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Capítulo 5 Giovani Ferreti

A penumbra do quarto parecia absorver cada respiração descompassada, cada sussurro abafado contra os lençóis amassados. O calor na sala era quase tangível, uma mistura densa de perfume barato, uísque e a tensão inegável que Giovani Ferreti carregava consigo onde quer que pisasse. Ele não precisava de esforço para dominar um espaço; sua própria presença, a postura ereta e o olhar gélido e avaliador eram suficientes para subjugar qualquer um antes mesmo do primeiro toque.

A mulher à sua frente tremia, entregue ao ritmo que ele ditava, segurada firmemente pela cintura enquanto os dedos longos e fortes dele se enroscavam nos cabelos escuros dela. Havia uma intensidade brutal e ao mesmo tempo calculada em cada movimento seu. Giovani não se entregava completamente — ele mantinha o controle absoluto, observando a reação da mulher como quem avalia o efeito de uma dose forte de licor.

Ela soltou um suspiro entrecortado, a respiração batendo contra a pele dele, buscando um ponto de apoio que parecia inalcançável. Giovani, contudo, permanecia distante em seus próprios pensamentos. A quentura daquele momento servia apenas como uma distração passageira, um alívio momentâneo para a mente que nunca parava de calcular os passos de sua volta. Por um segundo, a imagem idealizada de um passado distante na Itália cruzou sua mente, mas ele a espantou com um franzir de testa imperceptível.

— Sim... goze — ele murmurou com a voz rouca, grave, emitida como uma ordem sutil que a fez estremecer por inteiro.

O som abafado que ela soltou em seguida ecoou pelas paredes do quarto modesto. Giovani a amparou quando a fraqueza atingiu as pernas dela, segurando-a com a firmeza de quem domina a situação do início ao fim. Observou o tremor que percorreu o corpo da mulher até que a respiração dela começasse, aos poucos, a recuperar o ritmo normal.

Sem pressa, ele se afastou, preenchendo os pulmões com o ar do ambiente enquanto a névoa do álcool e da adrenalina começava a baixar. Ajeitou a postura, lançando um olhar atento ao redor. O lugar era simples, quase decadente: paredes claras cobertas por um papel de parede desgastado, móveis escassos e uma iluminação fraca que mal disfarçava a poeira nos cantos. Nada ali lembrava o luxo e a sofisticação a que se acostumara em Seattle, mas para aquela noite, servira ao seu propósito.

Giovani pegou a calça e começou a se vestir com a calma metodológica de quem já estava com a cabeça em outro lugar.

A mulher continuou deitada por alguns instantes, observando a sombra imponente do homem à sua frente.

— Vai demorar por aqui, bonitão? — a pergunta surgiu carregada de uma curiosidade ingênua, acompanhada por um sorriso torto que borrava o batom escuro.

Ele fez uma pausa sutil enquanto ajeitava o cinto de couro, o olhar fixo no espelho empoeirado da parede.

— Depende — respondeu, a voz mantendo o tom baixo e aveludado. — Por quê?

— Faz tempo que alguém não me trata assim... adoraria ver você de novo — disse ela, arrastando-se pela cama até a borda, aproximando-se com os cabelos ondulados caindo bagunçados sobre os ombros.

Giovani deixou escapar um riso curto, um som seco e sem humor, achando a tentativa de aproximação quase infantil. Ele estendeu a mão e acariciou os fios escuros com uma facilidade calculada, mantendo a distância necessária para que ela soubesse exatamente onde era o seu lugar.

— Deseja estar comigo outras vezes? — indagou ele, inclinando ligeiramente a cabeça.

A mulher apoiou a mão contra o peito dele, buscando um calor que o tecido fino da camisa mal deixava passar, e suspirou fundo.

— Você vai voltar?

— Se o seu chefe deixar — provocou Giovani, deslizando a ponta dos dedos até o queixo dela, erguendo o rosto feminino para encará-la diretamente nos olhos.

— O Moretti só quer saber de dinheiro — ela desabafou, o tom de voz mudando para algo visivelmente amargurado. — Ele não se importa com quem vem ou quem vai.

A mágoa na voz dela era nítida, mas não encontrou ressonância em Giovani. No mundo em que ele fora criado, vulnerabilidade era um luxo que custava caro demais. Ele apenas continuou o gesto suave no queixo dela, indiferente ao drama alheio.

— Então eu volto, docinho.

— O que você faz da vida? — ela perguntou, o olhar preso ao dele antes de desviar para o chão, como se a resposta pouco importasse diante da aura de autoridade que ele emanava.

— Sou empresário, baby — respondeu ele, com um sorriso enigmático surgindo no canto dos lábios.

Satisfeito com o encerramento do momento, Giovani desfez o contato, libertando-a de sua presença sufocante. Terminou de abotoar o terno e puxou a carteira de couro do bolso interno do paletó.

— Quanto te devo?

— Cento e trinta euros.

Ele retirou duas notas de cem, entregando-as sem se dar ao trabalho de pedir o troco. A surpresa no rosto dela durou apenas até ele virar as costas em direção à saída, deixando-a para trás sem olhar novamente. Sabia que em questão de minutos aquele quarto estaria ocupado por outro cliente qualquer.

Ao descer os degraus de madeira rangente que levavam ao andar térreo, percebeu que a movimentação do estabelecimento já havia cessado. O tal Moretti não estava mais no balcão. Apenas Antoni esperava no sofá gasto do salão principal, visivelmente impaciente enquanto tentava desvencilhar-se da atenção indesejada de uma das frequentadoras do bar.

— Finalmente! — exclamou Antoni assim que viu Giovani despontar na escada, guardando o celular no bolso e levantando-se de salto.

Giovani correu os olhos pelo ambiente deserto. O barman, um sujeito mais velho com marcas do tempo no rosto, o encarava com uma curiosidade velada por trás do balcão. Trocaram um olhar breve e silencioso. Giovani concluiu que o homem não devia ser da época de seu pai — pelo menos, não se lembrava daquela figura quando costumava andar por aquelas ruas ao lado de Don Giussepe.

— Já pagou a conta? — perguntou Giovani, ajustando os punhos do paletó.

— Sim, já está tudo certo — Antoni respondeu, checando o relógio de pulso antes de completar com o tom cauteloso de sempre. — Mas a esta hora...

— Não vamos para casa — interrompeu Giovani, caminhando a passos firmes em direção à saída. — Precisamos nos acomodar por uns dias.

Ao cruzar a porta de saída, o vento frio da madrugada atingiu seu rosto, trazendo consigo o cheiro característico de umidade, asfalto molhado e a sujeira decadente que impregnava aquelas alamedas. Era o aroma desagradável do passado tentando se reconectar com ele.

A caminhada até o hotel foi silenciosa. Antoni mantinha uma expressão contrariada, nitidamente insatisfeito com a decisão de adiar o retorno, mas conhecia o chefe o suficiente para não questioná-lo abertamente. Giovani não se deu ao trabalho de explicar seus motivos. Antes de tomar qualquer atitude definitiva na Itália, ele precisava avaliar pessoalmente quem eram os supostos "inimigos" dos quais Pablo Bellini tanto falava.

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