como um predador fingindo dormir. Sob o meu olhar, acendeu um charuto com lentidão deliberada. A brasa brilhou em vermelho, tremeluzindo na luz fraca.
— Então você sabe.
A voz dele saiu baixa e áspera.
Meu Deus, como eu queria que ele me desse uma explicação razoável.
Minha voz tremeu.
— Damian, isso é real?
— Sim.
Aquela única palavra despedaçou o último fiapo de esperança.
Eu cambaleei, e as palavras rasparam nos meus dentes ao sair.
— Então tudo... esses cinco anos... foi tudo falso?
— Não. Eu me esforcei de verdade para manter sua saúde. — Damian sacudiu a cinza do charuto, como se estivesse ponderando aquilo com seriedade. O tom continuou preguiçoso. — Eu te dei as melhores condições possíveis nesses últimos cinco anos. Você devia ter sentido isso.
Ele fez uma pausa, erguendo o olhar para encontrar o meu. Aqueles olhos que antes me encaravam com ternura agora não tinham nada além de gelo.
— Vivian recebeu hoje um aviso de estado crítico. A cirurgia está marcada para o mês que vem.
— Não se preocupe. Vou encontrar para você o melhor cemitério.
O mundo girou. Minhas pernas perderam a força.
— O que foi que você disse? Damian, você vai arrancar meu coração por outra pessoa e ainda me diz para eu não me preocupar?!
Ele franziu a testa, como se a minha reação fosse pateticamente ingênua.
— Claro. Os custos do tratamento contínuo da sua mãe... a família Montgomery vai cobrir tudo. E as despesas do intercâmbio do seu irmão, vou mandar alguém cuidar dos arranjos.
— Então eu sou só um recipiente para esse coração, é isso?
— Elara, eu acredito que você já recebeu mais do que o suficiente nesses anos. — O olhar de Damian ficou glacial. — Sem esse coração, você nunca teria tido a chance de se casar com a família Montgomery. Você desfrutou de anos de luxo. Está na hora de pagar de volta.
Parecia que todo o sangue tinha drenado do meu corpo.
Aquele homem de sangue-frio era mesmo a mesma pessoa das minhas lembranças?
— Isso não é real. — Eu não conseguia aceitar. Minha visão embaçou. — Damian, me diz que isso não é real. Você não é esse tipo de pessoa. Você não faria isso comigo...
De repente, ele encurtou a distância. O corpo enorme dele me pressionou com um calor perigoso. Ele levantou a mão, e as pontas dos dedos ásperas enxugaram as lágrimas do meu rosto.
Mas eu só chorei mais. Meu coração doía tanto que até as pontas dos meus dedos tremiam.
— Querida, você precisa entender... esse coração é desperdiçado em você.
Aquela frase me destruiu por completo. Eu agarrei a gola dele como uma louca.
—Este é o MEU coração! Eu nunca vou entregá-lo a ninguém!
—Como você se atreve a gritar assim com o meu pai?!
Uma voz infantil cortou meu colapso.
Caleb entrou correndo e me empurrou para longe.
Cambaleei para trás, a incredulidade me inundando.
—Caleb...
—Não chama meu nome! —Caleb gritou com aquela voz de menino. —Se você morrer, a Vivian vai melhorar e vai ficar com o papai, e eu vou poder chamar a tia Vivian de mamãe! Por que você não aceita?
Eu congelei.
Eu nunca imaginei que palavras tão cruéis pudessem sair da boca de uma criança de quatro anos.
Quando eu o dei à luz, tive um parto difícil, com uma hemorragia enorme. Passei sete horas inteiras na mesa de cirurgia.
Durante a recuperação do pós-parto, a dor me mantinha acordada noite após noite. Ele era carne do meu corpo, sangue do meu sangue. Como ele podia dizer uma coisa dessas?
—Caleb, por quê? Eu sou sua mãe...
—Você não é! —Os olhos de Caleb também ficaram vermelhos. —Você vive mandando em mim! Não pode comer isso, não pode beber aquilo... mas a mamãe Vivian nunca me proíbe de nada! Ela compra sorvete pra mim e me leva no parque de diversões!
Ele sempre teve a saúde frágil. Uma vez, comeu algo que não devia e acabou internado.
Por isso, eu mesma preparava as refeições dele todos os dias, sem falta. Toda vez que ele fazia birra querendo besteira, eu me obrigava a ser a vilã.
Eu achava que ele entenderia quando crescesse. Em vez disso, todo o meu cuidado virou facas que ele usava contra mim.
Ele fungou.
—Se você me amasse de verdade, você daria seu coração pra mamãe Vivian.
Toda a força abandonou meu corpo por causa dessas palavras.
Esse era o filho que eu quase morri para trazer ao mundo.
Esse era o menino que eu criei com um cuidado dolorosamente minucioso por quatro anos.
De repente, eu ri. O riso virou lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
Caleb pareceu assustado. Instintivamente, encolheu-se e se aproximou de Damian.
A palma larga de Damian pousou no ombro dele. Diante do filho, a violência no olhar dele amoleceu um pouco. Mas, quando me encarou, o frio voltou, sem um traço de calor.
—Elara, agora está tudo às claras. Não adianta fazer cena. Amanhã de manhã, vou providenciar sua internação no hospital. Isso não está em negociação.
Eu olhei para aqueles dois homens — as duas pessoas mais importantes da minha vida.
Senti como se fosse desabar.
Não sei quanto tempo fiquei ali parada até, por fim, colocar a pasta sobre a mesa com as mãos trêmulas.
—Tudo bem. Eu vou.
Os olhos de Caleb brilharam.
—Você aceitou?!
Damian pareceu surpreso com a minha concordância.
Mas logo voltou à rigidez fria de sempre.
—Uma decisão inteligente.
Eu o ignorei e caminhei em direção ao meu quarto, com os olhos vazios.
Nas paredes, havia retratos da família Montgomery e muitas outras fotos.
Nenhuma minha.
Três anos. Esta casa nunca pendurou uma única fotografia minha.
Eu costumava evitar pensar nisso. Agora eu percebi — a resposta sempre esteve escrita ali.
Voltei para o quarto e fechei a porta.
Fiquei sentada sozinha no escuro por um longo tempo, até pegar o celular e discar um número.
Quando a ligação completou, a voz de um homem de meia-idade veio do outro lado.
—Senhorita Sterling, você finalmente ligou.
Um mês atrás, eu tinha recebido uma proposta do exterior.
Avaliadora-chefe de joias.
Salário anual de um milhão de dólares. Mas, por causa desta família, eu recusei sem hesitar.
Porque eu achava que meu marido e meu filho não conseguiriam viver sem mim.
No fim, minha existência não passava de uma piada.
—Essa vaga ainda está disponível? —perguntei, direto.
—Claro. Você já se decidiu?
—Sim.
—Mas e o seu marido e o seu filho?
Encostei as costas na porta, ouvindo a voz alegre do meu filho do lado de fora. Meu coração parecia oco, perdido.
—Em breve, eles não vão ser mais.
